Boca Talhada (1)
Carlos Pimenta
- Boca talhada em milagrosas linhas,
A luz aumenta com o seu falar.
Esta manhã, um bando de andorinhas
Ia-se embora, atravessava o mar.
Chegou-lhes às alturas, pela aragem,
Um adeus suave que ela lhes dissera,
- E suspenderam todas a viagem,
julgando que voltara a Primavera.
(Augusto Gil)

Até muito recentemente os selos Ceres (Fig. 1), emitidos em Portugal entre 1912 e 1931, eram os que tinham, com a mesma imagem, maior quantidade de taxas, emissões e variedades.
Segundo o British Philatelic Bulletin (Out. 99) esse recorde foi ultrapassado pelos selos do Reino Unido que apresentam a imagem da Rainha Isabel II (Fig.2).
Com a quantidade de séries comemorativas que hoje se produzem cada vez é mais interessante dedicar a nossa atenção sobre as séries base, as séries de selos que efectiva e duradoiramente são utilizados na correspondência.
No dia 1 de Janeiro de 2001 começa o novo século e milénio. No que então finda nasceu, cresceu e amadureceu este Portugal que amamos.
Diversas administrações postais estão a fazer, ou a planear, emissões filatélicas em que ressaltam os aspectos mais relevantes do milénio no seu País ou no Mundo.
Vamos admitir que Portugal enveredava por uma iniciativa semelhante. Quais as situações, os acontecimentos ou as figuras que devem figurar nos selos? Temos que concordar que não é pergunta de fácil resposta.
Os Correios Franceses resolveram o problema (para o século e não para o milénio) distribuindo aos franceses "boletins de voto". São dezenas de milhões, esperando que muitíssimos sejam preenchidos.
E assim "matam dois coelhos de uma cajadada": respondem democraticamente às ideias dos cidadãos e fazem uma grande operação de divulgação da filatelia e de marketing do seu sistema de assinatura das emissões.

Há selos de todas as formas e feitios.
Recentemente as administrações postais europeias também lhe tomaram o gosto: selo redondo para campeonato de futebol, selo oval para competição de rugby.

A Isle of Man para recordar acontecimentos musicais edita blocos em formato de CD. Também a série também estará disponível num pacote que contem uma pequena brochura e um verdadeiro CD musical.
Estranho? Mais foram-no os blocos das Nações Unidas (Administração Postal com particulares responsabilidades) sobre o Ano Internacional dos Oceanos vendidos em carteiras com um reservatório de água azulada fazendo ondas.
Estamos em crer que dentro em breve os selos serão comercializados das formas mais estranhas, como antevia uma anedota publicada na Philatélie du Québec
A França é um país de uma intensa actividade filatélica. Muito provavelmente as razões dessa situação tem a ver com o desenvolvimento social, com uma cultura muito variada, rica e capaz de se impor internacionalmente, com os níveis de vida e confiança no futuro. Mas este contexto não invalida o importante papel que editores filatélicos, associações, comerciantes e muitos outros desempenham quotidianamente.
Em entrevista recente (Echo de la Timbrologie, 1723) o Presidente da Federação Francesa das Associações Filatélicas deixou algumas ideias que podem ser interessantes para o contexto filatélico português:
- A Federação de associações filatélicas deve manter esse estatuto, isto é nem transformar-se em associação nem substituir-se a elas
- "A imagem das associações é a dos filatelistas que as compõem. Durante muito tempo a filatelia desenvolveu-se como um lazer que não apresentava nenhum problema, sem concorrência com outros entretenimentos. Rapidamente nós entramos num mundo em que a comunicação tornou-se rainha. Os dirigentes associativos não souberam nem tiveram os meios técnicos e financeiros para atrair as pessoas. A sociologia das associações conduz a um encerramento e um jovem dificilmente entra no sistema associativo e participa activamente. Demasiados antigos mantêm-se em actividade muito tempo e bloqueiam o acesso aos jovens e raros são os que depositam confiança neles"
- As exposições internacionais são actualmente muito onerosas e não estão a ter os efeitos pretendidos na expansão do número de filatelistas. É necessário repensá-las e resolver alguns dilemas.
Posições bem diferentes parecem habitar similar estrutura portuguesa que continua a considerar que as exposições caras são o centro da filatelia e que cada vez mais faz o que não devia fazer, porque é função dos clubes - não é natural uma Federação, com sede em Lisboa, vir fazer uma mostra a terras transmontanas !? - e não faz o que devia fazer - não informa os clubes, mantém um silêncio sepulcral em relação a questões tão graves como Timor.
Mirando a composição do novo Governo parece que encalha o projecto das Associações Promotoras de Desportos. Será que a Federação Portuguesa de Filatelia (tão recente e galhardamente promotora do dito desporto, a bem da filatelia, segundo alguns que o afirmam sem explicarem bem como; pois de ninharias se trata, e não estamos a bajular, acreditem!) deixou de ter possibilidades de obter milhões para distribuir pelos clubes federados na organização duma maratona ou campeonato de damas?
Quando se começou a falar na passagem de Macau para a soberania chinesa a opinião pública mundial melhorou os seus conhecimentos de geografia política e tomou conhecimento da existência daquele território. Os filatelistas, nomeadamente os milhões que habitam a China, também redescobriram Macau. A procura de peças filatélicas daquele território aumentou muito, os especuladores aproveitaram a ocasião e os preços aumentaram rapidamente. Rapidamente mas, em muitas situações, passageiramente.
Poderá vir a acontecer algo semelhante com Timor, apesar de não ter a proximidade da procura chinesa. Muitos coleccionadores em todo o mundo viram-se para as peças filatélicas daquele território.
Como salienta um artigo recente (Timbroscopie 172) há poucos selos diferentes, as suas cotações nos catálogos internacionais são baixas - apesar de serem relativamente raros-, as cartas circuladas são escassíssimas (veja-se a este propósito o artigo "Cronologia das Primeiras Marcas Postais de Timor" de Luís Frazão, no número 51 deste Jornal). Um "paraíso" filatélico.
Além disso advinha-se que dentro em breve Timor Loro Sae volte a emitir selos e será fácil ter uma colecção completa.
Estejamos atentos mas tenhamos cuidado com as especulações.
Se acreditamos que a filatelia é uma actividade individualmente agradável e socialmente interessante, que é possível promovê-la e que muitos a praticarão se dela tiverem conhecimento, compete às administrações postais e às associações filatélicas, no seu próprio interesse, numa lógica de expansão das suas "áreas de influência", levá-la aonde estão as pessoas.
A ideia não é nova e foi rediscutida recentemente por algumas instituições, noutros países. Algumas iniciativas já foram concretizadas, mas certamente muitas outras poderão sê-lo. Aqui deixamos três sugestões de locais de divulgação da filatelia: paragens dos autocarros, centros comerciais, supermercados.
É sempre agradável descobrir nova argumentação justificativa da filatelia, particularmente quando ela parte de pessoas com grandes responsabilidades na sua promoção. Nos textos introdutórios ao catálogo da Philalberia'99, Luís Andrade, Director da Filatelia dos Correios de Portugal afirma:
- Na sociedade contemporânea, onde o conceito de globalização dos negócios assume um papel preponderante e balizador da nossa actividade, importa salvaguardar valores e tradições, indispensáveis à salutar vivência e convivência do Ser Humano.
A Filatelia surge, assim, com a preocupação de preservar hábitos, recriar velhos interesses, perdidos no tempo, e cultivar novas motivações. A busca permanente para manter acesa esta chama é a essência da sua razão de ser.
Podemos ver nesta afirmação diversos desafios. Antes de mais a decisão de que as emissões filatélicas portuguesas continuarão a reflectir, pelas temáticas e pela forma, a cultura lusitana, aberta mas específica. Depois a apresentação do coleccionismo em geral, e da filatelia em especial, perante todos os cidadãos como uma "salutar vivência e convivência", espaço de fuga a uma globalização frequentemente desumana.
Para que esta leitura cultural, ética e humanista se imponha muito há que fazer:
- maiores apoios financeiros e orientação dos recursos existentes para iniciativas de contacto mais estreito com os cidadãos;
- um muito melhor conhecimento psicológico, sociológico e económico do coleccionismo de selos;
- uma viragem dos clubes filatélicos para o exterior de si próprios e uma preocupação pela sua imagem;
- uma visibilidade sistemática da filatelia junto do público em geral, para o que seria importante a existência de publicações filatélicas de ampla divulgação.
A mesma alegria não podemos sentir algumas páginas à frente, quando o Presidente da Direcção da Federação Portuguesa de Filatelia manifesta falta de sentido da realidade ao afirmar:
No virar do século a filatelia continua a ser, quer se queira quer não, o grande factor de intercâmbio regular e pontual entre as nações do mundo.
Repare-se que não se fala de "um dos grandes factores" ou de "um factor que contribui" mas "o grande factor". Como se não existissem relações económicas, como se não existissem redes mundiais de comunicação pondo em contacto diariamente centenas de milhões de cidadãos dos nosso planeta, como se não existisse, enfim, a sociedade em que vivemos.
Poder-se-ia descuidadamente admitir que se tratou de um equívoco, de um exagero de discurso inflamado pelas circunstâncias, mas um peremptório "quer se queira quer não" desvanece qualquer equívoco. É uma afirmação racionalmente megalómana, manifesta fuga à realidade que se procura impor como verdade num "discurso de cátedra".
Justificação de afirmação tão poderosa: o número de filatelistas, a dinâmica dos clubes portugueses, a promoção do selo na correspondência, o volume de vendas de revistas filatélicas disponíveis para o grande público? Nada disso... A argumentação é financeira:
- ... a Filatelia é uma realidade em constante progresso onde os orçamentos para as mundiais atingem somas absolutamente impensáveis.
Poderão efectivamente ser impensáveis, tanto mais quanto são pouco divulgadas publicamente, mas muito mais "impensável" é que se continue a insistir numa lógica de divulgação do coleccionismo por vias que não têm os efeitos pretendidos e que sobretudo tende a fomentar clientelismos e isolamento das "elites", que o não são.
É habitual nas palavras de circunstância empolarmos o discurso, embalados pelo som das palavras e a eventual projecção que estas dêem ao acto, mas não podemos encarar benevolamente as afirmações anteriores: a falta de realismo não pode ser apanágio de um bom dirigente.
A União Postal Universal criou um grupo de trabalho para combater a proliferação de selos ilegais no mercado filatélico. Com efeito tem aumentado o número de selos "emitidos" por falsas administrações postais.
Esta situação exige vigilância dos filatelistas, tanto mais quanto algumas dessas emissões já figuram nos catálogos filatélicos.
Recorde-se o aviso que foi deixado no último Jornal de Filatelia e o que hoje se apresenta sobre o enclave de Ocusso.
O crescimento de cada clube filatélico, o aumento do seu número de sócios, a publicação regular de literatura filatélica de qualidade, a realização de encontros, mostras, feiras e outras iniciativas por uns só pode ser encarado com entusiasmo pelos outros.
A cooperação entre todos, muito mais vantajosamente alicerçada na diversidade de opiniões e formas de organização que na obediência seja ao que for, é um imperativo de crescimento do todo e das partes. Podemos ter troncos decrépitos em árvore robusta mas não podemos ter troncos robustos em árvore decrépita.
Congratulamo-nos com o facto de estar planeada uma exposição organizada por um clube que não é de "província", que é de Lisboa. Ainda bem que também nasci e vivi na capital para poder ter este orgulho bairrista, (embora afirmado entre parentesis para não alimentar polémicas) que afinal não é tão nortenho como por vezes se faz crer.
As dificuldades invocadas tão pungentemente em poucas linhas, aparentemente sanáveis com algum financiamento adicional, comoveu-nos, mas estamos certos que conseguirão encontrar um local apropriado, apesar da falta de espaços dignos e baratos na cidade de Lisboa (que o Presidente da Câmara tome nota deste facto!).
Bem haja quem assume o "pesado encargo e a grande responsabilidade" de promover tão galhardamente a filatelia, libertando caridosamente os restantes filatelistas de tanto trabalho!
A Secção Filatélica da Associação Académica de Coimbra, mais exactamente o Clube de Coleccionadores de Carimbos Comemorativos acaba de editar um Catálogo de Carimbos Comemorativos de Portugal (1982-1998) de grande qualidade e interesse.
O interesse filatélico, estético histórico e sociológico dos carimbos é certamente muito maior que o interesse que até agora tem despertado entre os coleccionadores. Ao editar obras como estas,
ilustrativas do que afirmamos, contribui-se muito positivamente para o património filatélico e cultural do País.
Esta obra pode ser adquirida por 1000$00 (Apartado 1094, 3001-501 Coimbra).
A063/#225
1999/12
Jornal de Filatelia nº 57, Novembro de 1999