Boca Talhada (3)
Carlos Pimenta
NÃO HÁ GUERRA
Ao longo do último ano o Jornal de Filatelia tem reflectido as divergências existentes entre a Direcção da Federação Portuguesa de Filatelia e o Clube Nacional de Filatelia. A diversidade dos materiais emitidos e a sua diferente proveniência, pode ter desorientado alguns leitores, desviando-os do cerne do problema.
Ouve-se por vezes dizer que são "questões pessoais", que são "diferenças de estilo", que são más disposições de momento, que é uma "guerra Norte-Sul", como se sugere em artigo de jornal diário. Consideramos, até melhor opinião, desprovidas de sentido essas leituras.
A reformulação do quadro de jurados atingiu pessoas mas é um problema de organização das exposições, assim como o é o quadro de comissários. Utilizar papel timbrado da FPF para tratar de problemas pessoais ou de outras estruturas é uma questão institucional, assim como é - para além de violação das leis - substituir uma assinatura "pelo fulano" por uma "imitação" da assinatura de outro. Sob a capa da fulanização está uma estratégia de poder. Mas se dúvidas houvesse muitos outros exemplos teriamos.
O que faz com que a Direcção da Federação Portuguesa de Filatelia esqueça o que prometeu por escrito, e designe como incompetente o projecto aprovado pela PORTO 2001, passe um atestado de menoridade intelectual a toda a sua comissão organizadora e recuse apoio e patrocínio, afirmado e reafirmado? O que faz com que pretenda rever, sem qualquer mandato para tal, contas já aprovadas - até com elogios - de exposições do Clube Nacional de Filatelia realizada há três anos? O que fez com que a FPF se tenha recusado a solicitar aos CTT os subsídios de literatura para as publicações do CNF, sem dúvida filatélicas e cumprido as regras estabelecidas?
Tudo isso acontece em cumprimento de uma ameaça oralmente proferida sobre o acontecimento. Tudo isto acontece como acto de "repressão" contra o Clube Nacional de Filatelia por este ter votado contra a transformação da FPF em Associação Promotora do Desporto, ter votado contra o Relatório e Contas da FPF, ter votado contra na eleição da presente lista.
Mas não será que em democracia é normal uns terem um sentido de voto diferente de outros? Não é até vantajoso que haja posições alternativas sobre os diversos problemas, enriquecendo-se todos com a troca de ideias e o debate de opiniões?
A razão profunda dos ataques que o Clube Nacional de Filatelia tem sido alvo está na falta de democraticidade da Federação Portuguesa de Filatelia. E quando a falta de democraticidade se dá num país democrático, quando também envolve a falta de registo transparente na movimentação de verbas, quando passa pela persistência em situações não consignadas legalmente salta-se do foro da filatelia para o da cidadania.
Na minha opinião, como tudo o mais contido neste artigo, é bom que se caminhe para a resolução do "diferendo", mas tal não pode ser feito com "papas e bolos", como recorda o ditado popular, mas com profundo sentido das responsabilidades, com reconhecimento efectivo e detalhado dos actos repressivos cometidos, com assunção plena da democracia e diversidade de opinião.
Poderá acontecer essa democratização de comportamentos e de estruturas. Estamos convictos que é possível caminhar nesse sentido, mas não será que esse tem de ser um esforço colectivo?
O SANTO RELOJOEIRO
É preciso olhar para o futuro com esperança, até porque esta é a última a morrer. É preciso caminhar sem ressentimentos e com dignidade para a superação das dificuldades.
Pode-se esquecer o passado quando este é bem recente? Nem sempre é fácil mas é possível e é também para isso que os homens existem: para em cada momento reconstruírem o seu caminho. Os acontecimentos de ontem deixam feridas nos sentimentos, mas não são tão perigosos quanto a sistemática insistência nos erros. Se os ataques ao CNF foi doença passageira também a sua cura pode ser rápida, mas se se insere numa estratégia de longo prazo a situação é de bem mais dificil resolução.
Neste contexto assumem particular importância dois extractos de editoriais da Filatelia Lusitana, revista da Federação, ambos assinados pelo actual Presidente da Direcção da FPF:
"A Filatelia Portuguesa deve ser organizada e deve funcionar como um todo, em que todas as suas peças se encaixem perfeitamente, como a máquina de um relógio, e onde não devem existir ou prevalecer atropelos a instituições, sejam elas quais forem, por parte de grupos isolados de pessoas, as quais, com a sua acção, em vez de fomentarem a filatelia, acabam apenas por dividi-la, em detrimento do todo filatélico que deve pautar a actuação de todos os filatelistas portugueses responsáveis, de boa vontade e de bom senso.
Gostaria de ver todos unidos em volta do mesmo ideal filatélico, que é a promoção e desenvolvimento da nossa querida filatelia e para isso exorto todos a que, sem ressentimentos pelo passado e solidários com o futuro comum, trabalhemos cada vez mais para o engrandecimento da Filatelia Portuguesa." (1988)
"Tudo faremos, para que o bem filatélico, vença o mal filatélico, tudo faremos para que a Filatelia de Portugal mereça ser aquilo, que os homens de boa vontade e honestos ambicionam." (1992).
Assim ficamos a saber que o funcionamento dos clubes e dos filatelistas que os integram deve ser como peças de uma máquina e que temos um relojoeiro que tira da engrenagem e deita para o lixo qualquer peça "avariada", ou que queira pôr os ponteiros do relógio a andar a outro ritmo ou direcção. Ficamos também a saber que esta máquina do tempo tem o seu "mal" e o seu "bem", cabendo provavelmente ao relojoeiro distinguir o satânico do celestial.
Só há um ligeiro problema nesta análise. Os clubes e os filatelistas não são peças. São homens. Em algum momento se aperceberão, mesmo na doçura do amor filatélico, que têm vontade, pensar, sentimentos e idiossincrasias. Se aperceberão que a sua dignidade não tem tempo nem preço.
O todo não é a "uniformidade do bem" mas a diversidade de culturas, a multiplicidade de leituras, a polifonia dos discursos; é o diálogo construtivo, a tolerância, a compreensão do outro para sermos capazes de nos compreendermos a nós próprios; são as organizações e os procedimentos democráticos.
Depois de ler os referidos textos tudo é mais claro. O CNF era uma peça má do relógio que era preciso mandar ao lixo. Mas até esta co-incineração tem dificuldades!
OS VIVOS E OS MORTOS
Em muitos países pretende-se evitar a reprodução em selo de figuras ainda vivas, com excepção de reis e presidentes. Em alguns casos essa utilização da imagem de contemporâneos é expressamente proibido por lei.
Em Portugal alguns selos reproduzem fotografias com personagens (veja-se, por exemplo o selo de 140$00 dos 250 Anos da Indústria Vidreira na Marinha Grande) cuja identificação não nos é conhecida mas o único selo que reproduz como figura principal uma personagem ainda do nosso quotidiano é o bloco referente a José Saramago, Prémio Nobel da Literatura de 1998.
No entanto, cada vez mais as administrações postais tendem a pôr de lado, expressa ou veladamente este princípio. A sua preocupação fundamental é vender e já perceberam que quanto mais publicitada é a personagem maior é a probabilidade de se venderem grandes quantidade de peças.
Os Correios de Espanha dão o exemplo de uma forma velada de superação da dificuldade, com a edição de um conjunto de blocos, cada um com um selo, dedicados a personagens do mundo da arte e da cultura. Os blocos reproduzem a imagem da personagem mas o que figura no selo é apenas uma referência ao seu trabalho.
Estamos perante manobras de negócio, o que não é preocupante. Abençoada cultura que também é lucrativa. O mal está em esquecerem-se vultos maiores do passado ou em promover-se filatelicamente personagens que a história mostrará serem bem mais pequenas que outras que não estiveram, ou quiseram estar, nas luzes da comunicação social.
ANJEF
Por iniciativa do Delegado FIP de Literatura Filatélica vai realizar-se no dia 22 de Julho em Estremoz a Assembleia Constitutiva da Associação Nacional de Jornalistas e Escritores Filatélicos. A constituição de uma tal instituição já constava da lista de prioridades apresentada no Relatório sobre a Literatura Filatélica Portuguesa. A assembleia constitutiva acontecerá entre o momento de escrever estas linhas e a saída deste jornal. Permitam-me os leitores que fale no futuro, porque só assim poderei fazer neste momento. A primeira palavra vai no sentido de manifestar o nosso apreço pelo dinamismo e inteligência revelados pelo Delegado FIP. A segunda para manifestar divergência processual. Expliquemo-nos em relação a este último ponto. Uma iniciativa desta envergadura não pode deixar de suscitar interrogações e de levar a pontos de vista diferentes entre os possíveis intervenientes. É certo que não existe nenhuma associação desta natureza no nosso país que esteja simultaneamente legalizada, institucionalizada e em funcionamento mas não existirá nenhuma legalizada? Criar uma estrutura nova ou aproveitar a que porventura exista? Os estatutos devem ser minimalistas e remeter para regulamentação interna quase todas as matérias ou deve consignar todos os aspectos desde a constituição? Períodos de exercício dos orgãos de quatro anos? Faz sentido os editores das publicações filatélicas serem "equiparados" a jornalistas? Devem estar também neste caso os editores de catálogos, nem que sejam de leilões, matéria que mereceu críticas do Delegado no relatório feito sobre a situação actual? Será legítimo continuar a considerar os espaços multimédia, independentemente do suporte, como uma actividade secundária, sistematicamente incluídos nos "outros"? Devem as questões deontológicas ser analisadas pelas instituições associativas ou remetidas para os tribunais?
Não será a independência da Associação limitada, condicionada, pela cooperação com umas instituições e não com outras? Como se justifica que nos próprios Estatutos fique consignada a cooperação estreita com a Federação Portuguesa de Filatelia e a Federação Internacional de Filatelia? Porque não com o Sindicato dos Jornalistas? Porque não com a União Postal Universal? Porque não com
a Associação Internacional de Jornalistas Filatélicos?
Por outras palavras, há matéria suficiente para se lançar um amplo debate entre todos os interessados (aliás seguindo uma lógica que esteve presente quando o Delegado FIP de Literatura Filatélica decidiu lançar um inquérito antes de fazer o seu próprio relatório) antes de se avançar para a assembleia constitutiva. E porque se pretende uma estrutura independente teria sido interessante constituir uma comissão promotora, em que sem dúvida o Delegado FIP - não enquanto tal mas enquanto jornalista filatélico de mérito reconhecido - teria sem dúvida um lugar importante a desempenhar. E se há que escolher uma data para o lançamento de uma estrutura como esta não é certamente fins de Julho, em plena época de férias.
Estamos perante uma boa iniciativa, um promotor inteligente e um processo inadequado. Como é que estes três aspectos que parecem contraditórios podem estar presentes ao mesmo tempo? Deixemos a pergunta no ar esperando que os próximos meses nos esclareçam.
NEGÓCIOS NA INTERNET
As administrações postais reconhecem cada vez mais a importância dos portais filatélicos e a rele vância do comércio realizado por essa via. Segundo a administração postal da Ilha do Homem as compras pela Internet aumentaram no último ano 300%.
PORTUGAL NO MUNDO
Filatelia em Portugal é o portal filatélico português mais visitado e conhecido nacional e internacionalmente. Durante o primeiro semestre do presente ano teve 412.575 solicitações bem sucedidas, tendo sido transferido por solicitação dos visitantes 1.671.009 Kbytes de informação. Se tivermos em conta que a primeira página do Boca Talhada tem 30 Kb de informação em formato html podemos resumidamente dizer que durante o primeiro semestre foram lidas pelos visitantes do portal 55.700 páginas de jornal. Recentemente foi um dos portais escolhidos para ser objecto de tradução simultânea entre português, inglês, espanhol, francês, russo, japonês, chinês e tailandês. Desta forma a Filatelia Portuguesa poderá ser melhor conhecida por povos de outras culturas e línguas.
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2000/07
Jornal de Filatelia nº 61, Julho de 2000