A Selva Humana

Carlos Pimenta

Postal máximo brasileiro com selo de uma série sobre "trabalho nacional" emitida em 1976, representando um seringueiro. O postal ilustrado de Edições A Favorita foca o mesmo tema, com descrição original em inglês: Cutting the Oark of the rubber trees so that the sap will flow. Manaus. State of the Amazon, Brazil. O carimbo é de Manaus, posto de correio mais próximo do local da salva amazónica onde se realizavam estas actividades, e tem a data de 10/08/1981, data em que o selo ainda estava em circulação.


1. Há dias passou na Radio Televisão Portuguesa a coprodução luso-brasileira A Selva, inspirada no romance com o mesmo nome de Ferreira de Castro.
Quando se fala hoje na selva amazónica a tendência é associá-la às questões ecológicas, na medida em que é considerada um dos grandes pulmões da humanidade, um espaço fundamental para a oxigenação do ar que todos nós respiramos. Os ataques de que tem sido alvo põe em risco a própria sobrevivência de todos nós.
Contudo há outras razões para os portugueses recordá-la, com respeito pela força da natureza e a tristeza por nem todos os cidadãos encontrarem na sua terra natal o que necessitam para uma vida condigna.

«Quando um final de infância agitado me levou ao Amazonas, a minha aldeia nativa, aqui, em Portugal, de tão distante e envolta em nostalgia, parecia-me uma ilusão. Só o carimbo das cartas recebidas me traziam a certeza de que não fora apenas sonho a minha vida até esse momento - de que o berço existia, florido, atraente, para lá da selva, para além do Atlântico.
Hoje, dá-se o inverso. Muitas vezes, ao evocar a minha estadia na plaga ardente, pergunto, duvidoso, a mim próprio:
- Mas eu, de facto, estive lá?
Está nítido na minha retina o panorama soberbo, está nítida no meu espírito a vida miserável, mas tudo isso me parece visto e vivido numa outra encarnação. Não é, porém, assim. Estão aqui, amarelecidos pelo tempo, os papéis onde tracei as minhas impressões de adolescente - as minhas primeiras impressões ante o mundo novo, bárbaro e assombroso, que se me revelava»


São palavras de Ferreira de Castro no pórtico do seu livro, cuja primeira edição saiu em 1930. Suou como um grito de revolta pela necessidade de muitos portugueses emigrarem, na procura de uma vida condigna, enfrentando a miséria e o desespero, regressando destroçados ou mantendo-se para sempre longe das suas raízes.
Ferreira de Castro resistiu ao trabalho quase escravo, à insalubridade e à doença, convertendo o relato realista da sua experiência na sua consagração nacional, em época particularmente difícil, e internacional. Muito outros deixaram carne e ossos, vontade e sonhos, na sombra de alguma seringueira.

Selo português representando Ferreira de Castro, emitido em 1998 em comeoração do centenário do seu nascimento.


2. Oitenta anos se passaram desde os acontecimentos descritos no livro. Sucessivas gerações de portugueses conheceram a emigração. As condições de vida mudaram, o campo de concentração à beira-mar plantado construiu a liberdade e a dignidade. Abriu-se ao mundo reconstruindo socialmente o seu espaço geográfico europeu. Continuamos a ser emigrantes, mas noutras condições e noutros contextos. De país de emigração convertemo-nos em país de imigração.
As condições mudaram, mas é importante que não se perca a nossa memória colectiva. A emigração marcou os genes do português.

Fotografia da época, mostrando emigrantes antes da partida.


3. Na selva amazónica o trabalho humano era inumano.
Pensámos que não poderia durar eternamente. A escravatura já tinha sido abolida. Mesmo nos locais onde se manifestava sob outras roupagens jurídicas - o caso dos contratados nas roças de São Tomé e Príncipe - o respeito pelo Homem acabou por se impor. Julgávamos que era assunto do passado.
Enganámo-nos. A globalização dos nossos dias voltou a levantar o espantalho da escravatura.
A National Gographic para Portugal de Setembro 2003 anunciava na sua capa "Há 27 milhões de seres huamnos tratados como propriedade. Sãos os escravos do Século XXI". E para que não existissem dúvidas no início do artigo afirma "O título não é uma metáfora. Falamos mesmo de escravos. Não de seres humanos que vivem como escravos, trabalhando por um salário miserável. Não são também os escravos de há 200 anos. Falamos dos 27 milhões de pessoas que, em todo o mundo, incluindo Portugal, são compradas e vendidas, exploradas e brutalizadas para dar lucro". E é bom que se distinga da escravatura de há 200 anos, pois em 1850, citando um especialista nessas matérias, "o preço médio de um escravo elevava-se a cerca de 35.200 euros, em dinheiro actual", enquanto hoje um escravo rondará os 1000 euros.
Hoje a escravatura recruta em todo o mundo, onde a miséria campeia e os sonhos de uma vida melhor estonteiam percursos. As dívidas às máfias do recrutamento e transporte e uma segurança musculada por parte dos traficantes são os ingredientes que forçam à continuação da escravatura. As formas, os locais e os processos são diversos: mulheres e crianças, mas também homens adultos; provenientes da China, Índia, Rússia, Bulgária, Guatemala, Honduras, México ou qualquer outro país de qualquer um dos continentes, trabalhando no Brasil ou nos EUA, na UE, na Índia, em África, na Turquia ou em qualquer outro país, particularmente onde os níveis de rendimento, não para eles, são mais elevados.
A utilização na prostituição é frequentemente referido, mas campeia em todas es actividades, da agricultura aos coiros, da indústria extractiva aos restaurantes, um pouco por todo o lado. Faz parte, sem nos apercebermos, do nosso quotidiano.

4. A luta pela dignidade humana nunca pára!


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2004
Escrito para Mundo Português