Aventura e Inovação

Carlos Pimenta

1. "Somos um País de marinheiros!".
Com esta afirmação categórica pretendemos por vezes caracterizar a nossa essência, a nossa maneira específica de estar no mundo, a nossa lusitanidade, a nossa implantação à beira-mar. Na mescla de etnias e culturas durante milhares de anos e na continuidade, que temos dificuldade em aceitar desde pequenos, dos restantes povos que habitam a península ibérica, é pouco plausível uma essência radicalmente específica, mas a frase assenta bem na emotividade do nosso ego. Será duvidoso que os povos da Lusitânia, guerreiros mas integrados no Império Romano, marquem actualmente os nossos genes ou o nosso inconsciente, mas habituamo-nos sem esforço a ouvir falar de "lusos", "lusitanos" e de "descendermos" emblematicamente de Viriato, e essas identidades assentam bem na emotividade do nosso ego. Hoje não somos marinheiros, as nossas relações com o mar são mais turísticas que navegadoras ou piscatórias, hoje temos uma frota pesqueira ultrapassada, as nossas águas territoriais são legalmente invadidas pelos barcos dos outros países da União Europeia, bacalhau é animal raro e com carimbo escandinavo, mas nós continuamos a recordar com orgulho, talvez saudade, certamente nostalgia, os tempos passados em que éramos marinheiros e o nosso orgulho atinge os píncaros do Himalaia.
Se alguma coisa resta desse "país de marinheiros" é continuarmos a ser emigrantes, espalhando-nos aos milhões pelos cinco continentes, aí revelando inovação e empreendorismo que em terra pátria não manifestamos ou não temos oportunidade de revelar. Emigrantes por vocação, obrigação ou desventura. Emigrantes nas situações mais diversas, com posturas e acções tão diversificadas quantas as suas características de origem e, sobretudo, as sociedades de destino.

Mapa
Representação esquemática do Canadá e da região onde vivia Pedro da Silva


2. Pedro da Silva é um desses portugueses que procuram em terras distantes, e neste caso inóspitas, a sua sorte. Um nome vulgar que muitos outros certamente tiveram.
Pouco se sabe da sua vida. Uma publicação dos Correios do Canada dá conta do pouco que é conhecido: deixou Portugal antes de 1673; casou-se em 1677 e teve 14 filhos; quatro anos depois daquele evento habitava em Beauport, junto ao mar, próximo da cidade do Quebeque, vindo algum tempo depois a deslocar-se para mais próximo desta cidade.
O seu modo de vida era o transporte de mercadorias, sendo um importante elo de ligação entre os barcos que chegavam carregados de bens e os seus destinatários. Conhecido pelo bom desempenho das suas funções, mesmo durante os rigorosos invernos que caracterizam a região, passou também a ser encaminhador de correspondência (cartas e encomendas), admitindo-se que o transporte de uma encomenda entre Quebeque e Montreal lhe rendesse o correspondente a uma libra.
Retomando a referida publicação:
Em 23 de dezembro de 1705 ele [também conhecido por Pierre da Sylva ou tão simplesmente "o português"] recebeu um documento de Jacques Raudot, intendente da Nova França, que lhe conferia o título de "primeiro correio" do Canadá. Também recebeu a permissão de transportar as cartas de particulares e as respectivas respostas. A sua pontualidade, a sua diligência e a sua lealdade valeram-lhe o privilégio de se tornar "mensageiro regular" das mercadorias e dos despachos reais e do governador da Nova França, entre Quebec e os Três-Rios ou Montreal

3. Em Junho deste ano os Correios do Canadá emitiram um selo comemorativo de 48 cêntimos, o qual se manterá à venda durante o período dum ano. O carimbo comemorativo do primeiro dia de emissão tem a marca de Montreal e reproduz a assinatura desse ilustre português, a qual também se encontra no selo, em tons claros.

FDC
Envelope do Primeiro Dia onde se pode ver o selo, cujo tema de fundo é retirado de uma gravura de 1760 representando o Quebeque. No selo, e mais visivelmente no carimbo e no envelope, a assinatura de "o português". O selo de lacre com as marcas do Conselho Soberano da Nova França representa a entidade que concedeu o título de primeiro correio e simboliza a confidencialidade da correspondência em vigor a partir daí.


4. Esta emissão é uma justa homenagem a um português e, por seu intermédio, a muitos portugueses que têm colocado todo o seu empenho e esforço na construção de outras nações.
Seria interessante que outros países reconhecessem quanto devem aos imigrantes portugueses e também encontrassem formas filatélicas de manifestar o seu apreço. Provavelmente as comunidades portugueses nesses diversos países podem contribuir para esse facto.
Para tal impõe-se manter viva a cultura de Portugal, divulgar as nossas realidades (geográficas, históricas, artísticas, sociológicas e outras) frequentemente esquecidas, expressamente ignoradas ou tão simplesmente baralhadas.
Orgulho-me em colaborar numa revista que se mantém nesta rota.


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2003/08
Mundo Português nº 112