A Estupidez e a Filatelia

Carlos Pimenta

1. Carlo M. Cipolla é um eminente intelectual recentemente desaparecido. Foi professor emérito da Universidade da Califórnia, com uma vastíssima obra publicada, sobretudo de Economia e História Económica, não deixando de abordar outras temáticas. Vivendo os últimos anos da sua vida em Itália, aí granjeou reconhecimento e a estima de quantos com ele conviveu, todos reconhecendo-o como um grande humanista. Também não lhe faltava o gosto pelo coleccionismo, embora nunca tivesse rendido homenagem à filatelia: moedas antigas, relógios antigos, pinturas italianas do século XVIII e instrumentos cirúrgicos romanos.
Não tendo sido filatelista, porque englobá-lo num texto que àquela se deveria referir? Fundamentalmente porque escreveu uma obra intitulada The Basic Laws of Stupidity (As Leis Básicas da Estupidez) dando início ao que alguns - como é o caso de Alberto Unbalordo, professor de Sociologia nas Universidades de Blödsinn na Alemanha e de Palerma na Itália - consideram ser a primeira apresentação “de uma forma rigorosa” dos “princípios que caracterizam de um ponto de vista científico o comportamento dos estúpidos.” Um estudo que iniciou o que alguns consideram uma nova ciência: estupidologia. Hoje não se trata de uma mera abordagem teórica, pois um projecto financiado pela União Europeia revelou as potencialidades para a compreensão da realidade social.
Parte de um princípio de análise muito simples. Os comportamentos humanos, e os seus agentes, são classificáveis de acordo com as vantagens (positivas ou negativas) que trazem para o próprio (X) e para os outros (Y). Se o indivíduo X tem vantagens e os outros (Y) também o têm então ele pertence ao grupo dos inteligentes. Se X tem vantagens mas os outros têm desvantagens pertence ao grupo dos bandidos. Se o indivíduo tem desvantagens (vantagens negativas) enquanto os outros retiram vantagens da sua acção, pertence ao grupo dos crédulos. Finalmente se o indivíduo X tem desvantagens e os outros, Y, também o têm pertence ao grupo dos estúpidos.
2. Como facilmente se percebe os indivíduos mais perigosos para sociedade são os estúpidos. Com a sua acção ninguém retira vantagens: nem o próprio nem os outros.
As leis deduzíveis do anteriormente afirmado e de algumas observações empíricas são óbvias. Transcrevemos a sua reprodução por Unbalordo:
“1 ª Lei - Cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação.
2 ª Lei - A probabilidade de uma certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa.
3 ª Lei - Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou grupos de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo.
4 ª lei - As pessoas não estúpidas subestimam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem-se constantemente que em qualquer momento, lugar e situação, tratar e/ou associar-se com indivíduos estúpidos revela- se infalivelmente um erro que se paga muito caro.
5 ª Lei - A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe.
Corolário - O estúpido é mais perigoso que o bandido.”
3. Entremos então na filatelia.
Se um indivíduo aprofunda os seus conhecimentos sobre uma determinada matéria da história postal, ou outra, e divulga num artigo as conclusões a que chegou estamos perante um comportamento inteligente.
Se a actividade associativa de um filatelista é de tal modo intensa que colide com outras opções da sua vida, certamente mais fundamentais, mas em resultado desse labor cria um ambiente favorável ao crescimento do clube estamos perante um comportamento crédulo.
Se as ambições pessoais de um filatelista, seja para obter medalhas em competições ou quaisquer cargos, são de tal monta que afasta do seu caminho, e provavelmente da filatelia, todos os que podem dificultar os seus desejos, estamos perante um comportamento bandido.
Se um dirigente filatélico não raciocina adequadamente sobre as situações e os seus ódios e cegueiras o conduzem para um sistemático afastamento dos outros conduzido ao próprio enfraquecimento da instituição de que pretende ser líder, estamos face a um comportamento estúpido.
Na actual fase da filatelia (des)organizada quais os tipos de comportamento predominantes? Se são os inteligentes, temos futuro. Se são os estúpidos comecemos a abrir uma vala comum.
Sugiro que cada um de nós leia a referida obra de Cipolla e tiremos as devidas conclusões.
Por mim, está sobre a minha secretária, lida e anotada!


Editorial 052 - 2002/03/31
Editorial de A Filatelia Portuguesa nº 104