Os selos, a cultura e nós

Carlos Pimenta

1. O selo nasceu em 1 de Maio de 1840. Vive até hoje comprovando que pagámos um montante que nos permite enviar uma carta pelo correio. Contudo quando olhamos para um selo a nossa primeira reacção é estética: considerá-lo bonito ou feio. Depois é um símbolo: transmite-nos uma mensagem sobre uma região, acontecimento ou personalidade. O selo é a expressão de uma história, de uma vivência, de usos e costumes, de esperanças de um País e dos seus cidadãos.
E ao cumprir a sua missão original relacionou os homens entre si, viajou por percursos previamente estabelecidos ou ditados pelo inesperado (guerras, epidemias, tempestades, naufrágios, etc.). Nas cartas que selou transportaram-se negócios e amores, notícias e preocupações, esperança e desespero.

selo Português: "Um dos selos do Porto capital europeia da cultura"

2. Para os coleccionadores de selos (e com este termo estamos a englobar muito mais do que ele próprio: postais, cartas, carimbos, blocos, etc.) o acto de juntar, observar, organizar, colocar num álbum, é uma via para pensar o Homem, aprender geografia e outras ciências, perceber as suas mensagens, contar histórias.
Também é uma forma de investir em bens com tendência para a valorização.
Para os que não são coleccionadores é um acto de cultura, o despertar de um sentimento, o estímulo às lembranças. É uma momento de paragem, por muito ténue que seja, com o labor quotidiano.

3. Porque encaramos assim os selos, porque somos coleccionadores, considerámos que poderia ter interesse mensalmente conversarmos sobre estes assuntos. Trazer uma leitura da vida diferente, secundária mas interessante.
Aceitamos o desafio sem ideias preconcebidas. Esta rubrica poderá ser o que os leitores desejarem. Todas as opiniões, sugestões e críticas serão tidas em conta e moldarão os temas e as formas de escrita.
Disponibilidade para o diálogo que tem, à partida, duas referências:
(A) Portugal tem peças filatélicas conceituadas internacional, seja porque já assumem elevadíssimos valores nos mercados seja porque são filatelicamente interessantes. Vejam-se os leilões filatélicos, muitos deles na Internet, e encontraremos muitos materiais portugueses interessantes. Falar dos selos portugueses é transmitir-vos um pouco deste prestígio.
(B) Mas é também uma ligação de muitos de vós às raízes, uma referência ou curiosidade para outros, um contacto com este cantinho europeu e suas ilhas atlânticas.

selo de Timor: "Selo de Timor Lorosae com carimbo Dili"

4. A propósito desta ligação às raízes, um pequeno episódio.
Em novembro de 1996, quando a Internet começava a surgir massivamente em Portugal, resolvi criar um site para falar da filatelia em Portugal. As reacções começaram a surgir. Um dia chegou um e-mail, noutro dia outro e, em crescendo, passava a comunicar com pessoas em todo o mundo: da Suécia à Austrália, dos EUA à Lituânia, do Brasil a Marrocos. A primeira palavra incentivadora, a primeira sugestão, vinha de um português. Concluía-o pelo nome, pois o e-mail não me permitia identificar a origem. Pedi-lhe para me enviar por correio uns materiais. Quando a carta chegou percebi que aquele amigo não estava do outro lado da rua, na mesma cidade ou país. Estava nos EUA. Aprendi depois que havia portugueses espalhados por todo o mundo, nos locais mais insuspeitados.
Aprendi também que A Filatelia em Portugal (http://www.caleida.pt/filatelia) era uma porta sempre aberta por onde entravam na procura de uma parte deles próprios.

5. Falar do que vai acontecendo filatelicamente por aqui, Portugal, é sempre uma possibilidade.
Por isso juntamos a imagem de um selo recentemente emitido para comemorar o "Porto capital europeia da cultura" durante 2001, conjuntamente com Roterdão, Holanda. Por isso acrescentamos uma parte de um sobrescrito do primeiro dia, de comemoração dos 25 anos da Constituição Portuguesa, em que se pode constatar um acontecimento pouco habitual: um erro de português no carimbo - por isso mesmo foi retirado de circulação, atiçando o apetite dos coleccionadores.
Referir acontecimentos filatélicos noutras zonas do mundo é outra possibilidade. Na globalização ninguém está isolado e nada do que acontece em alguma parte do mundo nos pode ser estranho. Por isso aqui reproduzimos uma parte de uma carta circulada entre Dili e o Porto onde se exibe um dos dois primeiros selos de Timor Lorosae, cuja independência tanto nos diz.

"Carimbo comemorativo 1º dia, com erro de português"

6. Há, contudo, outras possibilidades. Os EUA é um dos países onde a filatelia, tem maiores adeptos. Enquanto na Europa tem diminuido o número de coleccionadores, a Ásia e a Austrália tem assistido ao seu grande incremento e os EUA mantêm uma posição firme: muitos coleccionadores, muitos clubes filatélicos, muitos comerciantes, muitas publicações, muitas exposições e colecções galardoadas.
Está, pois, em aberto a possibilidade de falarmos mais especificamente de filatelia, nas suas diversas modalidades: tradicional, história postal, inteiros postais, temática, maximafilia, etc. Todas as modalidades que o nosso prazer, conhecimentos e imaginação criem e desejem.
E certamente há muitas outras possibilidades...

7. Para terminar uma informação, um pedido e uma sugestão.
Este artigo foi escrito por mim, mas outros poderão ser por outros filatelistas. No Clube Nacional de Filatelia (Portugal, Porto) há um grupo interessado neste contacto regular convosco. Esta é a informação.
Dêem-nos as vossas opiniões. É para conversar que aqui estamos. O nosso e-mail é pimenta@fep.up.pt. Este é o pedido.
Filatelistas ou simples curiosos por estes assuntos não deixem de visitar a página web referida onde encontrarão muito onde se entreterem. Esta é a sugestão.


A057/#204
2001/08
Mundo Português: Julho 2001