Eu não estou cheio
Notas amigas sobre um editorial
(Resposta ao Editorial do Jornal de Filatelia de Nov. 1996Publicado no Jornal de Filatelia de Jan. 1997)
Carlos Pimenta
Quarenta e sete anos, professor, investigador, pai e filatelista.
Muitas outras vertentes da minha personalidade e vivência seriam esquecidas, subalternizadas, proteladas para referência oportuna se acaso quisesse numa linha sintetizar a minha identidade com o mundo. Mas a referência filatélica teria que estar presente. São quatro décadas de paixão, muitos milhares de horas de sonho, e uma sistemática luta contra o stress. Nos momentos decisivos e dramáticos da minha vida encontrei na filatelia a serenidade e a alegria, reencontrei os sonhos juvenis que frequentemente esquecemos.
Desde muito jovem, quase espontaneamente, considerei que a minha actividade filatélica só estaria completa se me integrasse num clube, o que fui repetindo em momentos diferentes e aderindo hoje a este, amanhã a aquele. Também chegou a vez do Clube Nacional de Filatelia. Apesar desse espontâneo sentir colectivista assumo a filatelia como um acto de relacionamento com as minhas próprias paixões. Não sei nem pretendo fazer juízos de valor sobre esta postura. Apenas relatar o que tem acontecido e a minha maneira de estar na filatelia até hoje.
Entretanto fui-me apercebendo, nesta leitura individualizada e subjectiva, do panorama filatélico nacional: uma filatelia valiosa e apreciada internacionalmente; grande número de coleccionadores com o mesmo gosto pelo anonimato que o meu; muitas actividades filatélicas, muita boa vontade e entusiasmo mas numa terrível dispersão; falta de divulgação internacional, falta de elos de interligação entre os apaixonados pelos selos. Também me fui apercebendo de que existem muitas guerras e conflitos porque o dinheiro e o prestígio cegam e corrompem; que a juventude está insuficientemente estimulada e apoiada nas actividades filatélicas; que há uma grande resistência ao novo.
Resolvi dar outra leitura ao meu envolvimento no mundo da filatelia. Entusiasmado e confiante no futuro, como sempre, resolvi lançar uma página na Internet sobre Filatelia em Portugal. Não pretendo que seja a minha página, embora nela consuma muitas horas de trabalho e emoção, mas a página de todos os que de alguma forma se relacionam com a filatelia no nosso País. Janela aberta para o mundo transmitindo-lhe a nossa realidade, e captando as suas experiências, pretende antes de mais ser o local de convívio onde todos informam, aprendem, relacionam-se, sonham, sugerem, escrevem, constróem.
Não me espantou o desencanto do editorial "Estou Cheio", nem me desagradou o grito final de pálida esperança no futuro. Diga-se tudo mas não se diga que "estou cheio de selos". Aí deixou de se ser filatelista.
Respondo ao vosso apelo pela positiva e mais uma vez afirmo que tudo farei para manter viva a página Filatelia em Portugal, melhorar a sua qualidade, fazer com que ela seja obra de todos os filatelistas portugueses e estrangeiros. Apenas pretendo ser o anfitrião que a todos acolhe.
Seria uma tarefa aparentemente fácil se os clubes, os filatelistas, os comerciantes, a administração postal, dirigentes e dirigidos respondessem às nossas solicitações respondessem aos contactos que lhes fazemos. Já nos foram transmitidas algumas palavras amigas, já encontrámos alguns ecos e colaborações, mas porque será que são mais frequentes vindos do estrangeiro que do nosso País?
Estamos sempre à vossa espera em http://www.caleida.pt/filatelia. Querem vir tomar um cálice de Porto?
Carlos Pimenta
Filatelista nº 6474
(3/12/96)
A002/#70
1997/01/00