A Agonia da Galinha dos Ovos de Ouro
Amigus Philatelicus
O selo foi criado para servir de recibo junto da instituição que transporta a correspondência. A colagem de um selo (que custou um determinado preço, de alguma forma nele expresso) numa carta, é a forma de provar junto dos correios que o preço do transporte daquela já foi pago, pelo que deverá proceder à respectiva entrega.
Os coleccionadores de selos desejam que o objecto das suas colecções continuem a desempenhar essas funções, continuem a servir para a correspondência. Só dessa forma os selos se distinguem de quaisquer cromos (de jogadores, de desenhos animados, de história, etc.) emitidos por qualquer empresa.
E certamente não será o estatuto da entidade emissora que lhe confere diferente qualidade, pois há administrações postais que na sua actuação pouco se diferenciam dessas referidas empresas (veja-se a quantidade de administrações postais que não têm razão de existir porque não correspondem a um país ou a uma sua estrutura autónoma; veja-se que muitas administrações postais entregaram a emissão dos seus selos a tipografias especializadas; veja-se que muitos selos emitidos nunca entrarão numa carta; veja-se a lógica de lucratividade que avassaladoramente abafa qualquer outra preocupação; veja-se uma infinidade de outras coisas).
Desde há muitos anos que muitas vozes avisadas têm alertado para este problema.
Trata-se de um problema universal, ou quase, mas para ilustrar as nossas preocupações ocupemo-nos dos selos emitidos em Portugal.
* Justifica-se que em Portugal se emitam por ano tantos selos diferentes, muitos deles com valores pouco utilizáveis?
* É admissível que haja três administrações postais (Portugal, Açores e Madeira) quando qualquer selo pode ser utilizado em qualquer parte do território e o estatuto autónomo dos Açores e Madeira não exigiria tal comportamento?
* Não é um absurdo a quantidade de carteiras e blocos emitidos por ano, quando estes quase nunca são utilizados na correspondência?
* Já averiguaram se todos os selos chegam a todos os balcões dos correios?
* Como se entende que se emitam tantos selos e ao mesmo tempo tudo de faça para dificultar a sua utilização na correspondência (basta verificar a quantidade de procedimentos aborrecidos e demorados que o funcionário dos correios deve praticar se tem o azar de o cliente pedir selos na correspondência)?
* Estranho facto da secção de filatelia dos Correios de Portugal saberem dos selos emitidos e desconhecerem totalmente dos inteiros postais (postais ilustrados, postais e cartas com o valor da franquia incluído) chegando a afirmar que estes não são filatélicos (embora o sejam talvez mais porque são utilizados na correspondência)?
Serão necessárias mais perguntar? Pensamos que não.
Há muito que lemos em diversas publicações filatélicas estes avisos. Há muito que ouvimos vozes avisadas colocarem estas questões. Há muito que assistimos a orelhas moucas de entidades responsáveis que contrapõem a estas objecções o balancete com as vendas da filatelia.
Por outras palavras, quando se afirma que tais comportamentos podem por em causa o futuro da filatelia – logo matar a sua própria galinha dos ovos de ouro – contra argumenta-se, obviamente sem se utilizar a terminologia que aqui expomos, que há ainda bastantes lorpas que continuam a comprar todas as novas emissões, seja por hábito, seja por desejo de ter todos os selos, seja ainda pela vã esperança de ter ali um valor capitalizados para o futuro (só se for a uma taxa negativa!).
Mas neste panorama das opiniões o que é particularmente interessante é um artigo de Albertino de Figueiredo publicado em suplemento da revista Flash (nº 82 de 2003), publicação da Federação Internacional de Filatelia.
Aí o autor afirma que há numerosas emissões indesejáveis e desnecessárias; que se emitem mais selos que o requerido pelas suas necessidades genuínas postais e filatélicas; que isso diminui a credibilidade da filatelia, põe em causa o seu futuro, justificando propostas de boicote perante esses comportamentos.
Depois de recordar os dados do Michel de que em 2000 emitiram-se 17000 selos e blocos diferentes, num valor aproximado de 9000 euros (para o que contribuíram administrações postais desprestigiadas – como Libéria ou Gâmbia – e prestigiada – como por exemplo, EUA, Irlanda, Holanda, etc.) afirma o caracter especulativo e oportunista destes selos desnecessários é confirmado pelo simples olhar para os temas de cada emissão, visto que a maioria deles nada têm a ver com as características nacionais, com a história, a cultura ou as personalidades nacionais famosas.
Estamos totalmente de acordo com muitas destas afirmações, mas temos que interpretar o significado destas afirmações quando partem do Presidente do Grupo Afinsa, provavelmente o grupo mais importante a nível mundial na comercialização de selos, nomeadamente de novas emissões. Não estamos perante uma postura ética – esta é um epifenómeno – mas perante uma reflexão económica. Em primeiro lugar, como se afirma no próprio artigo, esta situação eleva em muito o valor dos stokes, encarece os catálogos, logo dificulta a rotatividade do capital. Simultaneamente, um tal discurso poderá ser uma acção de marketing para reforçar a vertente da produção de selos de diversas administrações postais, negócio em que a Afinsa está empenhada.
O interessante neste artigo é que não são apenas os lunáticos filatelistas a alertarem para o problema, mas também os realistas homens de negócios. A elasticidade procura-preço de selos é tal que aumentos de emissão já não conduzem a aumento de lucratividade. A galinha dos ovos de ouro está moribunda e para a curar não bastam tecnocratas.
Os bons profetas fazem falta!
Editorial 056 - 2003/03/12