Ecologia e Armas

Carlos Pimenta

O desenvolvimento económico-social permite que os homens tenham hoje padrões de vida bastante superiores aos dos seus antepassados e mesmo aqueles, infelizmente ainda contados em muitos milhões, que hoje continuam a morrer de fome, de doenças possíveis de ser combatidas e de outras malformações sociais que há muito poderiam ter desaparecido, podem ter total certeza que tal não resulta do atraso da ciência ou dos conhecimentos, mas apenas da falta de vontade política e das contradições objectivas da sociedade globalizada em que vivemos.
Mas esse mesmo desenvolvimento criou condições materiais e culturais para que o homem se considerasse uma entidade à parte na Natureza, que a economia, suporte da evolução social, encarasse aquela apenas como o local onde se vai buscar recursos e onde se vai depositar os resíduos da actividade humana. Criou condições para a humanidade ser capaz de destruir aceleradamente o ambiente que suporta a própria existência da vida, da vida humana.
Esta contradição permanente entre as potencialidades benéficas e maléficas do desenvolvimento científico e social só é resolúvel pela consolidação de uma ética que minimize os aspectos negativos e valorize as vertentes positivas dos comportamentos sociais, uma ética individual e colectiva que se consolida através de transformações político-sociais que valorizem o respeito pelo homem, por todos os homens.
Este respeito pelo homem envolve uma panóplia de objectivos e meios e subestimar qualquer um deles é um atentado à dignidade humana, um crime contra o humanismo. Como se pode defender o respeito pelos direitos humanos e mandar bombas sobre populações indefesas? Como se pode lutar pela paz e não respeitar as diferenças culturais? Como se pode lutar pela saúde pública e impor regras de comercialização mundial dos medicamentos que leva a dizimar milhões de cidadãos africanos? Como se pode lutar contra a existência de armas químicas e continuar a mandar para o fundo de mar toneladas de lixo tóxico? Pura e simplesmente não é possível!
Esta compatibilidade entre a capacidade construtora e destruidora dos homens tem muitas facetas. Entre elas a ecológica. Por isso ninguém tem dúvidas sobre a importância que as problemáticas do ambiente têm para o futuro da humanidade.

Ano Internacional da Montanha (2002).
Envelope do 1º Dia da Administração Postal das Nações Unidas (Genebra) com os quatro selos da série e o respectivo carimbo


Talvez por isso as questões ecológicas são cada vez mais motivo para a emissão de selos, para a criação de carimbos, para a divulgação de slogans através dos correios dos diversos países. Em 1998 comemorou-se o Ano Internacional dos Oceanos. Em 2002 comemorou-se com abundantes emissões de selos o Ano Internacional das Montanhas e o Ano Internacional do Ecoturismo. E ainda algumas administrações postais emitem selos alusivos a esses acontecimentos e já a Assembleia Geral das Nações Unidas proclama que o presente ano como o Ano Internacional da Água Doce, de que resultará certamente várias emissões filatélicas.
Estas iniciativas podem contribuir para a formação de uma consciência democrática mundial da importância das problemáticas ambientais e nessa medida devem ser estimuladas e divulgadas. Mas simultaneamente é necessário estarmos atentos contra as manobras ideológicas que podem passar por fazer esquecer outras vertentes fundamentais das relações entre os homens (a guerra que continua a ser um dos problemas mais dolorosos da humanidade; a falta de respeito pelas instituições democráticas nacionais e internacionais, entre outros aspectos) ou por encarar apenas aspectos marginais das questões ecológicas.
Pensar nas questões ambientais não é apenas ter em atenção as espécies animais em extinção, a qualidade da água da praia que se deseja utilizar, conhecer os impactos meteorológicos de algumas alterações climáticas. Pode ser tudo isso mas é essencialmente o respeito pela vida humana, lutar pela sobrevivência do homem com melhores condições de vida.
É ter consciência que lançar na natureza certos produtos é uma arma de destruição mais poderosa, e de impactos mais irreversíveis, que uma bomba atómica. É ter a consciência que essa arma não é utilizada pelos outros, pelos que vivem em regiões de menos desenvolvimento económico-social, mas essencialmente por nós, pelos países da Europa e da América. É ter a consciência que somos cúmplices desses crimes, e que no quotidiano devemos lutar contra isso.

Ano Internacional da Água Doce (2003).
Carimbo comemorativo da Administração Postal das Nações Unidas (Nova Iorque).



A121/#506
2003
Escrito para Mundo Português