Há futuro?
1. Em 11 de Novembro de 1996 nasceu este espaço cibernético da filatelia. A gestação tinha demorado alguns poucos meses: compreensão do mundo da Internet, aprendizagem das linguagens de programação aplicáveis à situação, breve exploração do que existia em Portugal, observação de algumas páginas filatélicas então existentes, pedido a um especialista que fizesse a concepção e organização da página, contacto com entidades.
Apesar dos longos anos de coleccionador – estando há muito entranhado na nossa personalidade o gosto pela beleza dos selos, o prazer da descoberta através deles, a tranquilidade psíquica que a filatelia nos transmite –, o facto de colocarmos disponível ao público uma página web exigia novas aprendizagens. Não bastava sabermos das nossas colecções tradicionais ou temáticas, necessitávamos ter uma visão mais ampla. Não bastava conhecer-nos a nós próprios e ter relações com uns tantos correspondentes, pois interpenetrávamos inevitavelmente com a chamada filatelia organizada.
Estas histórias são conhecidas, mas interessa recordar. Estava lançado o primeiro dia de uma parte do resto da nossa vida.
2. Cada momento da nossa existência é único e a irreversibilidade é uma constante da vida. Faz pouco sentido perguntarmos a nós próprios se voltaríamos a fazer o mesmo se tivéssemos a oportunidade de voltar atrás. Apenas tem o valor de promover uma leitura crítica do caminho percorrido, um balanço que possa orientar o futuro.
Se voltássemos atrás criaríamos esta página web?
Erich Maria Remarque afirmava: O meu pai, um excelente homem dizia-me: «Nunca percas a tua ignorância, pois jamais poderias arranjar outra». Infelizmente foi um pouco o que nos aconteceu.
Acreditámos que a filatelia era um espaço de amizade e encontrámos os mais acesos ódios. Acreditámos que a filatelia era um entretenimento complementar da vida e encontrámos a mais violenta competitividade. Acreditámos que na filatelia não havia diferenças partidárias, étnicas ou religiosas e encontrámos na própria sociedade filatélica as elites e as massas, os que se põem em bicos de pés para narcisistamente se verem ao espelho e os anónimos esquecidos. Como era agradável a nossa ignorância e como ela foi irremediavelmente perdida.
E foi perdida desde a primeira hora. Quando contactámos com os clubes filatélicos na procura de diálogo e colaboração obtivemos generalizadamente o silêncio, tirando algumas honrosas excepções. Quando pretendemos ajudar na área de entretenimento da exposição Portugal 98 foi-nos dito que só iríamos lançar a confusão. Quando pretendemos mostrar que em Portugal havia uma das páginas filatélicas mais interessantes, e premiada, mundialmente fomos impedidos pelos próprios portugueses. Quando nos oferecemos para ajudar a lançar novas páginas web fomos insultados.
3. Depois recebemos palavras de apoio de filatelistas espalhados pelo mundo, tivemos a oportunidade de ajudar muitos jovens a dar os primeiros passos no coleccionismo, dialogamos com muitos que encontraram em nós uma palavra de amizade, trocámos colaboração com diversas publicações, tradicionais ou electrónicas.
Tudo isto foi muito bom, mas ao longo destes anos todos não apareceram pessoas dispostas a colaborar de uma forma regular, não apareceram quaisquer apoios, particulares ou institucionais, que nos permitissem rasgar novos horizontes. Recebemos muitos anúncios, recebemos os endereços de muitos interessados em serem informados, foram-nos transmitidas muitas mensagens dos que querem receber (dados, informação, resolução dos seus problemas) mas muito poucas do que estão dispostos a dar.
4. Se voltássemos atrás criaríamos esta página web?
É uma pergunta um pouco despropositada. Gerou-se uma empatia com cidadãos anónimos deste mundo em que vivemos. Criaram-se compromissos com o leitor, que muito nos honra, e com diversas entidades que têm, implícita ou explicitamente, colaborado connosco.
Não podemos ser iludidos pelas aparências da conjuntura. Tudo vale a pena se a alma não é pequena e o sonho mudará a vida. Nós acreditamos, e por isso lutamos, que o futuro será melhor.
5. É nesse ziguezaguear entre a confiança no futuro e o desencanto do presente que continuaremos a manter, aumentar e melhorar A Filatelia em Portugal.
O desenvolvimento técnico e estético das páginas web, a rapidez das comunicações, os hábitos entretanto adquiridos exigem-nos que reformulemos a organização (estruturada sobre bases de dados) e a apresentação da página (outra imagem e funcionamento por menus), num compromisso entre a tradição e a modernidade.
Compromissos profissionais exigem que se consigam com o mesmo tempo dedicado à actualização e melhoramento da página muito maiores níveis de produtividade. A ausência total de qualquer estrutura de apoio (que passaria por uma secretária em part-time afecta ao projecto) dificulta muitas vezes a manutenção quotidiana.
Estamos nesse processo de modificação, mas a ritmos inferiores ao que desejávamos. Procuraremos manter sempre, dentro do possível, em linha a informação nova que nos chega (emissões, publicações nacionais e estrangeiras, anúncios, filatelistas, carimbos, etc.). Vários sectores de A Filatelia em Portugal são actualizados diariamente, com muito mais frequência do que se anuncia na página de abertura. Contudo outros sectores poderão sofrer alguns atrasos.
Para modificar a página ao mesmo tempo que se mantém viva e actuante, certas rubricas da página terão durante algum tempo uma aparência híbrida.
Para estes factos pedimos a vossa compreensão.
6. A Filatelia em Portugal continua também a ser vossa, embora poucos façam uso desta oferta.
Editorial 049 - 2001/10