Entre o Inferno e a Ética (I)

Carlos Pimenta

A Filatelia em Portugal é uma realidade. Outras são as actividades desenvolvidas nos clubes e academias. Procuro evitar o misturar os campos porque os públicos e as dinâmicas são diferentes.
O texto que se apresenta a seguir foi escrito para editorial da revista A Filatelia Portuguesa, ligada ao CNF e com uma intervenção nos meios filatélicos diferente desta página web.
No entanto, porque consideramos que reflecte a situação da filatelia portuguesa, e um pouco da mundial, actual, consideramos oportuno aqui reproduzir.
Na próxima dica (especificamente escrita para A Filatelia Portuguesa) faremos um desenvolvimento detalhado de



Desde que me foi atribuída a redacção deste editorial, apesar de continuar por outras terras da União Europeia, enchi várias vezes o peito de ar procurando uma respiração profunda e prolongada.
Passei em revisão os momentos importantes da vida em que a filatelia foi um bálsamo ou um encantador desafio para novas descobertas, as muitas teias e laços de amizade construídos no linguajar de coleccionadores, o brotar de novos conhecimentos a que nunca acederia pela investigação científica, a qualidade de muitos dos nossos escritores filatélicos, a beleza de muitas colecções em que as peças se organizam nos fios da ternura.
Recordei o agradecimento de um jovem brasileiro por na Filatelia em Portugal, página web, ter informações sobre Camilo Castelo Branco, sobre o qual teve um trabalho escolar, o e-mail de um jovem que me exigia informações sobre diversos aspectos dos selos porque a professora tinha pedido uma redacção, as palavras amigas de um luso descendente na Lituânia, as informações que me são fornecidas por pessoas espalhadas da Austrália ao Canadá, dos EUA à China.
Comovi-me com a aventura que tem sido o trabalho neste Clube, mostrando que é possível avançar sempre mais nas práticas filatélicas tradicionais e rasgar horizontes inovadores. Com a interajuda, a confiança e o entusiasmo de um pequeno núcleo foi possível desenvolver um trabalho entusiasmante. A revista mensal, em dupla edição, e os livros electrónicos aí estão a demonstrá-lo, assim como o estão a qualidade dos colaboradores e a receptividade nacional e internacional que nos é manifestada.
E continuei a encher o peito de ar procurando uma respiração profunda e prolongada enquanto estas e outras recordações amarradas às células do meu corpo são puxadas como teias emaranhadas na busca desesperada de uma leitura optimista que tantas vezes transmito. Um optimismo que apenas serve para perceber como é fácil avançar com apenas algumas migalhas de imaginação.
Insisti, mas os ventos não estão de feição. Sistematicamente mergulho no pântano do pessimismo.
Será que a filatelia tem futuro quando todas as estruturas estão dependentes da salgada lágrima de crocodilo de alguns poucos financiadores? Será que a filatelia não se rasga ao ser o tecido em que se amarram outros negócios quiçá informais? Será que a filatelia tem possibilidades de se abrir aos cidadãos quando os meios de informação desprezam tantas iniciativas filatélicas interessantes e construtoras de um futuro mais feliz e regalam os olhos esbugalhados de cifrões para divulgar afirmações banais que prometem fortunas para qualquer incauto? Será que a filatelia tem futuro quando muitas das instituições associadas à produção, comercialização, divulgação e promoção têm tanto peso de burocratas de vistas curtas, tantos carimbos de censura às iniciativas mais elementares, tanto afastamento dos coleccionadores? Será que a filatelia tem futuro quando o selo anda deliberadamente arredado da correspondência em muitos países e aumenta a quantidade de selos falso, contemporâneos ou antigos?
Os amores de ontem são os ódios fingidos de hoje, o boato e a mentira percorrem a filatelia desorganizada à velocidade do boca à boca, o receio do nada e do esquizofrénico vazio do narcisismo atormenta alguns, a desconfiança campeia porque todos os dias se plantam ervas daninhas. Noventa por cento acusa os outros noventa por cento de nada fazerem, mas deixam escapar as oportunidades como areia entre os dedos.
Já constataram que do optimismo nada ficou. E como poderia ficar?
Porque será que a revista filatélica portuguesa como maior regularidade de emissão e maior número de páginas, com elevados indicadores de leitura, e com qualidade reconhecida é a única que não tem publicidade dos Correios e de outras instituições? Porque será que alguns dos leitores tão prontos a reclamar um atraso ou um erro de escrita ainda não tomaram nenhuma iniciativa de protestar contra esta situação ou procuraram encontrar anúncios alternativos? Porque será? Sinceramente só encontro uma resposta: para alguns defender a filatelia é mantê-la parada, quiçá enterrada. Entretanto andamos muito distraídos!
Não senhor, não estou optimista, porque não me deixam.


Editorial 057 - 2003/07/15