(In)Tolerância

Carlos Pimenta

Quando participei no início deste ano numa conferência internacional sobre a globalização, no Recife (Brasil) chegou-me às mãos um livro de um filósofo e humanista (Paulo Meneses) contendo um artigo de título assaz apelativo: "Filosofia e Tolerância". Ao lê-lo logo concluí que aquele escrito tinha um aliciante adicional: fazia referências ao Ano Internacional da Tolerância, a que foi dedicado 1995, por proposta da UNESCO e decisão da ONU, tendo como referência cronológica o tricentenário do nascimento de Voltaire (1694) - tido em conta pela ONU - e também de Zumbi:
É interessante que o tricentenário de Voltaire coincida com o tricentenário de Zumbi. Não é só a cronologia que os aproxima: ambos lutaram contra a intolerância: um contra a discriminação que perseguia os que tinham opiniões divergentes; o outro, contra a injustiça que reduzia a raça negra à escravidão. Ambos coincidiram na visão hegeliana de que a essência do homem é a liberdade; e negar a sua liberdade é negar o próprio homem; por isso, na lógica da intolerância, está a morte. (ob. cit. pág. 126).
Há longos anos que colecciono Anos Internacionais. Existem selos comemorativos de anos que foram dedicados a uma determinada situação, para que a humanidade se lembrasse do muito que ainda há a fazer pela melhoria da qualidade de vida em todo o planeta. Sem remontar às origens e centrando-nos nos últimas décadas citemos alguns: Ano Internacional dos Direitos do Homem (1968), AI da Educação (1970), AI contra o Racismo e a Discriminação Racial (1971), AI da Mulher (1975), AI da Criança (1979), AI do Deficiente (1981), AI da Juventude (1985), AI da Paz (1986), AI da Habitação para os sem Abrigo (1987), AI da Alfabetização (1990), AI dos Povos Indígenas (1992), AI da Família (1994), AI da Tolerância (1995), AI da Luta contra a Pobreza (1996), AI dos Oceanos (1998), AI dos Idosos (1999), AI para a Cultura de Paz (2000). Alguns temas, nem todos aqui referidos, tiveram "repetições" em diferentes anos, e o mesmo ano serviu por vezes para mais de uma comemoração.

Um dos dois únicos selos emitidos pelo Mónaco. O seu tema principal é a multiplicidade racial.

O interessante neste tipo de colecção, para além da grande beleza de algumas peças filatélicas e da imaginação criadora que diversas administrações postais e entidades revelaram (emitindo "cinderelas" sem valor postal), é estudar como é que cada poder instituído, cada país, encara cada uma destas comemorações. Qual é a leitura que fazem? Quais são as alternativas que apresentam para a resolução do problema? Quais são os símbolos que assumem para inquietar as consciências?
O nascimento do conceito de tolerância se deu no rescaldo das lutas religiosas; massacres recíprocos de protestantes e católicos, Edito de Nantes, e sua revogação, Noite de São Bartolomeu. Então os livre pensadores, adeptos do Iluminismo, viam-se discriminados e perseguidos por todos os fanatismos. E foram eles que, em nome da razão, mobilizaram a opinião pública contra os horrores da intolerância, proclamaram o direito sagrado de discordar, de guiar-se por suas consciências e por sua razão, e não pela religião oficial do Estado e da maioria (op. cit. Pag. 124).
Com tantas manifestações de intolerância; sendo a opção entre tolerância e intolerância (...) uma questão de vida ou morte; prendendo-se com o respeito à vida, à liberdade dos outros, aos direitos humanos, seria de esperar que os diversos países emitissem muitos selos alertando para essa "calamidade pública", a intolerância.
De facto, assim não aconteceu. Enquanto diversos outros anos internacionais mereceram selos de quase todos os países - muito especialmente o Ano Internacional da Criança, com 195 administrações postais, algumas delas até inventadas, emitindo-os - o Ano Internacional da Tolerância só teve emissão de dois selos do Mónaco. Apenas uma administração postal, não correspondendo a algum dos grandes países, teve em atenção a comemoração, respondeu ao desafio da ONU.

Um selo do Bangladesh muito belo que só a cores adquire significado pleno: sobre um ocre de fundo e da terra queimada pela bomba, duas borboletas de belas cores fortes simbolizam o renascer da vida, da beleza e, porque não, da esperança.

Aqui está a pouca atenção atribuída pelos poderes políticos e por cada um de nós à liberdade dos outros, ao respeito pelos outros, à cultura dos outros, às condições de vida dos outros. Aqui está um problema da humanidade - talvez hoje mais vivo que nunca na consciência de muitos -, que a filatelia reflecte.
O autor depois de citar uma longa lista de acontecimentos históricos relatados por Lise Noél, demonstrativos da intolerância, tais como, "caça às bruxas" na idade média, condenação à morte dos homossexuais até ao século XIX, linchamento de negros nos EUA, liquidação de 70 milhões de índios da América do Norte, massacre dos arménios pelos turcos, holocausto, perseguições promovidas por Stalim, as muitas guerras com destaque para as mundiais do passado século XX, o trabalho infantil e os maus tratos nas crianças e nas mulheres, etc., conclui:
Na verdade, a campanha da ONU não parece, infelizmente, ter produzido muitos resultados (ob. cit. 130).
Assim parece, mas é preciso continuar a olhar para nós e para os outros. É preciso conquistar a tolerância. A filatelia apenas poderá dar a sua pequena ajuda.

Obras citadas:
Lise NOÉL, L'intolérance - une problématique genérale, 1989, Canada, Boreal
Paulo MENESES, Universidade e Diversidade, 2001, Recife (Brasil), UNICAP


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2001/10
Mundo Português: Outubro 2001