Exposições Filatélicas
A propósito da LUBRAPEX´97
Carlos Pimenta
Ao longo das diversas LUBRAPEX tudo se disse sobre a sua origem, a sua razão de ser, a sua importância, as melhores formas de as organizar, os regulamentos e os júris, as colecções e a sua montagem, a utilização dos espaços, as animações, a presença dos comerciantes, a publicidade a realizar. Tudo se disse sobre estas e muitas outras coisas fundamentais para a sua existência e realização.
Não repitamos todas essas análises que apenas carecem de alguma sistematização e que aguardam que os futuros organizadores e participantes saibam apreciar devidamente.. As nossas reflexões giram em torno de um acontecimento notável presenciado na LUBRAPEX'97, certamente habitual: a presença de um alargado grupo de crianças de tenra idade liderado pela sua professora. Eram uns vinte rondando a dúzia de primaveras, sorridentes, suficientemente obedientes para se manterem num silêncio usado templos e para se conservarem em grupo. A professora dirigia-os. Em vinte minutos, tempo suficientemente longo para se manter acesa a atenção de tão jovens, percorreram todos os quadros. Aqui e ali paravam. A professora mostrava-lhes aquele selo muito bonito, alertava-os para o tema galhofeiro daquela colecção, apontava-lhes um quadro mais vistoso. A sua imensa boa vontade quedava-se no chamar à atenção para as evidências acessíveis a qualquer pessoa mais velha e atraída pelo belo. Se alguém perguntar futuramente a alguma daquelas crianças o que é uma exposição de selos já sabem: "é o que fui ver com a sotora", "é um sítio em que há muitos selos", "é ... bem eu não sei explicar, mas gostei".
Em vinte minutos se esgotaram um esforço homérico - muitas vezes quão difícil é organizar essas saídas da escola! - e uma relevante oportunidade para iniciar aqueles jovens numa actividade filatélica. Aquela professora e grupo de alunos defrontaram-se com uma realidade sem terem a capacidade de a compreender. Assim como não se começa a ler poesia pêlos Lusíadas, a consultar economia por Marx, a estudar Filosofia por Hurssel ou Matemática por Gauss, também não se pode pedir a quem apenas sabe que os selos se coleccionam ou que cuidadosamente foi juntando a subscrição da novidade feita junto da administração postal que chame a tenção dos jovens acompanhantes para o facto daqueles selos não terem denteado, daqueles outros terem erros, para a presença das marcas postais e a sua concordância de tempo e espaço nos postais-máximos, para os contributos históricos contidos no material censurado ou na história postal desta ou daquela apresentação. "Selos", "ensaios", "provas", "cartas", "filatelia", "pré-filatelia", "inteiros-postais", "postais-máximos", "1ª escolha" são termos herméticos assim como o são as regras para obter pontos em exposições. E mais hermético fica quando numa exposição luso-brasileira, de dois países que cultivam a língua de Camões e Amado, se encontram várias colecções total ou parcialmente em estrangeiro, como se o nosso português fosse incapaz de descrever as ideias.
Tudo isto colocou-me a problemática da ligação das exposições filatélicas ao público, particularmente aos mais jovens, da ligação da filatelia de alto gabarito (a constante das colecções) e os coleccionadores dos restantes "graus", e os que gostariam de coleccionar e não sabem como, e os que nunca pensaram em tal mas tão somente estão atentos aos acontecimentos da cidade. Daí me surgirem duas sugestões que passo a expor.
1. Defendo que nas exposições filatélicas de maior projecção deveriam existir guias filatélicos, isto é, pessoas disponíveis para responder às perguntas dos presentes, dos mais simples ("porquê coleccionar?", "valem mais os carimbados ou os novos?", "o que significa este carimbo?") às mais complexas, e servisse de acompanhante a quem quisesse. Pessoas conhecedoras, disponíveis, amáveis. Certamente que aquelas crianças teriam saído mais entusiasmadas e conhecedoras.
Sobre estes guias apenas uma ideia adicional: eles não brotam espontaneamente como flores silvestres ou arrumadores de carros nas ruas das cidades, Precisam de ser criados: escolhidos, formados, organizados.
2. A existência, em espaço anexo, de uma escola de filatelia. É um nome demasiado pomposo para o que se pretende. Um lugar onde os jovens que se desloquem (ou que se desloquem em visitas organizadas) têm selos e material filatélico para mexer, onde alguém os pode ajudar e orientar, onde dispõem de material didáctico sobre coleccionismo. Fundamentalmente possuírem orientação e selos.
Também não ficaria mal cada um desses jovens frequentadores da escola de filatelia sorridentemente preencherem em computador uma ficha com duas finalidades: os CTT enviarem-lhes um pequeno presente, sortear pacotes de selos e material filatélico,
Será que estas ideias tem alguma validade? Se se reconhece que sim porque não aplicá-las? Se se tem dúvidas porque não experimentar e ver os resultados?
Será de esperar pela nova LUBRAPEX? Porque não se aproveita a PORTUGAL 98?
A016/#149
1997/10
Publicado originalmente na Filatelia em Portugal
Publicado também em Jornal de Filatelia nº 45