Iniciar-se no Coleccionismo

Carlos Pimenta

1. Coleccionar selos exige saber o que e como coleccionar.
Sendo impossível, e muito provavelmente sem interesse, juntar e organizar todas os selos emitidos pelos diversos países e regiões com autonomia postal, há que encontrar as fronteiras mais adequadas entre o que se vai integrar na colecção e o que ficará de fora.
É habitual escolher-se um ou alguns países e um período, procurando-se encontrar todas as peças então associadas ao correio, tais como os selos, as cartas circuladas, os carimbos, os blocos, os inteiros postais, entre outros; tais como as cartas circuladas, com os seus carimbos e anotações, antes do aparecimento dos selos.
É habitual seleccionar-se um tema que nos apraz e procurar todas as peças que estão associadas a um determinado motivo de emissão, independentemente do país, ou combinar materiais, os mais elucidativos e raros, que nos permitam contar uma história ou fazer uma dissertação, utilizando os selos.


Figura 1
Postal-máximo de Andorra Espanhola mostrando, tanto no postal como no selo, Andorra, a Velha. O carimbo, do primeiro dia de circulação do selo é de uma estação postal dessa mesma cidade. Tem a data de 29 de Fevereiro de 1964. (25% da dimensão original).



2. Associado a estas opções está a maior ou menor atenção a um determinado tipo de peças filatélicas. Geralmente associamos filatelia ao coleccionismo de selos, podendo estes ser novos ou usados, mas há outras peças coleccionáveis, sejam derivadas daquela (por exemplo, os blocos de selos, as carteiras de selos, os cantos datados, as folhas completas), autónomas ( por exemplo, os carimbos correntes ou comemorativos e os inteiros postais) ou combinação (de que a mais interessante poderão ser os postais-máximos, concordância de imagem, tempo e lugar de um postal ilustrado, de um selos e de um carimbo).

3. São habituais estas opções entre colecções clássicas (filatélicas ou pré-filatélicas) e temáticas, mas cada um é livre para coleccionar o que bem lhe aprouver. O fundamental é que tenha prazer, que a colecção lhe sirva para lhe saciar algumas curiosidades sobre o mundo em que vive, que tenha orgulho ao vê-la ou ao mostrar aos amigos. Gostava de saber as voltas que uma carta dá quando não encontra o destinatário? Poderá escrever para moradas não existentes em todos os países do mundo ou para as postas restantes e coleccionar cartas devolvidas com as interessantes anotações e carimbos que vai recebendo por onde passa. Gostava de comemorar um dia particularmente feliz da sua vida? Poderá coleccionar os selos que foram emitidos nesse dia, as cartas que receberam um carimbo com essa data, os envelopes do primeiro dia respectivos, e dessa forma ver a imensidade de acontecimentos que se registaram nessa data. Gostava de saber o que os países de todo o mundo pensam do país onde nasceu ou onde vive? Nada mais simples que procurar as peças filatélicas de países estrangeiros que fazem referência a ele e interpretar as razões que levaram a essa emissão. Sobre tudo o que imaginar será possível encontrar uma forma de coleccionar.


Figura 2
Franquia mecânica da CGTP-Intersindical de 19.12.77 no valor de 4$00 onde se reproduz a palavra de ordem então em uso: "UNIDADE NA ACÇÃO / A Força dos Trabalhadores". A vermelho. (25% da dimensão original).



4. Para o fazer é necessário conhecer o que existe e seleccionar o que lhe interessa. Para isso existem os catálogos e as informações de novidades. Para peças menos referenciadas, como por exemplo os carimbos ou as franquias mecânicas, também existem a literatura filatélica (revistas, livros, CD-ROMs, páginas web) e os coleccionadores correspondentes.
Precisa de adquirir essas peças, depois de ter uma ideia do seu valor e comparar preços. Para isso existem os comerciantes filatélicos - com o comércio tradicional onde é possível combinar a compra com a conversa e o aconselhamento, ou a venda pela Internet -, os leilões, as trocas entre filatelistas.
Precisa de ter as formas mais adequadas de guardar essas peças filatélicas, de diversos tipos, tamanhos e apresentações. Exige-se antes de mais saber como manusea-las e guardá-las mantendo a sua "frescura", sem as deteriorar. Exige-se depois ter os locais adequados para as guardar. Para isso existe uma vasta literatura de iniciação à filatelia, existem pinças, lupas, charneiras, tiras, classificadores, álbuns. Existem ainda os clubes onde o encontro com outros filatelistas pode ensinar muitas coisas.
Precisa de olhar para elas com atenção, ver se possuem alguma anormalidade, perceber as razões da sua emissão ou circulação postal, conhecer o que se relaciona com o que mais lhe retiver a atenção: o castelo representado no selo, a flor retratada no bloco, o formato do carimbo colocado na carta, a terra ou operação postal assinalada na marca postal, as informações do inteiro postal, a concordância entre os elementos do postal-máximo. Depois ler aqui e ali, consultar isto e aquilo, falar com este e aquele para se inteirar completamente do que possuem e do seu significado.
Se a sua colecção é de história postal valorizará mais os carimbos e restantes marcas que figuram sobre a carta circulada. Se o seu interesse é temático o mais interessante será conhecer o que está representado no selo, seja pela imagem seja pelos dizeres e razões da sua emissão.


Figura 3
Inteiro-postal (postal com a franquia paga) emitido em 1910, aproveitando emissão anterior e tendo a sobrecarga "REPUBLICA" a vermelho. Em cartolina creme teve uma tiragem de 17.295.000 exemplares. A franquia é de 10 réis. (25% da dimensão original).



5. Se estes nossos artigos reforçaram a hipótese que há muito tinha colocado a si próprio de se tornar coleccionador de selos sugerimos que leia um livro de iniciação à filatelia, participe em algum curso (há clubes como a American Philatelic Association, que os realiza periodicamente), visite algumas exposições para ver o que os outros fazem. Se tem acesso à Internet não faltam locais a visitar, atrevendo-nos a sugerir aceder aos artigos (Menu / Artigos) que figuram em Filatelia em Portugal (http://www.caleida.pt/filatelia).
Se o interesse por estas questões resulta de pretender influenciar alguns jovens, familiares ou não, neste interessante entretenimento, gostaria de colocar algumas observações, com muita força:
- O interesse duradoiro de coleccionar só pode resultar de uma livre opção de cada um. Qualquer sinal de obrigatoriedade, qualquer manifestação de ansiedade perante um comportamento do jovem pode romper decisivamente com essa possibilidade. Limite-se a observar quais são os seus gostos (futebol, animais, artistas de cinema, etc.) e a oferecer-lhe pacotes de selos dessas temáticas pare ele manusear, estragar, observar, guardar. Pode também discretamente oferecer-lhe um pequeno estojo com uma pinça, uma lupa e um pequeno classificador para guardar os selos. Mas nunca diga, por exemplo, "os selos pegam-se com a pinça". Limite-se a pedir para ver os selos e tome a iniciativa de, sem nada dizer, os pegar com aquele instrumento e olhá-los com a lupa.
- Estimule formas indirectas de chamar-lhe a atenção para o interesse de uma colecção de selos. Três possibilidades, entre muitas outras: (1) estimule o gosto pelo coleccionismo de tudo (latas de bebidas, cromos, emblemas, etc.); (2) disponibilize-lhe um programa de computador de aventuras que utilize os selos como meio; existem bons programas desse tipo; (3) mostre-lhe alguns sites na Internet que o possam atrair e que estabeleça uma ligação com a filatelia.
- Nunca se esqueça que a atenção e a imaginação, a capacidade de pegar com as mãos em pequenos objectos, que o interesse são diferentes conforme as idades e que não se pode nem deve exigir o que não é possível.

Bom sucesso no início do coleccionismo é o nosso único desejo.




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2002/01
O Mundo Português nº 9 - 95