Um herói português que os EUA ainda não homenageou

Carlos Pimenta


1. Esta é uma proposta de um selo a ser emitido pelos EUA que nunca se transformou em realidade. Foi concebida e sugerida por Steve Carol, filho de judeus que, fugidos das perseguições nazis, encontrou em solo americano a possibilidade de viver com plena dignidade.
A figura representada é a de Aristides de Sousa Mendes, nascido em 19 de Julho de 1885, no seio de uma família aristocrata beirã, licenciado em direito pela Universidade de Coimbra em 1910, diplomata de carreira.
Expliquemos um pouco o que significa um e outro.

2. Aristides era um homem de formação aristocrata, católica e respeitadora da ordem e da disciplina. A tradição familiar apontava-lhe a carreira jurídica, mas o seu gosto pelas viagens fê-lo optar pela diplomacia, começando como cônsul de 2ª classe na Guiana britânica, no mesmo ano em que se licenciou. Zanzibar, EUA, Espanha e Bélgica foram locais seguintes da sua carreira profissional.
Viviam-se anos de forte instabilidade política e social em Portugal (fim da monarquia e instauração da república) e no mundo (I Grande Guerra). Entretanto Aristides, casado em 1909 ansiava por uma estabilidade familiar, iniciando-se numa grande prole.
Tudo indica que foi com bons olhos que assistiu à instauração do Estado Novo, chefiado por Salazar: tinha um percurso familiar e pessoal similar ao daquele; numa entrevista a um jornal espanhol afirmava que "a Ditadura militar foi recebida com alegria"; seu irmão César foi Ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro governo dirigido por Salazar.
A generosidade e amor cristão ao próximo eram sentimentos que caldeavam a figura deste diplomata perfeitamente em sintonia com o Estado Novo.
É com este estatuto e leitura da vida que em 29 de Setembro de 1938 chega oficialmente a Bordéus para exercer as funções de Cônsul Geral de Portugal, onde viveria dias de um intenso dramatismo.

3. Em 1 de Setembro de 1939 iniciou-se a II Guerra Mundial, com a invasão da Polónia pela Alemanha.
Adivinhando os anos trágicos que a humanidade iria viver, Aristides fez regressar os filhos à sua terra natal e em Bordéus continuava a exercer as suas funções.
A neutralidade formal de Portugal não escondia a grande simpatia de Salazar por Hitler e Mussolini. Aquele chamou a si a pasta dos Negócios Estrangeiros, e é da sua pena que em 11 de Novembro de 1939 Aristides, como todo o corpo diplomático português na Europa, recebeu uma circular em que se afirmava categoricamente: "Não devem ser concedidos vistos a Checos, Russos e, em nenhuma circunstância, a Judeus".
Aristides resistiu a esta directriz. Primeiro pedindo autorização ao governo português para resolver casos pontuais, depois contrariando as respostas, ou o silêncio, às suas perguntas, finalmente com uma militância humanista que tudo punha em causa.
A invasão da toda a Europa pelas tropas nazis fazia chegar ao consulado português crescentes pedidos de vistos. Perseguidos ou fugidos de diversos países pretendiam aproveitar a "neutralidade" portuguesa e a localização geográfica de Lisboa para irem estabelecer residência em outras partes do mundo. Com a invasão de França "uma avalanche de refugiados iniciou a sua deslocação para o sul". A informação de que o consulado português concedia vistos levou a uma verdadeira "invasão" das suas instalações. Estas transformavam-se em dormitório. Nas ruas formavam-se longas filas de cidadãos ansiosos por obterem a assinatura de Aristides Sousa Mendes, porta da sobrevivência ao holocausto. O cônsul e sua esposa empenhavam-se vinte e quatro horas a atender aquela avalanche humana distribuindo assinaturas por todos que a solicitavam.
"De 16 a 18 de Junho, Sousa Mendes abriu as portas do consulado à multidão de refugiados que se aglomeravam na rua. Auxiliado por dois dos seus filhos, José e Pedro, Sousa Mendes emitiu mais de 30.000 "vistos de trânsito", incluindo cerca de 10.000 para judeus, sem receber qualquer pagamento".
Quando o confronto de Aristides com o governo português impediu-o de continuar a conceder vistos, com a polícia política portuguesa tudo fazendo para o neutralizar, aquele ainda aproveitou os seus conhecimentos nas fronteiras francesa e espanhola, para pôr a salvo um grupo de "condenados" pelo nazismo.

Selo circulado de Israel, emitido pelo "dia do holocausto". Aristides é a segunda figura a contar da esquerda.

4. "Que se terá passado para que este homem, então perto dos cinquenta e cinco anos, pai de catorze filhos, que nunca tinha manifestado qualquer oposição ao seu Governo, excepto quando este se tornou republicano. Este homem atormentado por grandes dificuldades financeiras e que tinha um único objectivo: terminar as suas funções em Bordéus para partir para um lugar mais prestigioso e mais longínquo; que se terá passado com este homem que fora ensinado a obedecer, para começar a desobedecer?"
Seja qual for a resposta dois factos são inquestionáveis. O seu comportamento heróico salvou muitas dezenas de milhares de vidas; afastado das suas funções e perseguido, morreria na mais completa miséria e sem lhe ser feita justiça.

5. É na dignificação de tão ilustre português, que apareceu a proposta de uma emissão conjunta de selos sobre a sua figura nos EUA (para onde se dirigiu grande parte dos possuidores de visto com a sua assinatura), Israel e Portugal.
O nosso país emitiu em Maio de 1995 um selo com a sua figura e assinatura e os dizeres "a sua assinatura salvou milhares". Israel em 1998 emitiu um selo com retratos de diplomatas "justos entre as nações", em que figura Aristides Sousa Mendes.
Os EUA continua sem lhe prestar homenagem.
Aristides merece-a.

Bibliografia (além dos catálogos):
Steve CAROL, "Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul de Portugal. Filatelia e História: um círculo fechado", Selos e Moedas, Setembro 1996, Ano, 30, nº 98, pag. 7-15
José-Alain FRALON, Aristides de Sousa Mendes - Um Herói Português, 1999, Lisboa, Editorial Presença, pp. 125


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2001/09
Mundo Português: Setembro 2001