De Espanha, bons eventos

Carlos Pimenta

Obra de Gaudi (1)
Pormenor da Casa Milá, conhecida por A Pedreira, construída entre 1906-1912 no centro de Barcelona. Esta edificação é um conjunto de apartamentos. (De site de homenagem a Gaudí: www.gaudi2002.bcn.es)


Obra de Gaudi (2)
Uma visão de conjunto da Sagrada Família, obra inacabada do que pretendia ser a catedral moderna de Barcelona. "Templo de base gótica (...) com aplicação muito engenhosa de elementos decorativos. É o reconhecimento da essência dos conhecimentos de Gaudí", afirma-se no comentário a esta obra. (De site de homenagem a Gaudí)


1. "De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos". É um ditado que todos nós conhecemos e que reflecte séculos de vizinhança e a apresentação de uma imagem das relações entre Portugal e Espanha que passa pela sobrevalorização das nossas capacidades e desvalorização das dos outros. É uma posição que frequentemente continua a pertencer ao nosso imaginário e a influenciar as nossas vidas, sem disso nos percebermos.
E continuamos a falar de uma Espanha, que é uma combinação de regiões muito diferentes, com uma imagem do passado.
Não é com a sobrevivência destes ditados que viveremos a interculturalidade, o respeito pelo outro, o estreitamento das interconexões que a mundialização (não se confunda com globalização!) impõe. A auto-imagem de "brandos costumes" é o que Sartre, filósofo existencialista francês, designaria por ser de má-fé, mentirmo-nos a nós próprios.
Por isso resolvemos neste artigo falar de um bom evento que nos veio de Barcelona, Catalunha, uma das regiões mais dinâmicas de Espanha. Evento em que os Correios deram o seu contributo, transformando uma comemoração cultural também num evento filatélico.
Estamos a falar do Ano Internacional de Gaudí.
Ano internacional, não porque tenha sido decidido por alguma instância internacional mas porque as entidades catalãs, e espanholas, pretenderam transformar num acontecimento de impacto internacional. Aliás este é um procedimento que já foi assumido em outras comemorações de artistas como, por exemplo, o Ano Internacional de Rubens (1977), por iniciativa da Bélgica.

eventos
Entre a multiplicidade de eventos em honra de Gaudí e de divulgação da sua obra, alguns foram de natureza filatélica. Estes dois carimbos comemorativos associam duas exposições filatélicas realizadas durante 2002 ao Ano Internacional de Gaudí.


ciclismo
A volta à Catalunha de bicicleta foi comemorado filatelicamente com a emissão do carimbo que aqui se apresenta. O que é interessante neste magnífico carimbo é reproduzir em silhueta a obra arquitectónica mais célebre de Gaudí: a catedral da Sagrada Família, apresentada na imagem 6.


2. Quem foi Gaudí?
Um cidadão nascido em 1852 em Reus. É esta data que fez com que o ano de 2002 fosse consagrado à sua figura, comemoração dos 50 anos do seu nascimento.
Atraído pela observação da natureza, concentrado na cor e na geometria, em 1868 iniciou os seus estudos em arquitectura em Barcelona, onde veio a exercer a sua profissão, concretizando arquitectonicamente pedidos provenientes da igreja e da burguesia local.
Morreu em 1926.
A sua importância, nem sempre reconhecida em vida e esquecida durante vários anos após a sua morte, resulta da sua criatividade arquitectónica e do arrojo em concretizá-la: 15 obras na Barcelona, 6 na Catalunha, fora de Barcelona, e 4 em Espanha, fora da Catalunha, são o resultado do seu labor.
Como vimos, por nascença, vida, formação e obra estamos perante um artista catalão.

FDC
Envelope do 1º Dia com o selo emitido em honra de Gaudí, no qual também se reproduz a Sagrada Família.


blocos não filatélicos
Diversos países, ao longo dos anos e não apenas agora, têm emitido selos de divulgação de Gaudí. Sem valor filatélico - porque se trata de documentos que não foram criados para circulação da correspondência - as Escolas da Sagrada Família emitiram seis documentos, com a aparência de blocos, em que reproduzem selos e moedas emitidos por países estrangeiros, em homenagem de Gaudí. Reproduzimos aqui uma parte da primeira folha. São seis, no total.


3. Fazer um análise mesmo que superficial da arte deste "exemplo de modernização e renovação da arquitectura do século XX" está fora de propósito, por incapacidade nossa e extensão do tema.
Limitamo-nos a deixar dois apontamentos sobre a sua maneira de encarar a arte:
- Gaudí afirmava que não existia nenhuma coluna vertical, mesmo que o pareça, daí concluindo que é da natureza das coisas que elas sejam inclinadas. Por isso nas suas obras abundam as formas redondas, as colunas inclinadas, manifestamente inclinadas.
- Como disse Antonio Llena, "Gaudí, ele próprio, é um barroco, um romântico, um racionalista e, acima de tudo, um surrealista". É sem dúvida um surrealista (quem queira aprofundar este tema ver http://www.filatelicamente.online.pt/r097/artigo_html/revista097_1.html) mas é sobretudo a síntese de diversas leituras alternativas de uma realidade que é, em-si una.


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2003/03
Mundo Português nº 107