A Cultura da Paz espera-nos

Carlos Pimenta

Flâmula da franquia mecânica usada pela Administração Postal das Nações Unidas em Nova Iorque a partir de 6 de Março de 2000. Observe-se que as Nações Unidas não emitiram nenhum selo sobre este tema. Eles foram dedicados a outra comemoração de 2000: Ano Internacional da Acção de Graças ou do Jubileu.

A filatelia é o que nós quisermos. A sua única limitação é a imaginação humana. E o mesmo se poderia dizer da literatura filatélica e do conteúdo destes artigos que têm a amabilidade de ler.
Poder-vos-ia falar das técnicas de manuseamento do selo ou da sua comercialização, descrever as diversas modalidades de coleccionismo, consagradas ou não pelas regras federativas, cantar a beleza de muitas peças filatélicas ou maldizer as práticas de algumas administrações postais. Poder-vos-ia apresentar os argumentos das (des)vantagens do investimento em selos, descrever eventos da história das sociedades associadas à correspondência, retratar algumas colecções temáticas que são enciclopédias de saber ou bálsamo de histórias de amor, recordar-vos Portugal através de muitos dos seus selos
A variedade de opções que se coloca é grande e todas elas válidas, mas permitam-me que insista na tentativa de ligar o coleccionismo de selos ao quotidiano, utilizando-os para melhor compreendermos o mundo em que vivemos e a situação em que estamos.
Na última crónica falei-vos do Ano Internacional da Tolerância para concluir sobre a intolerância reinante. Nesta, num momento em que o mundo conhece uma situação de guerra, tecerei algumas considerações sobre a Paz (tema que também foi objecto de uma Ano Internacional) e sobretudo sobre o Ano Internacional da Cultura da Paz ("international year for the culture of peace", "année internationale de la culture de la paix", "internationales jahr für eine kultur des friedens", conforme nos relatam as três flâmulas criadas para o efeito pela administração postal das Nações Unidas), comemorado no passado ano, fim de século e milénio, de acordo com a Resolução 52/15 de 15 de Janeiro de 1998, das Nações Unidas.
Mais uma vez foram poucos os países que responderam filatelicamente ao apelo, com emissão de selos, inteiro postais ou carimbos alusivos: 11. Desses apenas dois são europeus (França e Liechteinstein) e nenhum pertence ao continente americano.
Porque terá acontecido isso?

Um dos três selos do único país europeu que emitiu selos. O simbolismo em todo o seu esplendor. A França emitiu um carimbo.


Porque é pouco importante o apelo lançado pelas Nações Unidas?
Pensamos que não. Basta atendermos no discurso então feito por Kofi Annan sobre o assunto: "Mas a verdadeira paz é muito mais do que a ausência de guerra. É um fenómeno que envolve desenvolvimento económico e justiça social. Supõe a salvaguarda do ambiente global e o decréscimo da corrida aos armamentos. Significa democracia, diversidade e dignidade; respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito; e mais, muito mais."
Um estudioso da paz ensina-nos que ela é composta de três tipos de paz: paz directa, paz estrutural e paz cultural. É esta última que está particularmente associada ao referido ano internacional: "A paz positiva cultural substituiria a legitimação da violência pela legitimação da paz na religião, no direito e na ideologia; na linguagem; na arte e na ciência; nas escolas, universidades e media; construindo uma cultura de paz positiva."
Só os "senhores da guerra" duvidarão da sua importância.
Porque a humanidade hoje ainda não está amadurecida para uma pratica quotidiana de paz?
Provavelmente. A flâmula das Nações Unidas parece ilustrar a importância do entrelaçamento de diferentes formas de encarar a vida, mas as emissões dos diversos países privilegiam o simbolismo desligado das práticas sociais (a famosa pomba da paz, os ramos de oliveira, o esplendor da natureza, a paz como simples ausência de guerra). São sinais da nossa actual imaturidade civilizacional para a paz.

Um dos mais belos selos emitidos sobre o tema. Bilingue. Reproduz o "emblema" lançado pela ONU, junta-lhe as folhas de oliveira em que homens se transforma na pomba da paz. Ao simbolismo referido o livro acrescenta o realismo da importância do ensino e da cultura.

Vivemos num mundo globalizado. Sentimo-lo nas comunicações, nos produtos consumidos, nas cotações nas bolsas de valores, no comércio e na actividade empresarial. Não o sentimos na guerra e na paz: essa mundialização exigiria que encarássemos toda e qualquer guerra, em qualquer local, como uma guerra civil. Continuamos a ser pouco sensíveis à violência que as desigualdades sociais e as injustiças provocam.
Federico Mayor, director-geral da UNESCO afirmou: "Para transformarmos uma cultura da guerra numa cultura da paz, temos de mudar os valores, atitudes e comportamentos do passado. Em vez do cínico provérbio "se queres a paz, prepara a guerra", temos que proclamar "se queres a paz, prepara-te para a paz e tenta construí-la na tua vida quotidiana"".
Ao longo de décadas a paz é um tema de muitas emissões filatélicas, mas é mais fácil encará-la como um intervalo entre guerras do que como uma realidade positiva, é mais fácil cair em simbolismos de boas intenções do que assumir um programa de reformas sociais e posturas individuais que criem uma nova maneira de estar na vida.
A fragilidade filatélica do Ano Internacional da Cultura da Paz antecipa o dramático momento que vivemos. Observar os selos revela-se como um processo de interpretação da sociedade em que vivemos
Há muito a aprender sobre a paz. Também algumas colecções temáticas sobre o tema podem ajudar a sensibilizar os mais distraídos.

Bibliografia:
- PUREZA & Outros; Para uma Cultura da Paz; 2001, Coimbra, Quarteto
- Fascination nº 278


A061/#213
2001/11
Mundo Português: Novembro 2001