Humanismo Filatélico

Carlos Pimenta

Grande parte dos coleccionadores de selos têm como objectivo fundamental conseguirem todas as casas do álbum preenchidas.
Assim como se constrói uma casa colocando todos os tijolos no seu devido lugar também se ergue a colecção colocando todos os selos na sua devida posição.
O seu possuidor sente o orgulho de ter o álbum mais ou menos preenchido, ao mesmo tempo que considera ter ali armazenado um determinado valor.
Provavelmente a comparação com a construção de uma casa não é a mais adequada porque aquela teve um projecto previamente estabelecido enquanto o coleccionador utiliza um álbum que foi construído por outro, onde certas peças foram sobrevalorizadas e outras esquecidas.
Provavelmente o álbum terá apenas lugar para colocar selos, e nem todos, e pouco ou nada se ocupará dos inteiros postais, dos carimbos, das franquias mecânicas, dos postais máximos e tantas outras peças filatélicas.
Provavelmente havendo a preocupação primordial de colocar os selos no local previamente reservado haverá pouca atenção às razões que determinaram a emissão daquele selo, às funções que ele desempenhou, por onde passou, haverá pouca atenção à imagem nele representado, à correspondência com o que pretende representar.
É possível que também haja uma preferência pelos selos novos, o que sem dúvida tem diversas vantagens, mas que ignora a riqueza histórica dos carimbos, marcas de uma história percorrida pelo selo, pela carta a que permitiu a circulação.
Uma “colecção de álbum” muito provavelmente não é das que exige um estudo dos selos e de um qualquer tema, mas tem uma enorme qualidade: dá prazer a quem a faz.

Muitos outros coleccionadores juntam selos, carimbos, inteiros postais, etiquetas, franquias mecânicas ou outras peças filatélicas segundo outros critérios: colecção das cartas (antes e depois da existência de selos) que tiveram como destino a terra em se nasceu; selos com carimbos de todos os dias após o nascimento do primeiro filho, independentemente do país de origem; cartas com carimbos de primeiro dia efectivamente circuladas, utilizando eventualmente sobrescritos onde o gosto artístico lançou imagens desenhadas pelo próprio, de alguma forma relacionadas com a emissão; franquias mecânicas vermelhas; cartas com o porte pago em que os dizeres ou as imagens nelas contidas são diferentes do habitual; cartas com grande quantidades de selos de baixo valor; selos com aves que nos agradam particularmente; etc.
Em relação a cada uma destas colecções poder-se-ão tecer considerações sobre as suas qualidades ou defeitos, sobre as suas vantagens ou desvantagens, mas tal como no caso anterior estamos perante uma actividade que dá prazer a quem a pratica.

Em todos os casos anteriores estamos perante colecções que fogem às regras da competição. Não há regulamentos que as contemplem nem exposição competitiva em que sejam aceites.
Para se pretender expor a colecção é necessário entrar numa das categorias consideradas, bem ao mal não vem ao caso, pela Federação Internacional de Filatelia: tradicional, história postal, inteiros postais, aerofilatelia, astrofilatelia, temática, fiscal, maximafilia.
Não sendo nosso propósito fazer a descrição ou a apreciação crítica de cada uma delas, tomemos como referência uma colecção de postais-máximos, uma colecção temática e uma colecção de história postal.

Sabemos o que é um postal-máximo: uma combinação de selo, postal ilustrado e carimbo em que há entre os três elementos, com hegemonia hierárquica do selo, uma concordância de tempo e espaço.
As sua origens históricas são conhecidas: durante vários anos os selos que permitiam a circulação dos postais ilustrados podiam ser colados do lado ilustrado do postal.
Hoje assim não acontece, mas o recurso a essa tradição e um conjunto de regras definidas internacionalmente pela FIP permite que se continuem a criar peças filatélicas utilizáveis nas colecções, postais-máximos, embora não sejam nunca, ou quase nunca, objecto de circulação.
Alguns filatelistas contestam o interesse desta forma de coleccionismo porque os selos não serviram efectivamente para fazer circular a correspondência e os carimbos são “de favor”, isto é, colocados por gentileza dos correios, fora da circulação da correspondência.
É verdade que alguns destes aspectos são verdade – curiosamente aproximando o postal-máximo de uma outra peça de colecção fortemente desvalorizada nos regulamentos, o envelope de primeiro dia.
Contudo também o é que a criação de postais-máximos exige uma posição activa por parte do coleccionador, um conhecimento do conteúdo das emissões filatélicas, da existência de postais ilustrados combináveis, para o que é aconselhável alguns conhecimentos de cartofilia, de marcas postais compatíveis.
Os postais-máximos são belas peças, de forte visibilidade e colorido, bastante pedagógicas e com uma capacidade de atracção sobre coleccionadores e não-coleccionadores que podem ser vantajosamente utilizados na divulgação da modalidade.

As colecções temáticas conheceram nas últimas décadas um grande desenvolvimento, seja pelo interesse que despertam entre muitos coleccionadores seja porque torna viável ter-se uma boa colecção sem o dispêndio de grandes verbas, o que aliás também acontece com os postais-máximos.
Sabemos do que se trata. Interessando-nos por qualquer assunto é possível arquitectar uma sua sequência, constituindo um esquema, e proceder à “escrita” da matéria utilizando peças filatélicas para o ilustrar.
Certamente que não basta saber muito da «Revolução Francesa» para fazer uma temática sobre o assunto, o mesmo se podendo dizer dos «Primeiros Jogos Olímpicos da Época Moderna», da «Vida do Infante D. Henrique» ou dos «Cuidados de Saúde».
É preciso saber-se se existem selos, inteiros postais, franquias ou outros materiais que possam ilustrar esses conhecimentos, e no caso afirmativo quais são ou, havendo diversas possibilidades de utilização, quais são os mais adequados, os mais válidos, ou raros, filatelicamente.
O esquema da colecção é sempre o resultado de conhecimentos sobre o assunto tratado e sobre as peças filatélicas existentes. Em alguns casos extremos até se poderá admitir que o conhecimento das peças filatélicas é prévio à estruturação do esquema, como por exemplo, se pretendermos analisar como é que as diversas administrações postais tratam ideológica e simbolicamente um determinado evento comemorado mundialmente.
Argumentam alguns que o objecto de estudo da filatelia temática não são as peças filatélicas em si, que os selos são utilizados para ilustrar a narrativa, uma quase variante da banda desenhada.
Se em alguns casos esta afirmação pode ser parcialmente verdadeira também o é que muitos coleccionadores têm optado por esta forma de coleccionismo, que ela permite um aprofundamento dos conhecimentos científicos e filatélicos de quem a pratica, que é profundamente pedagógica na divulgação da cultura como um todo, tem grande beleza e cativa a atenção.

Para concentrar a totalidade da atenção sobre a peça filatélica em si temos a história postal. Estuda-se o que significam os selos, o que significam as cartas ou os inteiros postais circulados, dando-se particular atenção às marcas postais, sinais ainda visível dos percursos realizados pela peça filatélica, das relações entre os homens que permitiu estabelecer.
E porque a sua compreensão é indissociável do contexto social em que essa circulação se realizou, não é possível fazer a história postal sem um conhecimento suficientemente abrangente de como a correspondência era expedida, transportada e recebida, como se vivia naquela fase da evolução da humanidade, quais os acontecimentos mais marcantes na época histórica que se está a estudar.
Lamentam alguns que a história postal é frequentemente uma forma de coleccionismo caro, para além de exigir conhecimentos a quem a queira praticar que podem não estar no centro dos seus interesses culturais ou exigir uma disponibilidade que não se tem.
Mas também é verdade que as colecções de história postal podem ser um importante contributo para o estudo histórico de uma determinada região ou época e podem ter, embora quiçá não acessível aos menos relacionados com a filatelia, uma grande beleza.

Infelizmente assiste-se por vezes a uma certa tendência de uns coleccionadores adeptos de uma determinada modalidade menosprezarem as restantes, dizerem mal delas ou considerá-las inadequadas.
Pensamos que essa atitude é profundamente errada.
Assim como defendemos que a filatelia tem um espaço a ocupar na multiplicidade de formas de manifestação da cultura e pretendemos o reconhecimento pelos outros da diferença, também nós próprios, filatelistas, temos não só que aceitar como também defender a pluralidade de manifestações filatélicas.
Com efeito o centro da filatelia não são os selos e as restantes peças, mas o coleccionador, o homem.
Em todos os casos os selos são meros instrumentos do desenvolvimento integral do indivíduo.
Todas as formas de utilização dos selos são legítimas desde que permitam o desenvolvimento e o equilíbrio intelectual e afectivo de quem o pratica, desde que sejam uma fonte de prazer e cultura.
O Homem é o centro de todas as dinâmicas sociais. Também o é da, e na, filatelia.

Procuramos que A Filatelia em Portugal corresponda a este tipo de preocupação, mostrando a multiplicidade de valências da filatelia, respondendo tanto às solicitações dos que dão os primeiros passos no coleccionismo como às dos estudiosos que procuram obter novas informações.



Editorial 051 - 2002/02/20