Natal

Carlos Pimenta

Fig. 01
Portugal tem várias emissões dedicadas ao Natal, seja pela tradição da religiosidade portuguesa, seja porque nesta época aumenta bastante a correspondência e as pessoas procuram os produtos emitidos especificamente para as festividades. Aqui se reproduz um sobrescrito pré-franquiado (inteiro postal) emitido para este Natal em Portugal. O conjunto é constituído por três.


1. Certamente que este artigo será lido por vós bastante depois do Natal, mas na falta de oportunidade anterior começo esta habitual crónica com os sinceros votos de felicidade e a firma vontade de em tudo contribuir para o ano de 2003 ser melhor para todos e para cada um, com uma recordação especial para os que morrem ou padecem de fome, para os que são vítimas de actos belicistas e terroristas, para os que no desemprego encaram o futuro com preocupação, para todos quantos ainda não usufruem das potencialidades de bem estar que a ciência e a tecnologia modernas permitiriam.

Fig. 02
Países de todo o mundo católico, e não só, dedicam atenção as estas emissões. Aqui se apresenta como exemplo, entre muitos possíveis, o selo emitido pela França em 1993.


2. Para nós, educados num ambiente cultural cristão, o Natal é frequentemente associado exclusivamente ao nascimento de Jesus. Contudo a realidade é bastante diferente, por duas razões fundamentais.
Em primeiro lugar porque as "festividades natalícias" antecipam em muito o aparecimento do cristianismo e coexistiram em muitos povos com diversas religiões.
As raízes naturais das festividades na segunda metade de Dezembro radicam-se na sucessão de estações nos climas temperados e no solstício que se verifica a 21 ou 22 de Dezembro.
Muito antes do cristianismo (cerca de três séculos) já os persas comemoravam o "nascimento" do seu deus Mitra, considerado "Sol da Virtude", no dia 25 de Dezembro. Um sol renascia todos os anos sob a forma de uma criança.
Antes do cristianismo entre 17 e 24 de Dezembro os romanos praticavam diversas festas e rituais que tinham características que continuamos hoje a encontrar nas nossas festividades: manifestações religiosas, criação de estatuária específica, troca de presentes, decoração das casas com verde. As crianças e os pobres eram alvos preferenciais das doações.
O nosso Natal é a cristianização de comemorações há muito praticadas ao sabor do ritmo das estações.
Em segundo lugar porque, contrariamente à tradição que nos é transmitida (comemoração desde o nascimento da criança que só vários anos depois iria abalar a sociedade de então, consagrado e publicitado pela presença dos "Reis Magos"), o Natal só começou a ser comemorado pelos cristãos muito tardiamente.
A referida cristianização das festas pagãs só começou a impor-se após o cristianismo ser religião maioritária no Império Romano, no século IV. Certamente que a repressão anteriormente existente sobre os cristãos dificultava tais eventos, mas não se pode atribuir apenas a esse facto a ausência dessas práticas. Diversos escritos mostram a relutância religiosa da sua prática e a Páscoa, na tradição judaica, foi entretanto sempre comemorada.

Fig. 03
Também as instituições (Empresas, escolas, organismos do Estado, etc.) são sensíveis ao evento. Nesta imagem reproduz-se uma franquia mecânica do Instituto Superior Técnico, faculdade da Universidade Técnica de Lisboa que forma engenheiros. Os votos de boas festas são parte integrante dos seus dizeres.


3. Estes factos históricos alertam-nos contra a falta de rigor de muitas das tradições e chamam a atenção para a importância de repensar cada facto do nosso quotidiano, onde as evidências são mais enganadoras que fonte de saber.
Contudo em nada desvirtuam a beleza do Natal. Este é sobretudo as nossas atitudes e sentimentos.
Aliás, estamos totalmente de acordo quando na Diciopédia 2003 (Porto Editora) se afirma: "Festividade cristã, inicialmente de carácter mais sagrado, tem-se tornado profana e revelado uma laicização crescente, sendo hoje mais um evento comercial do que propriamente uma celebração religiosa. (...) É uma festa de cariz ocidental, mas tem-se difundido e impregnado em todas as civilizações do mundo, tendo-se tornado um dos indicadores antropológicos da globalização da economia e sociedade de tipo "ocidental"".

Fig. 04
Sobrescrito de Primeiro Dia com selo dos EUA dedicado ao Natal. O sobrescrito é pintado à mão e contem as assinaturas dos dois autores do selo: William R. Hanson e John C. Berkey. Reproduzido da revista American Philatelist de Dezembro deste ano.


4. Também filatelicamente o natal é muito comemorado, havendo inúmeras emissões de diversos países.
É uma temática muito divulgada.
Mais do que falarmos muito sobre ela chamamos a atenção para a diversidade de peças filatélicas que podem ser utilizadas, um pouco ilustradas nas imagens junto.

Fig. 05Fig. 06
Uma alternativa interessante a uma colecção temática sobre o Natal é coleccionar carimbos do dia 25 de Dezembro. Como é sabido esse dia é feriado em quase todos os países que têm essa data como festividade pelo que só excepcionalmente se pode ter tais carimbos. O tema é abordado no artigo "Centered Christmas Cancellations" publicado na revista American Philatelist de Dezembro deste ano. É desse artigo que se reproduzem as duas imagens.



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2003/01
Mundo Português nº 105