Filatelia, Internet e Insularidade
Carlos Pimenta
Existem diversos entendimentos do que é a filatelia. Essa diversidade de leituras não resulta da ambiguidade do significado da palavra ou de divergências intelectuais entre os seus cultores mas apenas da grande vastidão de actividades que envolve, da multiplicidade de interesses que pode nortear os que a praticam, dos desenvolvimentos históricos que tem sofrido.
Em todas as situações estamos perante um acto cultural que relaciona os homens à margens dos credos, etnias ou outras discriminações sociais, embora as barreiras económicas continuem, espontânea e subrepticiamente, a actuar.
Atrevemo-nos a transcrever o que sobre o assunto afirmávamos em documento de circulação restrita:
- Antes de mais a filatelia é lazer. Uma forma de satisfação pessoal, umas vezes exercida de forma individual e isoladamente, outras em colaboração com outros coleccionadores espalhados pelo mundo, fornecendo há muito, muito antes das actuais tecnologias informáticas e de comunicação, a consciência de pertencermos a uma sociedade mundial. É neste espírito de satisfação consigo próprio e de colaboração com os outros que alguns consideram que filatelia
- "Es un puente de amistad que une a las naciones para que transiten sin barreras de índole alguna, los filatelistas de todas las razas y credos, con el fin de hermanarse bajo un mismo lema: filatelia para la paz."
É sem dúvida uma expressão excessivamente idealista no contexto das turbulências do mundo contemporâneo, mas não deixa de explicitar votos e intenções que só podem ser de louvar.
A diversidade de peças filatélicas - selos, blocos, carteiras, inteiros postais, cartas circuladas, carimbos, postais-máximos, selos fiscais, etc. -, a grande quantidade de emissões existentes em todo o mundo - cerca de catorze mil selos e blocos emitidos anualmente pelas Administrações Postais - as épocas, regiões e temáticas que podem ser consideradas e os gostos de cada um tornam as possibilidades de lazer quase infinitas.
É um lazer que desenvolve capacidades de organização e que, sobretudo, desperta a atenção para o mundo que nos rodeia e a que pertencemos. O facto de se encontrar nas peças filatélicas referências a países, épocas, assuntos e temas que não fazem parte da nossa experiência quotidiana aguça a curiosidade e aumenta a nossa sensibilidade para os aspectos menos visíveis da nossa experiência. Obviamente que o coleccionismo não será por si suficiente para despertar esta dimensão poética da vida, provavelmente há uma relação circular de causa e efeito, mas não deixa de ser um elemento a contribuir para esta maior abertura às informações que lhe chegam. Estas virtualidades são particularmente interessantes se a capacidade de interrogar que a filatelia comporta começar a ser exercida numa fase de formação da personalidade.
A imensidade de emissões de peças filatélicas que todos os dias se realizam inviabiliza que se coleccione tudo. É necessário fazer escolhas, optar por países, temas, assuntos, tipos de peças, época histórica, etc. Opção que se faz, mesmo que seja por tentativa e erro, com uma visão prospectiva, com uma ideia do que se pretendes coleccionar e como. Depois há que pacientemente procurar os melhores selos, estudá-los, organizá-los de acordo com uma certa sequência. Esta obedecerá a determinadas regras que estão estabelecidas pelas estruturas associativas ou que tão somente resultam do seu gosto e racionalidade. E como tem sido referido por diversos estudiosos, organizar uma colecção permite utilizar e ampliar conhecimentos científicos e utilizar metodologias que em muito se assemelham aos cuidados que têm de ser postos em prática quando se pretende fazer um trabalho de investigação ou tão somente elaborar um relatório sobre qualquer assunto. Só que o quadro de lazer em que essa organização e metodologia se desenvolve permite uma mais rápida assimilação, uma aprendizagem despreocupada.
A filatelia também é ciência, no mais estrito significado do termo. Assumir a peça filatélica como objecto de estudo - como é que as cartas circulavam na época tal nesta e naquela região? Porque surge este carimbo ou anotação no sobrescrito? Como se explica que este selo de correio tenha sido utilizado como moeda ou como selo fiscal? Qual a relação entre as bóias de correio nos Açores e a presença de submarinos alemães na região? Como era a correspondência entre Portugal e o Brasil antes da independência deste? Porque razão é que este selo foi impresso em papel deste tipo quando o habitual na época era usar o daquele tipo?
- é fazer história, é ajudar a compreender o nosso passado. Aliás a História Postal é hoje um dos ramos da filatelia mais difundidos.
A filatelia é ainda um excelente pretexto para incursões culturais mais diversas. Olhar para selos com pinturas é um excelente estímulo para conhecer a vida e obra do pintor ou um pouco de história da arte, assim como imagens de parques naturais permitirá uma incursão na paisagem e na ecologia ou selos de países que nunca existiram permitem aprofundar a história e geografia de certas regiões e épocas, a sua situação política. Ilustrar um poema com peças filatélicas, interligar a filatelia com a cartofilia e associar-lhes as recordações pessoais, acompanhar uma exposição temporária num museu militar com a apresentação de uma colecção sobre as Guerras, combinar liberdade com a temática filatélica do 25 de Abril, mostrar a evolução da escrita desde o homem primitivo até à utilização do computador através dos selos, são algumas das associações possíveis entre a filatelia e muitas outras actividades culturais.
Os jogos de computador utilizando peças filatélicas, a banda desenhada de aventuras utilizando acontecimentos filatélicos históricos, a viagem no tempo-espaço na Internet ou em CD-ROM utilizando o selo como veículo, as milhares de páginas web dedicadas à filatelia e que muitas vezes são hinos à criatividade e à combinação das mais diversas tecnologias são outros tantos exemplos que a história recente nos trouxe.
Sendo tão variada a utilização das peças filatélicas, possuindo estas tantos enigmas, envolvendo técnicas científicas e contribuindo para o avanço dos conhecimentos, possuindo tantas dimensões lúdicas e pedagógicas, existe um extenso campo de divulgação de conhecimentos, de troca de ideias, de formação. A literatura filatélica e a formação são dimensões automáticas da actividade filatélica
A UNESCO tem propiciado a existência de diversos anos internacionais dedicados a certas temáticas - de que a última foi o Ano Internacional dos Oceanos - e tem estimulado o aparecimento de emissões filatélicas como forma de divulgação de certos objectivos. A importância que atribui à filatelia na divulgação de símbolos espelha-se na utilização de peças filatélicas - sobretudo postais-máximos - na sua página na Internet relacionada com a protecção do património histórico. O mesmo se poderá dizer de outras instituições da ONU que têm tido iniciativas semelhantes. As peças filatélicas são mensageiras de pensamentos e sentimentos, de símbolos. Os países do Leste Europeu bem cedo o descobriram e utilizaram muito essa dimensão política. Portugal também soube, por exemplo, numa colaboração entre os CTT e o Ministério da Educação fazer uma emissão especial pela libertação do povo do Timor. As peças filatélicas são mensagens políticas, culturais e simbólicas.
Poderíamos ainda falar das suas dimensões económica, organizativa ou outra mas não parecem os mais interessantes no enquadramento ligeiro que aqui se pretende fazer. O que interessa salientar é o facto dos os selos - forma simplista de designar uma grande variedade de peças designáveis de filatélicas, a que já fizemos referência - e todas as actividades relacionadas com eles serem, por excelência, manifestações culturais.
Manifestações culturais eventualmente excessivamente esquecidas nas duas últimas décadas em resultado da competitividade existente em todas as esferas da actividade social, do aparecimento de outras alternativas de lazer e da redução da utilização do tradicional selo no franquiamento da correspondência.
Não existem estatísticas seguras sobre o coleccionismo mas algumas evidências parecem apontar para a existência de uma correlação positiva entre os níveis de desenvolvimento económico-social e a importância da filatelia. Alemanha, França e os Países Nórdicos, Canada e EUA são alguns dos bastiões avançados do coleccionismo. É certo que provavelmente é na China que existem mais coleccionadores e que nos países do Leste Europeu, incluindo a Rússia, o seu número é muito grande, mas tais factos, associados a outras dinâmicas sociais, não invalida a correlação que indiciamos.
Em todas estas interpretações da filatelia a Internet pode desempenhar uma importante função porque permite uma rápida e muito barata comunicação entre os homens (entre filatelistas, entre estes e potenciais interessados, entre comerciantes e compradores, entre administrações postais e o público em geral), porque a aplicação de recursos multimédia torna as "viagens" extremamente interessantes e aprazíveis, porque a diversidade de informação permite encontrar nas redes informáticas internacionais quase todas as informações que nos interessa.
Se pretendemos que a filatelia se encontre com os jovens, o que apenas não acontece pela diversidade de ocupações hoje existentes e pelo "afastamento" do selo da correspondência, não o podemos fazer apenas através de clubes tradicionais, através de encontros fortuitos em alguma esquina de rua. Terá que ser feito nos bancos da escola (utilizada ludicamente embora subrepticiamente transmissora de conhecimentos) e nos visores dos computadores. Num e noutro caso a Internet é a rota de encontro.
Permitam-me acrescentar que a Internet está a dar novas formas à democracia, de que também é preciso fazer a aprendizagem: qualquer indivíduo pode rápida e directamente dirigir-se aos dirigentes, qualquer interesse minoritário pode facilmente manifestar ao mundo as suas opiniões, a troca de ideias circula facilmente, mesmo as tradicionais manifestações reivindicativas (reuniões, abaixo-assinados, manifestações, greves, etc.) utilizam as redes informáticas. Seria errado tomar a forma pelo conteúdo e considerar-se que a sociedade da informação é uma ruptura decisiva com o passado, mas também seria errado não olhar para as novidades.
Quanto à evolução mundial da Internet pouco há a dizer de novo. O seu crescimento é estonteante. No dia em que vos escrevo (13/Dez/99) existem, segundo as estatísticas, 66.348.270 computadores centrais na rede, o que significa um aumento de mais de 50% em relação à mesma data do ano transacto. E com este crescimento avassalador mudam-se as práticas sociais, os usos, hábitos e costumes, transforma-se o mundo. Transforma-se para o bem (facilidade de comunicação, redução dos seus custos, maior interactividade na relação entre os cidadãos, facilidade de recolha e tratamento da informação, etc.) e para o mal (agravamento das desigualdades sociais - note-se que a África Subsahariana quase não existe nas estatísticas, com excepção da República da África do Sul - imposição das lógicas de vida americanas, enfraquecimento das culturas locais, redução da privacidade e da liberdade, facilitação de uma globalização contraditória, etc.).
Também na filatelia os impactos positivos e negativos da Internet se fazem sentir (em que o aspecto mais negativo é a progressiva substituição da correspondência escrita por estas formas de comunicação e a mais positiva a facilidade de comunicação que permite entre os homens e o contacto com os jovens) mas é inegável tratar-se de algo que não pode ser subestimado. E se tem aspectos positivos e negativos estejamos atentos e activos para potenciar os primeiros e enfraquecer os que podem ser mais gravosos.
Cabo Verde tem conhecido nos últimos tempos um significativo crescimento dos meios informáticos, a montagem de importantes infra-estruturas que permitem uma utilização plena da Internet, o aparecimento de diversas páginas web, muitas delas de boa qualidade. Se aliarmos essas estruturas com as válidas capacidades humanas existentes nestes domínios, é inequívoco que Cabo Verde tem uma posição privilegiada no contexto africano, embora muito haja que fazer. Muito mesmo.
Mas a Internet tem importância muito particular no caso deste país. Em primeiro porque a sua dispersão por diversas ilhas dificulta as vias tradicionais de comunicação. Em segundo lugar porque esta mesma dispersão e a sua história fazem com que haja dois fortes núcleos de concentração da intelectualidade e do saber (expressa em termos de cidades na Praia e no Mindelo) que podem, pela Internet, reduzir distância e reforçar um diálogo sempre profícuo. Em terceiro lugar porque a fortíssima emigração cabo-verdiana por todo o mundo (fazendo sentido falar de uma diáspora) fica mais relacionada, interligada, participativa, através da Internet.
No caso da filatelia pode aplicar-se grande parte das considerações anteriores, com um pequeno acréscimo, comum a todos os tempos e espaços. O filatelista tende a ser, pelas próprias razões que o levaram a esse coleccionismo, um apaixonado do recato e da tranquilidade, desejoso de usufruir na placidez da sua relação com os selos que ama o conforto do tempo parado, lúdico. A Internet permite-lhe manter essa pacatez intimista com a fácil e eficiente comunicação com o mundo. A peça filatélica virtual nunca poderá substituir o manuseamento cuidadoso com a pinça e a observação minuciosa com a lupa, mas também aqui o computador, e não tanto as redes entre eles, podem ser um instrumento auxiliar importante de observação, da catalogação, da feitura de álbuns, de redacção de cartas para outros filatelistas. Hoje a compra de uma peça filatélica que nos falta pode ser feita de imediato - com os devidos cuidados, obviamente - através do computador.
Atrevemo-nos nesta singela proposta de reflexão, deixar algumas sugestões de trabalho de "fusão" da filatelia e da Internet:
- Montagem de um museu cibernético dos correios de Cabo Verde
- Faz falta a existência de um museu aberto ao público com todas as peças filatélicas (não só os selos mas também os materiais utilizados nas diversa fases da sua preparação, não só os selos, blocos e carteiras mas também os carimbos e outros materiais) saídas após a independência.
Faz falta porque é história e cultura cabo-verdianas que não estão devidamente estudadas, organizadas, disponibilizadas. Faz falta porque os acidentes de percurso na elaboração das peças filatélicas ao longo dos anos (sejam autóctones, austríacos ou cubanos) faz com que o próprio país ainda não tenha convenientemente assimilado a sua história postal. Faz falta e é urgente porque são poucas as pessoas capazes de reconstruir esse museu. Faz ainda falta porque hoje Cabo Verde tem emissões de selos bonitos, ligados à realidade local e sem emissões especulativas que estão a afastar muitos da filatelia.
A montagem de um museu cibernético não dispensa o outro mas pode antecipá-lo como primeira proposta de organização, com muito menores custos (exige algum equipamento informático, um pessoal mínimo e sobretudo quem seja capaz de reconstituir a história; dispensa instalações, equipamentos e similares, assim como medidas de segurança). Em muitos países tem-se caminhado dos museus reais para os virtuais. Aqui pode fazer-se o percurso inverso.
- Criação do Clube Filatélico de Cabo Verde, funcionando sobre a Internet.
- Seria um clube como qualquer outro, englobando filatelistas, com iniciativas diversas (publicações, debates, conferências, mostras, etc.) utilizando preferencialmente a informática e as redes de computadores. Uma atenção muito especial deveria ser dada à procura de adesões de cabo-verdianos, vivendo no País e integrando a diáspora.
Elo de ligação entre filatelistas seria também cadeia de relacionamento entre cabo-verdianos, construída na diversidade de interesses que animam os homens.
- Divulgação das novas emissões na Internet
- Esta divulgação deve ser essencialmente da responsabilidade dos Correios de Cabo Verde. Divulgação das novas emissões e possibilidade da sua aquisição por computador.
Estamos certos que Cabo Verde tem técnicos informáticos capazes de organizar estas iniciativas. Sabemos que tem pessoas de grande competência para dirigir tais iniciativas. Admitimos que a experiência do Clube Nacional de Filatelia nestas matérias possa ser interessante.
Pela nossa parte estamos não só interessados, mas também empenhados, nessa colaboração.
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1999/09
Publicado originalmente no catálogo da mostra filatélica do CNF em Cabo Verde (5/1/2000)