Futebol, Filatelia e Figo

Carlos Pimenta

Fig 01
Imagem do selo emitido pelo Mónaco para comemorar filatelicamente o prémio que foi atribuído a Figo.


1. Quando nos sentamos defronte do computador para dar forma a mais uma crónica filatélica assalta-nos sempre a grande dúvida do assunto a tratar. Surgem sempre catadupas de possibilidades, havendo que escolher aquela que poderá ser mais eficaz no diálogo que temos vindo a estabelecer convosco. Temos sempre a dúvida de repegar em assuntos anteriormente iniciados
- falámos de alguns Anos Internacionais para referirmos as preocupações de paz e tolerância partilhadas por toda a humanidade e dezenas de outros assuntos, também objecto de "anos internacionais" esperam a nossa atenção: das relações entre homens ao convívio das nações, da conjugação de esforços científicos às temáticas ecológicas;
- falámos das emissões comuns de diversos países da Europa, chamando a atenção para a relação entre as emissões de selos e a preocupação de criar uma "consciência europeia comum"; levantámos o véu mas muito ainda há para dizer;
- por diversas ocasiões referimos, seguindo uma sugestão que nos chegou, o que é coleccionar selos, que passos devem ser dados para iniciar essa actividade, que peças filatélicas interessam, mas a quantidade de emissões, a quantidade de tipos de material utilizados na correspondência, a grande diversidade de interesse dos coleccionadores e as tendências de especialização que a sociedade tende a impor também na filatelia fazem com que muitíssima coisa haja para dizer;
ou, pelo contrário, abordar assuntos que podem ou interessar leitores pouco entusiasmados com as temáticas anteriores ou ser de maior actualidade. Tudo isto dentro das limitações dos nossos conhecimentos e disponibilidades.
Depois destas dúvidas optámos por fale-vos de um acontecimento filatélico recente que só pode orgulhar os nossos sentimentos lusitanos, embora serpenteado por algumas interrogações.

Fig 02
Bloco emitido pela Guiné-Bissau a propósito do Campeonato do Mundo de Futebol, utilizando para tal a equipe portuguesa. Sem dúvida que a reprodução de jogadores portugueses, como se mostra numa outra imagem, mostra a importância que hoje o futebol ("a indústria do futebol", mais exactamente) tem na divulgação de um país, mas filatelicamente o mais interessante, e também o mais incómodo, é a quantidade de erros que este bloco apresenta: O Figo é chamado "João Pinto" no segundo selo, o quarto selo tem a ordem do nomes trocada, o quinto mostra Humberto Coelho que no referido campeonato não era o seleccionador nacional, etc.


2. A Associação Internacional de Editores de Catálogos de Selos Postais, de Álbuns e de Publicações Filatélicas (ASCAT) é uma das mais poderosas instituições ligadas à filatelia, movimentando grandes fortunas e capaz de decidir do que vai futuramente acontecer no coleccionismo.
Expliquemos um pouco mais.
A grande maioria dos filatelistas colocam na sua colecção o que sabem que foi emitido, o que é possível classificar e ordenar e os catálogos e álbuns contribuem decisivamente para essas opções. Em reforço desta tese cita-se frequentemente o que se passou nos primórdios do coleccionismo. Em meados do século XIX, quando a circulação de mensagens passou a ser paga por quem as enviava (até então quem pagava a correspondência era quem recebia), surgiram os selos, que tão bem conhecemos, e os postais que já englobavam a franquia a pagar (o que designamos por inteiros-postais). Os postais eram inicialmente bem mais bonitos que os selos (englobando até imagens diversas e desenhos de crítica social) e muito mais fáceis de manejar e coleccionar. Por isso surgiram mais coleccionadores de inteiros-postais que de selos. Contudo foi de selos que surgiram os primeiros catálogos e os coleccionadores viraram-se para estes e abandonaram aqueles.
Hoje há muitos países que fazem emissões de selos escusadas, isto é, que não são necessárias para a circulação da correspondência, e que são vendidas como "cromos" para os coleccionadores. Há mesmo administrações postais falsas ou simples burlões que inventam países para fazer "emissões de selos" (Ex. Emirado de Ocussi Ambeno, região de antigo Timor Português e que hoje integra a jovem nação de Timor Loro Sae). Ora são os grandes catálogos internacionais (Yvert et Tellier, Gibbons, Scott, Michel) que validam, ou não, essas emissões. Ao anunciar essas emissões estão a reconhecê-las como válidas.
Por estas, e outras razões, a ASCAT é uma instituição toda poderosa, muito apoiada pelo Principado do Mónaco (cujas receitas filatélicas, assim como do turismo, são importantes). Em 1994 resolveu instituir um Grande Prémio anual.
Seria de admitir que esse prémio estivesse relacionado com actividades filatélicas. E a comprová-lo está o facto que a primeira vez o prémio foi atribuído aos Correios Suíços. Contudo essas intenções foram mudando ao longo dos anos e o prémio de 2002, atribuído a Luís Figo, é a negação de tal facto. Os prémios da ASCAT deixaram de ser de reconhecimento pelo trabalho filatélico desenvolvido para passar a ser de autopromoção da própria instituição. Incidindo sobre grandes figuras internacionais a ASCAT e a Administração Postal do Mónaco procura projectar a sua imagem, esperançados que alguns possam aumentar significativamente o volume de vendas.

Fig 03
Mais um selo, desta vez de uma administração postal da Grã-Bretanha, com Luís Figo.


3. A entrevista que Luís Figo concedeu a A Filatelia Portuguesa, revista do Clube Nacional de Filatelia, é bastante elucidativa: "Não devem, no entanto, interpretar destas minhas palavras que seja detentor de uma grande colecção filatélica. Possuo apenas uma interessante colecção de selos portugueses que vai desde 1952 até 1972. É esta pequena colecção que me permite vestir a camisola de um curioso, mas muito interessado filatelista". Não foi pelas suas actividade filatélicas que o prémio lhe foi concedido.
Contudo, os portugueses devem estar satisfeitos com este acontecimento:
- Luís Figo é um grande jogador que de alguma forma simboliza os novos rumos que esta actividade desportiva e económica assume nas sociedades crescentemente integradas nos processos de mundialização. É também um cidadão que assume as situações com grande seriedade. Como afirma no fim da entrevista "Apenas uma frase que sempre me orientou em todos os momentos da minha vida. Fazer tudo com a maior dedicação e seriedade".
- Portugal é mais uma vez reconhecido nas emissões filatélicas dos outros países.
- Os coleccionadores temáticos que estudam o futebol têm à sua disposição selos do que já foi considerado o melhor jogador do mundo.


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2003/02
Mundo Português nº 106