Lazer e Investimento (I)

Carlos Pimenta

1. Filatelia é um pretexto para viajarmos, saltitando entre o deslumbramento da realidade e a ternura da imaginação, enfrentando as misérias e injustiças do mundo que construímos e a redescoberta de novos mundo que o Homem tem de dar aos homens.
Como diz o refrão do Hino da Filatelia (criado por Maria Yvete Fontoura)
Filatelia uma arte
Fonte sadia de grande prazer
Um exercício de paciência e ordem
Uma ciência, um estudo, um lazer
ou, num outro poema (Filatelia, ao meu ver, de Ricardo Borges Duarte),
(...)
Filatelia é uma semente
Que nasce dentro da gente,
Regada por uma doce magia,
Que em sua rica colheita
Saboreamos a fruta perfeita
E fartamo-nos de sabedoria!
(...)
É uma fonte inesgotável, de prazer incalculável,
De ampliação de conhecimentos,
Um aprimoramento intelectual,
Uma Terapia Ocupacional,
Um "hobby" com fundamentos.
Com cartas e selos, com inteiros-postais e carimbos, com postais-máximos e franquias mecânicas, com tudo o que tem sido utilizado para colocar os homens a comunicarem entre si através do que designamos por correio podemos construir um nosso mundo, muito feito à nossa medida, compreender melhor o mundo de todos nós, contemplar de nova forma o futuro e agirmos em conformidade.

2. Por isso a filatelia é uma forma de lazer.
Num mundo global que só conhece a "sociedade do lazer" no restrito grupo (particularmente restrito em termos populacionais) dos países altamente desenvolvidos impõe-se criar condições para que um número cada vez maior de cidadãos possam usufruir desse elemento de dignificação humana e que nas sociedades desenvolvidas se amplie e consolide o direito à diferença.
A "Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural" é uma referência fundamental. Como afirmei oportunamente a diversidade humana coloca-se em primeiro lugar como exigência de convivência de culturas e povos diferentes, como coexistência de diferentes culturas, alicerçada no reconhecimento simultâneo de todas elas, na aceitação do outro como complemento indissociável do eu. A diversidade referida na declaração passa, como primeira condição de existência, pela interculturalidade.
Contudo, como se manifesta no seu artigo terceiro, tem também uma dimensão individual. A diversidade é também a possibilidade de manifestação da liberdade individual. E, como Arendt afirmou, "a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade de seres únicos" (Condition de l'Homme Moderne, Paris, Calmann Levy).
Na manifestação desta individualidade plural o lazer tem uma função relevante, devendo-se precisar que aquele já não pode ser encarado hoje como uma simples ausência de trabalho. Tem uma função social fundamental enquanto atenuação de tensões, enquanto manifestação de liberdade, enquanto "reserva de consumo" a ser utilizado pelo capitalismo.
Ora a filatelia tem, como todas as formas de manifestação humana capazes de enriquecer o património humanista e cultural, um papel a desempenhar nesse processo. Do ponto de vista social a sua relevância pode ser pequena (compare-se por exemplo o número de cidadãos envolvidos na filatelia e nas viagens de férias ou nos desportos de massa!) mas do ponto de vista individual pode ser tão importante quanto o é a formação da personalidade de cada um de nós. Pode ser a gota de água no oceano que faz transbordar o dique.

3. Se na nossa opinião esta é a vertente sociológica mais importante da filatelia, não podemos ignorar três factores concomitantes:
  1. Vivemos numa sociedade e numa fase histórica, que simplistamente podemos designar de globalização, em que o pragmatismo económico e a possibilidade de lucratividade das nossas actividades são vertentes dominantes da vida em sociedade;
  2. Há todo um negócio em torno da filatelia: das frequentes emissões das administrações postais aos muitos comerciantes de selos; das vendas permanentes na Internet aos tradicionais e multimilionários leilões; das exposições filatélicas rodeadas de luxo às honrarias e exibições proporcionadas pelos eventos filatélicos. Nos últimos anos tem havido um esforço deliberado por parte de alguns sectores para colocar os selos, e similares, com o mesmo estatuto dos títulos transaccionados na bolsa.
  3. Os meios de informação tendem a empolar a dimensão económica e opulenta, da filatelia, em detrimento de todas as outras vertentes. Se um, professor numa escola duma "zona marginal", utilizar os selos para modificar práticas sociais e estimular a cultura entre as crianças; se num hospital os selos surgirem como um passatempo capaz de aliviar as dores e iluminar o futuro; se um idoso encontra na colecção de selos uma forma de realização pessoal após ter sido voluntária ou compulsivamente afastado do processo produtivo; se um estudioso da correspondência encontrar na história postal a forma de se revelar como investigador e como escritor; se os selos de todos os países da União Europeia acrescidos de textos sobre o que representam, traduzidos nas diversas línguas poder ser o suporte dum projecto de um melhor conhecimento mútuo da Europa; se tudo isto acontecer, e acontece, é provável que nenhum orgão de informação saiba e refira. São bons exemplos que ficam socialmente limitados por escassez de informação. Mas se um selo for vendido por um milhão de dólares ou um senhor todo poderoso do "capitalismo filatélico mundial" desejar dar uma entrevista para convencer os investidores a aplicarem as suas poupanças em selos, milhares de portas se abrirão e todo o mundo tomará conhecimento.

Estes factos fazem com que actualmente os selos sejam frequentemente apresentados como investimento.
Cabe-nos perguntar: são mesmo? são rentáveis?

Uma das grandes dúvidas de peritagem
Uma das peças que mais discussão tem dado. "One Penny Black", o primeiro selo a nível mundial, teve oficialmente a sua emissão a 6 de Maio de 1840. Esta carta circulada com esse selo tem a data de 1 de Maio.Tanto pode valer uma fortuna (se for verdadeira) como nada valer (se for falsa). As peritagens têm dado resultados contraditórios.


4. Quando começámos a escrita deste artigo tencionavamos abordar de uma forma sistemática este aspecto. O entusiasmo de outras considerações levou-nos a alongar nas outras matérias.
Este será o tema do próximo artigo.


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2003/09/01