O Rio da Minha Aldeia

Carlos Pimenta

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêm em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos
Publicado pela primeira vez em 07/03/1914, Athena, nº 4, Janeiro de 1925)


Este é um belo poema de Fernando Pessoa, aqui sentindo, falando e assinando como Alberto Caeiro, um dos seus heterónimos.

Em cada situação há a possibilidade de leituras alternativas da mesma realidade, interpretada pelos filtros da nossa experiência.
Quando nunca saímos da nossa aldeia todos os acontecimentos verificados nesse espaço assumem-se como importantes, preenchendo totalmente a nossa vida. Quando falamos em Portugal um turbilhão de sentimentos nos invadem e assumimos que aquele pequeno território, como jangada de pedra que se despega e pega na Europa rumando para outros continentes, é o centro dos Oceanos e Continentes.
Somos assim. Gostamos de nos sentirmos o centro do mundo, o centro do universo. Quando a Ciência demonstrou inequivocamente que a Terra não o era, que somos apenas um dos planetas do sistema solar, pequeníssima parcela da galáxia Via Láctea, uma entre as demais, fez mais que uma descoberta cientifica, recolocou o homem no universo, baralhou os seus sentimentos, levou-o a redescobrir na sua pequenez universal a grandeza da sua inteligência, dos seus sentimentos, da sua vontade.

Fig. 1
Fig. 1 - Quando da exposição internacional de selos em Lisboa Portugal 98 diversos países presentes emitiram selos ou blocos (como é o caso) comemorativos do evento. A Hungria deu destaque a Vasco da Gama e à sua viagem marítima.


Um exercício interessante é sabermos se os outros pensam em nós, se os outros consideram que somo dignos de atenção, se os outros nos olham e, no caso afirmativo, como o fazem.
Neste pensar crítico sobre a portugalidade também a filatelia pode dar o seu contributo. Quais são as emissões filatélicas que existem sobre Portugal? Quais os temas que são representados nos selos, nos carimbos, nos inteiros postais? Como é que esses assuntos são apresentados?
Temos dificuldade em responder a estas perguntas, porque o assunto ainda está por estudar de uma forma sistemática. É esse o desafio que vos lançamos. Fazer uma colecção das emissões filatélicas que se referem a Portugal das administrações postais de todo o mundo.
Certamente que quando se verificam acontecimentos internacionais relevantes no nosso país, nomeadamente dos que são mais sensíveis filatelicamente, Portugal pode transformar-se temporariamente num centro de atenção. Aconteceu, por exemplo, quando da Expo 98, aconteceu quando na mesma ocasião se realizou a exposição filatélica internacional Portugal'98, certamente acontecerá quando da competição futebolística Europa 2004. Será interessante reunir essas peças, estudá-los, perceber quais foram os objectos da atenção internacional, mas em vários casos o que os diversos países acabam por simbolizar não é a realidade portuguesa mas a sua própria presença em Portugal.

Fig. 2
Fig. 02 - Este "postal-máximo" (provavelmente não é bem um postal-máximo porque as regras para sua elaboração provavelmente exigiria que o carimbo fosse de Brasília e não do Rio de Janeiro) representa um homem que foi simultaneamente Rei de Portugal (vigésimo sexto rei de Portugal, 1826, D. Pedro IV) e primeiro Imperador do Brasil.
Segundo filho varão de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, nasceu em Queluz em 12 de Outubro de 1798, (e não em 13 como indica o carimbo) onde faleceu em 24 de Setembro de 1834.


Quando observamos as emissões filatélicas dos países de língua oficial portuguesa inevitavelmente encontramos referências a acontecimentos que são comuns aos dois países (independência das colónias africanas, descoberta das terras de Vera Cruz, comemoração de um acontecimentos que pela primeira vez relacionou os dois países, por exemplo). Também existem referências a acontecimentos estritamente portugueses mas não nos podemos esquecer que estamos a analisar países que pertencem ao mesmo espaço cultural. Espaço diversificado, matizado, contraditório mas como muitos traços comuns. Também será interessante reunir essas peças, olhá-las com atenção, compreendê-las, mas temos de perceber que ainda não é suficiente para sabermos como é que o mundo nos olha.
O interessante é conhecermos como é que os EUA, o Canadá, o México, a Suécia, a Rússia, a China, a Austrália, São Marino, o Vaticano, enfim todos os grandes e pequenos países do mundo, todos os que não têm uma relação factual ou cultural com Portugal se apercebem da nossa existência.
As Navegações Portuguesas dos séculos XIV a XVI merecem a atenção internacional? De que modo, quais os acontecimentos e personalidades considerados?
Espalharmo-nos pelo mundo como emigrantes foi olhado com simpatia por algumas administração postal? Estão retratados acontecimentos em que tenhamos tido uma participação particularmente? Há emigrantes ou seus descendentes que sejam motivo de selos ou de carimbo? Amália Rodrigues teve honras nacionais quando morreu, salientando-se sempre a sua função de embaixatriz da cultura portuguesa pelo mundo. Será que os outros a encaram assim? Para já parece que Eusébio já teve lugar a mais selos estrangeiros.
Como é que o Correio dos EUA tem olhado para Portugal? Se Cristovão Colombo não é português, nenhum português, nada de Portugal mereceu, pelo que podemos averiguar, a sua atenção. A hipótese de homenagear Aristides Sousa Mendes ficou, como vimos em artigo anterior, como mero projecto.

Como é que as diversas administrações postais encaram Portugal? É a resposta a esta pergunta que fica como desafio a potenciais coleccionadores.


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2002/07
Mundo Português, Julho 2002, pag. 30