Dois desafios… quase filatélicos

Carlos Pimenta

1. Respondendo a algumas questões que nos foram colocadas no início deste ano referimos algumas pistas sobre possíveis formas de coleccionismo.
Pensamos que ficou claro que para se coleccionar selos, com pleno usufruto do prazer que esse entretenimento permite, não basta adquirir selos. É necessário saber um pouco da sua história, olhar para eles com atenção. Importa termos um critério de selecção que nos permita saber quais as peças filatélicas que nos interessam.
Pretendemos também transmitir a ideia que esta escolha de algumas peças filatélicas em detrimento de outras depende dos nossos gostos, dos nossos objectivos, dos nossos recursos financeiros. Se decidimos coleccionar os selos de um país durante um determinado período, não farão parte da nossa colecção os que são de outros países ou períodos, por muito bonitos ou valiosos que possam ser. Estamos no campo das colecções clássicas. Se optamos por uma colecção temática, temos que estudar o tema, saber muito sobre o assunto, procurar os selos, inteiros postais, carimbos e outros materiais que possuem imagens que estejam intimamente relacionadas com as história que queremos contar, optar pelos que são mais interessantes - pela sua beleza ou raridade - e montarmos as folhas do álbum com uma certa sequência e organização.
Sem insistirmos sobre questões técnicas também pretendemos passar a mensagem que alguns conhecimentos são indispensáveis - como lidar com os selos, como guardá-los sem os deteriorar, como procurá-los num catálogo, como registar o que temos e o que nos falta, como descolá-los, distinguir um selo em boas condições de um estragado, conhecer as diferentes peças utilizadas algumas vez na correspondência, etc.. Também é indispensável adquirir algum material: a pinça própria para mexer nos selos, a lupa para ver pormenores, o classificador para os colocar temporariamente, etc.
Há conhecimentos e regras, técnicas e materiais a possuir, mas o fundamental é despertar a imaginação, é criar o gosto por olhar os selos e começar a coleccioná-los de alguma forma. Certamente com erros, certamente com práticas que futuramente modificaremos, mas sempre com o entusiasmo de estar a criar alguma coisa que é nosso, no qual vertemos os nosso prazer, em torno do qual encontramos os raios da nossa criatividade.

2. Existem sempre novas colecções possíveis, descobriremos sempre que alguém teve a capacidade de nos surpreender com as suas ideias.
A prová-lo está, por exemplo, um artigo, que tive o prazer de ler recentemente (de Salvador Bofarull y Cornelius Th. J. Hooghuis, intitulado "Oceanografía e Historia Postal", publicado na revista espanhola Academus Num. 3), de que transmitimos a ideia principal.
Sendo os oceanos a maior superfície do nosso planeta, desde muito cedo o homem teve a necessidade de os conhecer, nomeadamente no que se relaciona directamente com as possibilidades da sua utilização, como é o caso das correntes. Uma das formas de o fazer é colocar garrafas no mar e ver para onde vão.
A partir do momento em que passou a existir correio, uma forma fácil de conhecer o trajecto realizado pelas garrafas e a sua velocidade foi colocar dentro delas, bem protegidos, um documento com um conjunto de informações e um pedido. Solicitava-se a quem encontrasse a referida garrafa que escrevesse onde a encontrou, em que dia e hora. Depois a enviasse por correio para o laboratório ou centro de pesquisa, cuja morada era dada. O que os autores relatam é o coleccionismo dessas cartas, assim como de documentos e materiais associados a essas experimentações marítimas.
Certamente se trata de uma colecção com um número de peças disponíveis muito limitado, mas também bastante difíceis de encontrar. Porque antes do mais é necessário conhecer quais as experiências que se realizaram utilizando essa metodologia, e antever onde será possível encontrá-las. Poucas terão resistido às viagens, aos tempo.

Fig. 1
Figura 1. Conjunto dos oito selos sobre pelourinhos. Foram emitidos em folhas de 16 selos, contendo dois conjuntos. Impressos em offset, têm um denteado de 12 x 12 ½ . Foram emitidos 200.000 folhas de 16.


3. A 19 de Setembro do ano passado foi emitida uma série designada Pelourinhos de Portugal. Como se diz no documento de apresentação os pelourinho era um "instrumento de aplicação da justiça, utilizado até ao século XIX. Considerados por muitos como distintivos da jurisdição de um concelho e da autonomia municipal, os pelourinhos, também chamados picotas, eram, na realidade, locais onde se podia exercer qualquer tipo de justiça quer municipal quer senhorial e régia".
Por todo o Portugal existem pelourinhos e o interessante desta série foi ter eleito como matéria dos oito selos emitidos locais de Portugal muito frequentemente esquecidos. Estão representados os pelourinhos de Azinhoso, Soajo, Bragança, Linhares, Arcos de Valdevez, Vila de Rua, Sernancelhe e Frechas. Depois houve carimbos comemorativos alusivos ao acontecimento. Seguiu-se a emissão de postais-máximos (a combinação de postal ilustrado, selo e carimbo, a que já fizemos alusão).
Partindo deste exemplo, uma sugestão de colecção: coleccionar todo o tipo de peças filatélicas (depois do aparecimento do selo em 1853) e pré-filatélicas (antes da utilização do selo) que se referem a uma região de Portugal, eventualmente onde nascemos ou vivemos. É saber que acontecimentos e personagens estão ligados à terra, é conhecer que selos portugueses foram emitidos que de alguma forma estão relacionados com ela, é conhecer os carimbos comemorativos que a têm como referência, é estudar como é que a correspondência aí chega ou de aí parte e como evoluiu ao longo da história. É estudar a região.

Fig. 2
Figura 2. Um exemplo de arte postal. Um desafio à vossa criatividade.


4. Finalmente uma proposta de interesse pelos selos que, por menos ligada ao coleccionismo, nos levou a colocar a palavra "quase" filatélica no início deste capítulo.
Cada selo desperta em nós um conjunto de reacções: gosto pelo tema, satisfação pelas cores. Provavelmente desperta-nos sentimentos e ideias. Recorda-nos factos passados da nossa vida, faz-nos sonhar com locais que nunca visitaremos, desperta-nos orgulhos e vergonhas.
Porque não fazer esses sentimentos brotarem e darem lugar a uma expressão estética? Porque não fazer esse selo circular numa carta em que desenhámos os nossos anseios? Porque não fazer crítica social desenhando-a na carta que enviamos?
Este é o desafio. Escolha um ou mais selos do país em que habita. Desenhe num sobrescrito o que lhe vai na alma utilizando materiais que suportem as viagens que ele fará. Mande-nos (para Carlos Pimenta, Apartado 8002, 4109-601 Porto, Portugal) essa arte postal e nós a publicaremos. Veja alguns exemplos no número mais recente da revista A Filatelia Portuguesa - Edição Electrónica: http://www.filatelicamente.online.pt



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2002/04
Mundo Português nº 9 - 97