Manual do Jovem - Prazer e Coerência

C. Pimenta

"É preciso limitar a sua colecção escolhendo um ângulo. E já que o faz tente casar os prazeres aliando a paixão pelos selos com uma outra. Coleccione o que lhe agrada, o que ama, pois é a única lei para despertar e manter a sua paixão" (1)


Falar em coleccionismo é falar de prazer, de lazer. Coleccionam-se selos porque se gosta, porque sentimos paz de espírito, tranquilidade, satisfação, alegria. Um lazer que dá trabalho, que é uma fonte sistemática de informação e cultura, de descoberta do mundo e de relacionamento humano, de descoberta da beleza da diversidade.

A chave da filatelia é o

prazer


e é ele que nos deve orientar dominantemente nas opções que fizermos sobre o que coleccionar.

Seríamos, contudo, insensatos se não tivéssemos em conta outros parâmetros, de que destacaríamos os económico-financeiros e os de enquadramento regulamentar.

Coleccionar selos exige recursos financeiros para adquirir peças filatélicas e para comprar os materiais indispensáveis à boa observação, organização, conservação e apresentação das peças filatélicas. Poderemos fazer colecções e usar mais ou menos caros mas exige-se sempre recursos que têm de ser tomados em conta. É assim porque as peças filatélicas emitidas e existentes no mercado são em grande quantidade, porque os materiais filatélicos estão muito caros e algumas práticas tradicionais baratas caíram em desuso, porque não existem sistematicamente disponíveis e acessíveis catálogos e bibliotecas filatélicas abertas ao público.

Quaisquer práticas que tornem eventualmente uma colecção menos cara não supera as dificuldades que acabamos de citar.

Mas a vertente económica da filatelia também pode ser encarada na perspectiva de investimento: a taxa de rentabilização de algumas peças filatélicas é bastante elevada. Poderemos considerar que assumir esta vertente como fundamental será desvirtuar o espírito do coleccionismo. Pareja(1) afirma com razão
"para entrar por la puerta grande del filatelismo es necesario dejar a un lado la idea del negocio fabuloso"


Contudo não podemos deixar de ter em conta que a consideração deste aspecto está presente em alguns coleccionadores.

Os regulamentos filatélicos são outro aspecto a ter em consideração. Provavelmente quando se inicia uma colecção é um aspecto a que se dedica pouca atenção, mas ele ter ser tido em consideração em alguma fase da actividade filatélica.

É sobretudo quando se pretende divulgar a nossa colecção, participar em exposições e em competições que o problema se coloca. Então há que conhecer as normas existentes, qual o entendimento da Federação Internacional de Filatelia (ver nas ligações internacionais a página desta instituição) sobre cada tipo de coleccionismo, sobre a organização da colecção, sobre a importância relativa de cada um dos seus elementos constitutivos, sobre o que deve ou não integrá-la. Se então se põe o problema de conhecer essa regulamentação então é melhor que se conheça desde o início. (ver no Menu a o opção de Regulamentos).

Mas existem outras situações em que o problema se pode colocar: interessam-me selos de administrações postais fantasma? Coloco na colecção peças filatélicas que foram emitidas sem a intenção de ser utilizadas no correio e que efectivamente nunca o foram?


Em resumo, é no triângulo PRAZER - ECONOMIA - REGULAMENTOS que o filatelista se encontra e é a consideração desses três elementos que devem conduzir à resposta da questão com que iniciamos este capítulo

o que coleccionar?


Defendemos que o filatelista se coloque permanentemente no triângulo do prazer, que aproveite a filatelia para dar largas à sua imaginação criadora, tão quotidianamente esmagada pela rotina, pelos hábitos, pelas imposições sociais. Defendemos que a filatelia por essa via, do prazer, da imaginação, da irreverência construtiva se pode transformar num elemento fundamental da cultura integral do indivíduo numa sociedade democrática.


Triângulo do Prazer

Se as razões do coleccionismo e das opções filatélicas em cada momento têm como elementos motivadores ou condicionantes o que referimos, isto é, o prazer, as motivações económicas (seja de despesas a realizar seja de investimentos a promover) e a regulamentação filatélica existente, podemos representar cada um desses elementos por um lado de um triângulo equilátero:



Quando se opta, por exemplo, em coleccionar os selos portugueses modernos, isto é, após 1940, fazemo-lo em parte por cada um dos três motivos: estou mais interessado pela história contemporânea, gosto mais das emissões comemorativas policromas, não tenho recursos financeiros para os primeiros selos de Portugal e fixei-me num período consentâneo com as periodizações aceites.

Atribuamos a cada um desses elementos uma percentagem de importância. Se admitirmos que aqueles são os únicos elementos tidos em conta, a soma das suas percentagens é 100%. Por exemplo

Prazer: 60%
Económico: 30%
Regulamentação: 10%

Se no triângulo anterior cada um dos lados tiver uma escala de 0 a 100%, a referida motivação poderá ser representada por um ponto:


Para compreendermos melhor esta lógica consideremos cinco hipóteses de motivação e representemo-las no nosso gráfico:

  S1 S2 S3 S4 S5
Prazer 50,0 40,0 30,0 33,3 60,0
Económico 20,0 50,0 20,0 33,3 40,0
Regulamentação 30,0 10,0 50,0 33,3 0




Conforme a importância atribuída a cada um dos elementos assim o posicionamento da motivação no gráfico.



P corresponde às opções em que o prazer representa pelo menos 50% da motivação e R e E às opções em que representam pelo menos 50% a regulamentação e os factores económicos, respectivamente.
Defendemos que as grandes decisões filatélicas como


  • coleccionar ou não?
  • o que coleccionar?
  • como montar a colecção?


devem estar sempre na zona vermelha (P), no triângulo do prazer.



É nessa perspectiva que se inserem algumas das considerações seguintes, apesar de se procurar ter em conta a multiplicidade de realidades em presença e admitir que mais do que as nossas informações e sugestões conta as idiossincrasias de cada um.

Partimos de duas hipóteses, que passamos a analisar de seguida:
  1. É impossível coleccionar todos os selos do mundo, mesmo que o decidíssemos fazer apenas para os editados a partir de hoje.
    Para ilustrar a possível veracidade desta afirmação tomemos como exemplo as novidades anunciadas pelas revistas filatélicas. Segundo estes dados num ano editam-se 17500 peças filatélicas (selos, blocos, carteiras, etc.) com um valor de catálogo de 5.000.000$00. Para além da despesa que este valor significa note que necessitaria de cerca de 150 dias com oito horas de trabalho para organizar minimamente a sua colecção.



    Nota Complementar

    Os dados que se apresentam de seguida partem de uma estimativa com base num numero reduzido de meses recentes. Mas o assunto já foi tratado sistematicamente em alguns estudos. Assim, por exemplo, "Crónica Filatelia e Numismática" n.º 101 de Junho de 1993 trazia um estudo cujo título era significativo: "Mais de 10.000 selos num ano".

    Segundo esse estudo a quase totalidade das administrações postais emitiram selos num valor facial de 3239,29 libras esterlinas em 1982 e 3642,71 em 1991. Para o conjunto dos anos a evolução é a seguinte:



    Segundo uma informação da Michel, em 1996 emitiram-se 11340 novos selos, num valor total de 33704,70 Marcos Alemães. Emitiu-se mais que no ano anterior. As Guyanas, São Vicente e a Tanzânia foram os países que mais emitiram. A Gâmbia, Benin e, mais uma vez, as Guianas são as mais valor emitiram. Comores não emitiram nenhum selo e Penrhyn só emitiu dois.

    No ano seguinte o panorama repete-se: 12090 selos e 1155 blocos.

    São estes números compatíveis com os apresentados anteriormente? Não totalmente. As fontes e metodologias são diferentes. Repare-se, no entanto que

    • alguns selos são emitidos sob diversas formas (selo, bloco, carteira, etc.) pelo que os valores aqui apresentados tornam-se mais elevados ao considerar esses aspectos
    • o valor de catálogo, para os novos é o dobro do valor facial.


  2. Admite-se que uma colecção tem uma coerência interna, isto é, há um elemento comum a todas as peças filatélicas que a constituem.
    Esta ordem pode ser encontrada no facto de todos os selos serem da mesma época histórica ou da mesma região, terem uma imagem ou motivo de edição comuns, utilizarem o mesmo processo de impressão ou terem sido desenhados pelo mesmo artista. Essa ordem pode resultar de qualquer outra razão de mais difícil explicitação.
    A ordem normalmente alicerçar-se em critérios objectivos mas poderão existir outros: o conjunto de peças filatélicas que estão associadas a certos acontecimentos da nossa vida, que nos foram oferecidos por entes queridos, que despertaram um sentimento de admiração estética, etc.

Aceitando estas hipóteses, e embora admitindo que decidirmos fazer uma colecção tem sempre causas e motivações múltiplas, analisamos primeiro algumas opções puras para, numa fase seguinte complexizarmos.

Referências Bibliográficas:
(1) "Cas de Conscience, Choisir as Collection", ATOUT Timbre nº 3
(2) A Serrano PAREJA, Coleccionismo de Sellos, 1979, Madrid, Editorial Everest, página inicial.




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