Ele aí está, o €uro

Carlos Pimenta

Fig. 1
Figura 1 - Envelope do 1º dia do 5º grupo de selos intitulados "Profissões e Personagens Típicas do século XIX", com o carimbo do Porto datado de 26 de Fevereiro de 1999. Como a inscrição destacada no cimo refere, com este FDC pretendeu-se comemorar a última emissão exclusivamente em escudos. 25% da dimensão original.


Na primeira metade do século XX a Europa conheceu duas devastadoras guerra que atiçaram os ódios mais criminosos, que custaram a vida a muitos milhões de indivíduos, que destruiu campos, cidades e mares esfrangalhando os recursos produtivos, destruindo o construído em muitos séculos. Tínhamos uma Europa dividida que se alastrou a todo o mundo. A Segunda Guerra Mundial é um evento que mostra de forma dramática o barbarismo de que os homens são capazes.
Pensar em 1947, quando do início do plano Marshall - apoio financeiro dos EUA à Europa que procurava repor a própria possibilidade de venda da sua produção, não atingida pela guerra - de que se poderia ter uma Europa sem conflito sangrentos entre os seus países, com vontade de cooperar e capaz de construir um destino comum parecia obra de lunáticos, voto de piedade provavelmente condenado pela tradição milenar.
Mundialmente dão-se importantes passos para uma nova ordem económica e política internacional que passa pelos acordos de Bretton Wood (1944) que restrutura a economia e as finanças internacionais e pela constituição da Organização das Nações Unidas (1944/45).
Nesse ambiente de entendimento entre os vencedores capitalistas da guerra, de condenação dos responsáveis imediatos pela guerra e de isolamento dos países de economia socialista, a Europa começa a dar os primeiros paços para o entendimento. Em 1947 constituiu-se o Comité Europeu de Cooperação Económica, no ano seguinte constituiu-se a Organização Europeia de Cooperação Económica, em 1951 constituiu-se a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e, culminando estes e outros aspectos, em 25 de março de 1957, em Roma, criava-se a Comunidade Económica Europeia.
A integração económica pode assumir diversas formas, num crescendo de interligação e fusão das diversas economias: zonas de comércio livre, união aduaneira, mercado comum, união económica e integração económica total. A integração económica é ainda uma componente fundamental da integração política e social.
A Comunidade Económica Europeia (CEE) e a actual União Europeia (EU) tem sido capaz, de uma forma que se pode considerar exemplar e ímpar - apesar das inevitáveis dificuldades, das críticas que se possam fazer e dos conflitos sociais que no caminho tenha produzido - de percorrer esse longo caminho. A quantidade de países que actualmente pertencem à UE, os desejos de integração manifestado por outros, os acordos de convergência nominal das economias (isto é, aproximação de situações financeiras das diversas economias apesar das diferenças de desenvolvimento) e o programa bem sucedido de criação da moeda única são demonstrações inequívocas da vitalidade dos povos europeus e da capacidade realizadora da democracia.
Em março de 1979 entrou oficialmente em vigor o novo Sistema Monetário Europeu e em 1999 - vinte anos depois, atravessados por múltiplas vicissitudes e crises económicas internacionais de grande vulto - os preços passavam a ser expressos nas moedas nacionais e em euros. Nos dias de hoje assiste-se ao desaparecimento definitivo das moedas dos diversos países aderentes ao processo e à circulação unificada da moeda europeia, como unidade e conta e meio de circulação.
Fig. 2
Figura 2 - Primeiro selo emitido com dupla fixação (95$ / € 0,47), emitido em 15 de março de 1999. Portugal tomava então uma atitude similar à Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Itália, Irlanda e Luxemburgo.


Desde 1999 os diversos países integrantes do processo passaram a emitir os selos - que mais não são do que recibos comprovativos que se comprou antecipadamente o direito de uma carta ser entregue ao seu destinatário - nas suas moedas nacionais e em euros. Antes desta emissão algumas das máquinas automáticas de emissão de etiquetas (AMIEL) foram alteradas e a partir de 21 de fevereiro começaram a imprimir o preço nas duas moedas. Foi o que aconteceu com as etiquetas Expo'98, Museu das Comunicações e Dinossauros.
Fig. 3a
Fig. 3b
Figura 3 - Uma das etiquetas dos Dinossauros de máquina AMIEL antes e depois da dupla afixação.


A partir do presente ano os selos têm a sua cotação exclusivamente em euros. A primeira emissão do presente ano é exactamente comemorativa do euro. É uma emissão comemorativa com oito selos, sendo o valor mais baixo de um centimo (€ 0,01) e o mais elevado de dois euros (€ 2,00).
Esta é, para além de tudo o mais, uma nova oportunidade para se começar uma colecção de selos europeus: selos em euros.
Fig. 4
Figura 4 - Selo de maior valor facial, emitido em comemoração do euro em 2 de janeiro do presente ano.


Portugal está neste processo da construção europeia quase após ter conquistado em 1974 a liberdade de decidir sobre o seu próprio destino. Nesta caminhada Portugal sofreu grandes transformações sociais.
Podemos estar satisfeitos com esse facto, mas não podemos sentir-nos descansados. Muito há a fazer para que em Portugal se possa usufruir um nível de vida semelhante à Dinamarca, Alemanha ou França. O euro, ao expressar na mesma moeda salários, preços e produtividade mostra inequivocamente o atraso que ainda existe em Portugal.



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2002/03
Mundo Português nº 9 - 96