Filatelia e Desenvolvimento Regional

Carlos Pimenta

1. A filatelia relaciona-se com o desenvolvimento económico-social.
A relação é biunívoca.

2. Quanto maior é o desenvolvimento económico maiores as possibilidades de lazer, maior a propensão marginal ao consumo de produtos culturais, maiores as disponibilidades financeiras para o coleccionismo. Não conhecemos estudos empíricos quantificados. ecometricamente fundamentados, que provem esta afirmação, mas os indícios são muitos. Basta ter em atenção a grande importância da filatelia na Europa e América do Norte no contexto mundial, a maior relevância de Inglaterra, França e Alemanha na Europa, a importância da República da África do Sul  no continente africano para começarmos a compilar um conjunto de referências significativas.
A interferência político-ideológica pode obscurecer o que afirmamos. Estamos a referir-nos à intensa difusão da filatelia nos países então socialistas e dos milhões de praticantes que ainda hoje continuam a existir na China, mas não obscurece totalmente o fenómeno.
Um estudo recente da UPU (União Postal Universal), feita por especialistas de todo o mundo (Guia para o Desenvolvimento da Filatelia) confirma as ideias aqui expostas e as dificuldades da sua quantificação.
Seria interessante estudos sociológicos desta natureza no nosso país – por regiões, por grupos e classes sociais, por indivíduos – mas a pouca tradição nestes trabalhos e o economicismo de muitos não tem permitido realizar.

3. Como dissemos a relação é biunívoca. O que nos interessa aqui pormenorizar é a influência da filatelia no desenvolvimento regional. Pensamos que conseguimos mostrar inequivocamente a existência dessa relação, mas obviamente que temos que ser realistas e cientificamente consistentes: a influência existe, é pequena e a teoria do caos aconselha-nos a não subestimar as influência infinitesimais num contexto de influência recíproca não-linear entre as variáveis em jogo.
Procuramos demonstrar esta afirmação em três fases.

3.1. Em primeiro lugar há uma “dimensão cultural” do desenvolvimento. É muito vasta a literatura que nos últimos trinta anos foram produzidos sobre esta matéria, dispensando-nos de fazer qualquer referência aproximada. Aconselhava-se apenas, por fazer uma síntese, a consulta de La Dimension Culturelle du Développement de Luke Kettermann, publicado pela UNESCO.
Aí se insiste na importância da cultura nas estratégias de desenvolvimento e processos de transformação social que aquelas implicam. Depois faz um inventário dos significados que se pode dar àquela afirmação, inventariando doze sentidos:
(01) “libertação das capacidades criativas dos indivíduos, dos grupos e dos povos” chamando em atenção que a consideração exclusiva da racionalidade económica ou do bom comportamento político é insuficiente; a transformação e o envolvimento das populações exige ter em conta a irracionalidade, o imaginário, o sagrado.
(02) “controlar as dimensões culturais resultantes da mundialização dos problemas económicos” o que significa a preservação da diversidade mundial, a luta contra as leituras e práticas reducionistas da personalidade humana.
(03) “preservação da integridade e da dignidade do homem”.
(04) “as actividades culturais também são actividades económicas” no sentido que geram iniciativas, promovem trocas, impulsionam serviços e bens económicos.
(05) “A cultura é um recurso endógeno”, existe na região ou no país, não carecendo de “importações” ou hipoteca do futuro; apenas espera ser olhado, aproveitado, utilizado, desenvolvido.
(06) “afirmação das entidades culturais como força mobilizadora”, como o demonstra o alheamento a que durante décadas muitíssimas regiões do país foram esquecidas pelo poder central e como o poder local após o 25 de Abril as conseguiu transformar. Foi também graças à capacidade mobilizadora das entidades culturais, expressas ou não, que um pouco por todo o lado se foi resistindo ao abandono, reforçando-se a identidade local e angariando forças para a transformação.
(07) “parceira do crescimento económico local” no sentido que as iniciativas locais serão tanto mais mobilizadoras quanto mais diversificadas, gerando-se efeitos em cadeia e retroacções importantes.
(08) “muitos dos graves problemas da humanidade não são económicos” e a atenção política não se pode concentrar exclusivamente sobre aqueles.
(09) É importante o “relativismo e pluralismo cultural” com uma grande atenção “na diferença” que existe entre todos os cidadãos.
(10) “participação das populações nas tomadas de decisão políticas relacionadas com o desenvolvimento”.
(11) “perante os paradoxos da sociedade actual a dimensão ética assume uma particular importância”, dimensão que está profundamente associada à cultura existente e praticada.
(12) Importância da “cooperação cultural internacional” e entre regiões.

Comprovada cientificamente a importância da dimensão cultural do desenvolvimento e a possível atribuição deste e outros significados congéneres, surge a primeira linha de argumentação quanto à importância da filatelia no desenvolvimento regional. Só por ignorância se poderá ignorar a influência da filatelia sobre algumas das vertentes da “dimensão cultural”.
A filatelia contribui muito significativa para o desenvolvimento da imaginação, para a libertação criadora e organizada do imaginário, para o aumento da perspicácia que permite, tal como ao artista, do meio das evidências extrair o inovador, o específico universal, o pormenor significativo. A filatelia é uma forma de lazer que permite o reforço da dignidade humana, a afirmação da sua especificidade enquanto cidadão, contribuindo para a “formação integral do indivíduo”, como afirmaria Bento Jesus Caraça. A filatelia permite estudar, valorizar e divulgar os valores culturais da região. A filatelia permite despertar consciência, criar organizações, reforçar a sociedade civil, estabelecer laços e relações de intercâmbio cultural. A filatelia contribui para o reforço das práticas éticas. A filatelia é um veículo poderoso de relacionamento entre os homens, de comunicação universal, começada muito anos antes dos actuais desenvolvimentos tecnológicos.
A filatelia tem todos estes impactos, mas para tal não basta ter um conjunto de pessoas que de forma isolada juntam selos e os colocam de uma determinada forma nos álbuns. A cultura é um acto social e os efeitos induzidos da filatelia serão tanto maiores quanto as práticas filatélicas forem mais evoluídas, mais organizadas, mais apoiadas na rede nacional e internacional que envolve associações e clubes filatélicos, administrações postais e comerciantes, fundações e instituições culturais internacionais, como o demonstra muitas das práticas da UNESCO.

3.2. Uma segunda linha de demonstração da influencia da filatelia no desenvolvimento económico e social passa pela possibilidade da sua estreita relação com a educação.
A este propósito permitam-me que recorde o exemplo da Educação Internacional e o que sobre o assunto apresentei em artigo recente:

Educação Internacional é uma organização mundial de professores fundada em 1993 pela fusão da Confederação Mundial das Organizações da Profissão de Professor e do Secretariado Internacional do Ensino. A sua sede é em Bruxelas.
De acordo com a sua documentação tem 296 sindicatos filiados e representa 24 milhões de professores e outros empregados da educação em 153 países e territórios.
Dos três objectivos centrais que enunciam para a sua existência e luta tomamos a liberdade de destacar o segundo:
“promover a paz, a democracia, a justiça social, a igualdade e a aplicação da Declaração Universal dos Direitos do Homem através do desenvolvimento da educação e da força colectiva dos professores e outros trabalhadores da educação”.
Tomando como orientação o pensamento de Anatole France (“A arte de ensinar não é mais senão a arte de despertar a curiosidade natural dos jovens espíritos com o objectivo de seguidamente a satisfazer”) a Educação Internacional encontra na filatelia um instrumento de trabalho, uma ajuda, um estímulo, um despertar da criatividade e da imaginação. (A Filatelia Portuguesa)


A filatelia é capaz de realizar um feliz casamento com a educação desde que os professores estejam disponíveis para a inovação e para a aquisição de conhecimentos nessa área. Os selos, os inteiros postais, os carimbos, os postais-máximos, as cartas permitem ilustrar e tornar atractiva qualquer matéria que é ensinada. Muitas colecções temáticas ou alguns portais filatélicos (Internet) existentes são verdadeiros manuais do ensino de algumas disciplinas, certamente mais ilustrados, atraentes e com outro tipo de informações complementares. Desde há décadas selos comemorativos sensibilizam a população para as diversas realidades sociais: a paz, o ambiente, o património mundial, a sida, o Ano da Alfabetização e instituições como a ONU em geral ou a UNESCO em particular têm sabido utilizar isso nas suas dinâmicas culturais mundiais. A construção de uma colecção temática ou de história postal obedece a um conjunto de regras e metodologias (consuetudinárias ou consagradas pela Federação Internacional de Filatelia) que em tudo são semelhantes às seguidas na investigação científica, podendo contribuir para a assimilação destas pelos jovens de uma forma lúdica, “descomprometida”, sem se correr o risco, como prevenia Bachelard, de se tornar estéril e dogmática ao tornar-se obrigatória e matéria curricular.
Outros aspectos poderiam ser referidos, mas pensamos que o afirmado já ilustra suficientemente este ponto. Temos afirmados frequentemente - sobretudo quando os órgãos de comunicação se lembram da filatelia para a associar a grandes preços, loucuras de especulação – que a única limitação às práticas filatélicas é a imaginação humana.

3.3. Por último, de entre o muito que fica por dizer, explicitemos a ideia de que a filatelia pode contribuir – falamos em possibilidade porque estamos perante uma possibilidade que só se manifestará se houver um esforço nesse sentido – para uma cidadania mais consciente, lúcida, empenhada.
Poderemos retirar do afirmado anteriormente conclusões neste sentido. Mais conhecimentos, mais força e organização da sociedade civil, mais e melhor educação, mais rigor científico e estruturação mental, mais disponibilidade para os valores éticos traduzem-se inevitavelmente em melhor cidadania. Mas não é só isso.
Como afirma José Pérez Adan,
“Ahora proponemos recorrer el camino en sentido inverso en el convencimiento de que: a) la asunción de estilos de vida alternativos tiene una repercusión social, y b) la razón de la asunción no está en una ética de los resultados (el cambio de estilo de vida se justificara sólo en la verosimilitud de un cambio global y sistémico), sino en la ética de la coherencia (la interiorización tiene justificación propia).” (Socioeconomía, 1997, Madrid, Editorial Trotta, pág. 86)

Por outras palavras, a filatelia é uma actividade “fora da rotina”, contribui para a assunção de “estilos de vida” diferentes, construídos numa “ética da coerência”, que não deixam de ter repercussões sobre as formas de viver e de sentir da comunidade.

4. A filatelia tem um impacto reduzidíssimo sobre estes estilos de vida alternativos? O reduzido número de cidadãos capazes de construir essa alternativa é diminuta? A sua possibilidade de influenciar a comunidade é limitada? Sem dúvida. Mas não será que as histórias da filosofia e da arte mostram à saciedade a força poderosa que algumas dessas “infinitamente pequenas” pode construir? Não vai nesse sentido muitas ciências, como a medicina? Sem dúvida. São processos em aberto que giram e rodopiam na imprevisibilidade do futuro que vamos construindo, como é expressa por uma canção do folclore, citada por  James Gleik (Caos, Construção de uma Nova Ciência, Gradiva):
“Por um prego, perdeu-se a ferradura;
Por uma ferradura, perdeu-se o cavalo;
Por um cavalo, perdeu-se o cavaleiro;
Por um cavaleiro, perdeu-se a batalha;
Por uma batalha, perdeu-se o reino!”

Que saibamos não perder!


A073/#264
2002/01
Publicado originalmente em Selos e Moedas 2001