Artigo impresso
Olhai com atenção para as cartas que recebem
Carlos Pimenta
Quando pretendo indagar as origens de alguns dos meus comportamentos mergulho na neblina dos acontecimentos, na minha dificuldade em articular os pormenores da sequência temporal, o meu relativo desprezo pelo passado, não por falta de consideração por ele mas porque sempre olhei mais para o futuro e porque admito que a história se faz do futuro para o passado - é à luz dos nossos objectivos e das nossas vivências contemporâneas que olhamos para a sequência anterior do tempo.
Por isso não consigo recordar com precisão quais foram as minhas primeiras colecções. Talvez os papeis que embrulhavam os rebuçados, as cadernetas de jogadores de futebol, os berlindes ganhos, sobretudo os abafadores de cores luxuriantes e preços exagerados para as nossas plebeias algibeiras, os carrinhos de corrida feito de latão.
A única coisa que sei é que a colecção de selos foi uma paixão posterior, resultado da persistência de um vizinho, velho de idade mas jovial de espírito, rijo como árvore que nunca vergou com o vento, que gostava de ver o meu sorriso ao oferecer-me os selos cuidadosamente recortados a partir do envelope. Porque esse velho amigo recebia cartas de diversos países do mundo, porque o meu pai que trabalhava num banco francês começou também a trazer recortes de selos, porque entretanto descolei-os em água morna com um pouco de sal para não desbotarem, porque o meu pai arranjou-me folhas para os organizar por países onde os colava com uma charneira, porque muitos outros colegas tinham práticas semelhantes e começamos a trocar selos, passei a ser um viajante pelo mundo através dos selos.
Ainda estava longe de saber como manuseá-los, como organizá-los, como coleccioná-los. Para mim só os selos contavam e desprezava tudo o mais. Nem sequer reparava nos carimbos, pois mais que sinais de uma viagem das cartas e dos selos eles eram apenas aquela mancha que me impedia de ver o selo na sua beleza natural. Mas a minha colecção era uma viagem permanente, um orgulho imenso, um prazer quiçá superior ao que hoje sinto ao manuseá-la. Era uma alegria espontânea, sem racionalidades, puro sentimento reluzindo nos olhos.
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| Fig. 1 |
Hoje os selos são elemento raro na maioria das cartas. As etiquetas tornaram-se os seus substitutos. Talvez muitos de nós continuemos a ter a mania, resquícios da infância ou de poucos conhecimentos, de olharmos mais para os selos que para os restantes elementos, mas enquanto houver cartas há filatelia, mesmo que ela possa assumir diversas formas.
Para o ilustrar reproduzo duas que tive o prazer de receber, falando um pouco sobre cada uma delas.
Reparem nesta pequena maravilha (fig. 1). Qual não seria a criança que não se sentiria atraída por tanta cor brotando das universais figuras animadas de Disney, bloco emitido pelos Correios Franceses. Não é por acaso que diversas administrações postais apostaram decididamente em emissões de selos com figuras dos desenhos animados. Uma iniciativa semelhante dos correios portugueses esgotou-se. Se, como diz o ditado, é de pequenino que se torce o pepino, não há dúvida que é uma interessante forma de entusiasmar os mais jovens pelo coleccionismo de selos.
Mas não deverá passar despercebido o carimbo de Pontarlier reproduzindo um castelo, simbolo da zona fronteiriça da França com a Suiça. Tratando-se de uma carta registada levou uma etiqueta de valor nulo, pois os selos cobriam o valor a colocar na carta, associado à etiqueta de código de barras colocada no verso.
Perguntarão alguns, para que serve o código de barras? Tão simplesmente para ir sendo lida ao longo do seu percurso - daí o carimbo da estação dos CTT onde vou buscar a correspondência - e qualquer pessoa poder através da Internet saber onde se encontra a carta, introduzindo no respectivo formulário o código.
É tão somente uma carta mas conta uma história e permitirá começarmos muitas outras.
Reparem agora nesta segunda carta (fig. 2). Foi enviada por uma empresa francesa, situada em Paris, para Portugal. Como se justifica, então ter dois selos dinamarqueses, carimbos dinamarqueses e a barra de passagem pela máquina de distribuição de correio com um código postal dinamarquês? É simples, a empresa francesa confiou o envio da sua correspondência para o estrangeiro, talvez mesmo para França, aos correios da Dinamarca, certamente com preços mais competitivos. É uma manifestação da globalização que vivemos e poderão ser peças raras no futuro se quem as recebe não as olhar com atenção e as guardar. A letra B, apesar de garrafal, indica tão somente que a carta circulou por "correio económico".
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| Fig. 2 |
Merece a pena olhar com atenção para a correspondência que recebemos e começarmos a coleccionar!
A124/#515
2004/08
Mundo Português