Boca Talhada (2)
Carlos Pimenta
A quantidade de revistas e outras publicações filatélicas de origem africana que chega ao nosso conhecimento é muito escassa, porque logo o é na edição. República da África do Sul é uma excepção. Aqui ficam duas sugestões: Setempe, South Afiican Philatelist. Se quer conhecer conteúdo das últimas publicações, preços e formas de assinatura visite Filatelia em Portugal (http://www.caleida.pt/filatelia, "Materiais Filatélicos Recebidos", logo na página inicial).
A referida revista Setempe iniciou no número de encerramento do passado ano uma secção com o título "A filatelia sobreviverá e rejuvenescerá no novo MILÉNIO?". Lappe Laubscher responde. Dessa resposta retiramos alguns tópicos.
Problemas identificados:
(a) Os clubes filatélicos debatem-se com problemas de sobrevivência e as exposições têm menos visitantes;
(b) Todos os anos aumenta o número de selos emitidos que nunca terão possibilidade de franquiar uma carta;
(c) A explosão tecnológica mundial cada vez deixa menos espaço aos entretenimentos tradicionais;
(d) As exposições competitivas são caras e é uma minoria de coleccionadores que participam.
Algumas linhas de força para melhorar a situação:
(a) Tornemos a actividade compreensível para todos, evitando uma terminologia menos habitual ou "técnica";
(b) Libertem-se as exposições das regras que as sufocam;
(c) Combinem-se as exposições filatélicas com outras actividades de lazer;
(d) "Deixe-se de lastimar da quantidade de selos que são emitidos. Se encontram uma procura, tudo bem. Encontremos antes maneira de usar esta procura na promoção do coleccionismo".
O que é que coleccionas?
- Selos de todo o mundo.
É um diálogo habitual que soa aos "catedráticos da filatelia" como uma heresia: como é possível fazer colecção de todo o mundo? tem que escolher uma época, um país, um tema, um tipo de colecção!
Entretanto aquela é a resposta de milhares de coleccionadores e um inquérito feito recentemente aos associados da American Philatelic Association mostrou que está a aumenta o número dos coleccionadores de todo o mundo. Uma respeitável associação (iswsc.homepage. com) agrupando este público tem aumentado o seu número de associados. Como diz o presidente deste clube "Coleccionar de todo o mundo não significa necessariamente coleccionar todos os selos de todos os anos e de todos os países, embora muitos de nós o façamos. Muitos de nós limitamos de alguma forma as nossa colecções sem no entanto caber nas categorias tradicionais da filatelia". Como um outro filatelista afirma, "coleccionar de todo o mundo" significa antes do mais que se "apreciam todos os selos".
Em Janeiro do ano passado a Administração Postal da Finlândia emitiu um bloco com Mika Hakkinen. Em alguns dias vendeu 2.000.000 de exemplares. Apesar deste sucesso o seu responsável considera que muita coisa há a mudar na filatelia do seu país: "Aqui, como noutros países, a filatelia organizada tradicional parece estar em declínio. Os membros dedicados são poucos e a sua idade "senior". Também parece não haver suficientes coleccionadores para organizarem clubes de selos para crianças e jovens" (entrevista em Drinews de Janeiro 2000)
Pagar para expor pode ser um absurdo, como muito bem salienta um editorial de Apuntes de Maximofilia. Sabemos que é uma prática enraízada, mas analisemos um pouco mais em pormenor. O que interessa exclusivamente numa exposição competitiva é o premiar-se esta ou aquela colecção? Então está certo que quem pretende concorrer pague, embora também fosse correcto que o prémio atribuído fosse significativo em valor. Mas será que o mais interessante numa exposição não é o público que é atraído por ela? Então as colecções presentes são os "artistas", e os coleccionadores que expõem prestam um serviço à instituição que promove o evento. Então não só não deviam pagar como até deviam receber. E como há poucos expositores devem ser bem pagos, para que outros sejam atraídos a fazê-lo.
Fui um privilegiado. Tive a possibilidade de no dia 11 de Março, data de tantas e desencontradas memórias, sentar-me àquela larga mesa da Federação Portuguesa de Filatelia, com as pastas que deveriam conter os documentos da PORTUGAL'98. Privilegio e honra pois tínhamos ali, atentamente olhando para tudo o que fazíamos, uns dezasseis olhos, não fossemos nós ter dúvidas para esclarecer, o atrevimento de mexer inopinadamente em algum dos documentos que não existiam ou atrasarmo-nos para o almoço, pois uma manhã para estudar a movimentação de mais de duzentos mil contos é tempo suficiente.
Vários anos de profissão permitiram-me ver muitas organizações e desorganizações contabilísticas mas como aquela nem a mais fértil imaginação conseguia prever. Contabilidade de merceeiro, como se costuma dizer perjurativamente? Não senhor, que o meu tio era merceeiro e tinha a contabilidade muito melhor. Seria uma ofensa a essa profissão atribuir-lhe tal epíteto. Qualquer papel rasgado serve para assinalar uma saída de dinheiro de uns milhares de contos. Por vezes não se sabe para quê, nem para quem. Outras vezes diz-se que se entregou a fulano ou sicrano mas deste não há documento comprovativo. E a maravilha de um apontamento de mais de trinta mil contas de despesas perfeitamente justificado com um monte de papeis, daqueles que trazemos na algibeira quando numa feira percorremos várias tascas a beber um copo!? E os seis mil e quinhentos contos para medalhas que devem ter sido feitas algures? E os documentos de 2ª via que servem para justificar uma despesa, mesmo que esse documento esteja em nome de um clube filatélico e não da Federação? E os empréstimos e o que parece ser o pagamento dos empréstimos? Tudo uma autentica maravilha de desorganização.
Não senhor, não era tudo assim! Faltaríamos à verdade se não referíssemos que os recibos de receitas dos CTT estavam em perfeita ordem, que vários documentos de hotéis eram fidedignos, que no início, as coisas estavam mais conformes com as regras contabilisticas e que nem tudo são desgraças. Além disso teve-se o cuidado, aqui e além, de se fotocopiar o cheque emitido ou de se juntar o extracto de uma das várias contas que se tinha no mesmo banco.
Desconfiar de alguém, como insinuou no Congresso o Presidente da Direcção? Não senhor! Duvidar que ele até fez viagens à conta dele e que entregou dinheiro seu? Nem pensar! É certo que há uns ivazinhos e uma sisazinha que provavelmente ficaram pelo caminho, mas como não perdoar quando tudo isso foi a bem da filatelia?
Não senhor, não se desconfia de ninguém. Que isto fique bem assente, dito e redito. É exactamente por isso que se considera perigoso não terem contabilidade de tantos milhares de contos. Suponha-se que alguém diz que o senhor A ou B foi ao estrangeiro com companhia à custa da exposição, que o carro de C ou D foi comprado ou arranjado com os subsídios, que a compra de X ou Y não
custou tanto quanto se diz. Como desmentir estas vis calúnias com aquele simulacro de documentos contabilísticos? Tarefa homérica, humanamente impossível. É porque todos são honestos, e em defesa dessa mesma honestidade, que a contabilidade devia estar organizada.
Quanto ao andar comprado? Não digo que não haja documento, mas posso garantir que não o encontrámos. Sem problema. O contrato promessa de compra e venda lá estava, em pasta à parte, como nos foi mostrado.
O objectivo fundamental da filatelia é dar prazer. Por isso Timbroscopie no seu editorial de Janeiro de 2000, revista hoje desaparecida para dar lugar a uma outra, afirma com razão: "Seria útil que ela regressasse ao que era originalmente: o simples prazer de coleccionar. Pois é pelo menos espantoso ver hoje certos filatelistas lastimarem-se, enervarem-se, ficarem com stress e encolerizarem-se; comportamentos tanto incompreensiveis quanto incompatíveis com que traz o simples facto de coleccionar".
Sempre que se fala de um sector da população para o qual a actividade filatélica deve ser especialmente dirigida surgem os jovens. É sem dúvida uma importante frente de trabalho, mas tal não pode fazer subestimar as outras. E cabe aqui recordar duas: a "terceira idade" e as mulheres. Se o interesse de um trabalho junto do primeiro grupo parece não carecer de justificação, mais que não seja porque a actividade filatélica adequa-se muito bem às características e desejos das pessoas daquele grupo, já o mesmo não se poderá dizer do segundo. De facto as mulheres são a maioria da população e uma minoria no mundo filatélico. São sofredoras de um certo isolamento e desconhecem as possibilidades que a filatelia abre nesses momentos. Têm uma grande influência sobre o agregado familiar, nomeadamente sobre a formação da personalidade dos jovens e é frequentemente esquecido. Atrair mais mulheres à filatelia é permitir aumentar a felicidade de novos cidadãos, é dinamizar a filatelia e é indirectamente influenciar as gerações vindoiras.
Tiveram a amabilidade de nos enviar o Boletim 1 da exposição INDONESIA 2000. Ali está, confirmadíssimo, para todo o mundo ler e encher de vergonha os portugueses que não aceitam nem aceitarão crimes contra a humanidade. O Comissário Nacional para Portugal figura na publicação e o nome que ai consta é o da Federação Portuguesa de Filatelia. Continua-se a considerar pacóvio e provinciano desmentir mundialmente o facto, fazer uma mobilização nacional e internacional contra tal afronta?
É certo que as campanhas eleitorais para cargos da FIP podem exigir votos das instituições constitutivas da Inter-Asian Philately, mas certamente todos estamos de acordo, incluindo a Federação Portuguesa de Filatelia, que a dignidade não se vende e é necessário lutar quando é afrontada daquela forma.
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2000/06
Jornal de Filatelia nº 60, Maio de 2000