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A Internet, a Cultura ... e a Filatelia

Carlos Pimenta

Basta recuarmos alguns poucos, muito poucos, anos para a palavra "Internet" surgir como um vocábulo estranho ao nosso entendimento, sonoramente estrangeirado, com uma dose de snobismo e certamente rodeado de grandes enigmas.

Hoje o termo foi descodificado: afinal não exprime mais que redes de computadores à escala planetária que são capazes de comunicar entre si graças à criação de certos protocolos de comunicação (dicionários das linguagens informáticas). Através de cabos, fibras ópticas, e satélites todos podemos participar nesse diálogo universal. Porque o negócio é rentável não faltam as empresas que, com condições bastante vantajosas, estão disponíveis para dar os últimos "nós" com quem tem um computador em casa ou no local de trabalho.

Hoje o termo faz parte do nosso quotidiano. Na escola há computadores com acesso à Internet, nas empresas e na administração pública cada vez mais se considera essas ligações como uma função complementar para os computadores existentes, em casa funciona como instrumento de trabalho e de lazer. E se corremos o risco de esquecer algumas das tarefas para "navegar" na Internet ou utilizarmos as comunicações mais tempo que o inicialmente previsto, também as compensações são grandes: aprendemos mais do que com um jogo, aumentamos a nossa cultura, comunicamos a grande velocidade com qualquer cidadão do planeta pelo preço de uma chamada local. Certamente que alguns mais renitentes agarrar-se-ão a alguns dos inconvenientes, como o da criança que engole todos os pasteis de nata e fica com dores de barriga, ou os mais receosos do progresso verão ventos apocalípticos saindo dos visores dos computadores e rodopiando sobre as nossas cabeças.

Contudo os ritmos de mudança mundial e nacional não enganam. O número de utilizadores cresce aceleradamente, particularmente nas regiões até hoje mais afastadas dessas dinâmicas. Em Portugal é na faixa etária dos 15 aos 25 anos que a vontade de ter acesso, de aprender e aceder à Internet é mais acelerado.

Muitas são as vias de utilização da Internet, podendo ir do simples envio de um ficheiro à comunicação em tempo real (isto é, com transmissões quase instantâneas) com texto, som e imagem. Mas são o correio electrónico (e-mail) e as apresentações multimédia (páginas web) as que têm tido maior adesão.

Com a redução da utilização dos selos na correspondência, com as mudanças de vivências e a penetração da imagem nos interstícios dos nossos tempos livres, o coleccionismo de selos tende a ter menos adeptos entre a população em geral e os jovens em particular, embora muitos e muitos continuem a fascinar-se com as imagens e mensagens dos selos e recortem para uma caixa de papelão os que recebem, ou tenham uma assinatura das novidades nos correios, meticulosamente guardados naquela gaveta do armário.

E no entanto a filatelia, designemos dessa forma simples todos os coleccionismos de selos ou peças similares, continua a ter beleza, encantamento, estímulo à aprendizagem, dimensão cultural.

Talvez muitos professores e muitos filatelistas desconheçam, mas as pontes entre a actividade escolar e as práticas filatélicas são mais frequentes e mais amplas do que poderá parecer:

É professor? É pai? Tem alguma coisa a ver com a educação no nosso País?

Sugiro-lhe que leia com atenção o regulamento para as exposições de filatelia temática.

Já leu? Então certamente notou que existe uma grande similitude entre os procedimentos adequados para a realização de um trabalho científico (definição do tema, elaboração de um plano, harmonia entre as diversas partes, pesquisa sobre o assunto, articulação, racionalidade e imaginação, etc.) e os que correspondem à escolha de uma temática e montagem da colecção.

Certamente reparou também que não se trata de uma pura coincidência.

Pedir a um estudante para fazer um trabalho científico e montar uma colecção de selos tem impactos pedagógicos semelhantes. Ambos moldam racionalidades, comportamentos, ânsias de saber, atitudes de rigor e prazer perante a vida.

Será possível pedir um tal trabalho científico, mesmo incipiente, a um jovem de tenra idade? Talvez não, mas o mesmo não se dirá da filatelia. O que será que o jovem fará com mais paixão? Um trabalho científico sobre um tema que o professor condiciona ou exige ou uma colecção de selos para apresentar na festa da escola? Provavelmente a filatelia terá efeitos mais pedagógicos.

Mas cuidado, que esta descoberta não os amarre (o jovem e a filatelia) ao dever! Deixemo-los navegar no lúdico, porque, como diz Bachelard, em L'Air et les Songes, "a imagem apreendida nos livros, vigiada e criticada pelos professores, bloqueia a imaginação".

(De Filatelia em Portugal, "Dicas Passadas")


O nosso modesto intuito é mostrar como a utilização da Internet, mais precisamente as páginas web, filatelicamente é, simultaneamente, um valioso processo de aprendizagem.


Olhar para os selos é interrogarmo-nos sobre a data em que foram emitidos, sobre o País donde provêm, sobre o que representam as imagens que reproduzem, sobre os motivos da escolha de tal assunto. De quando em vez é interrogarmo-nos porque diversos países resolveram destacar determinado acontecimento, é verificarmos se o que os selos representam e o que dizem representar estão em perfeita consonância.

Através da Internet pode viajar pelas emissões filatélicas de quase todo o mundo, identificar as administrações postais emissoras, conhecer a sua história, a sua geografia, os povos que as habitam, com seus usos e costumes.

Estudar os selos de Portugal é viajar pelos acontecimentos que fizeram a nossa história, conhecer músicos, pintores, cientistas e escritores. É visitar museus e planícies, casas e vinhas, janelas e quiosques, cidades e patrimónios imorredoiros. É viajar com Vasco da Gama, é sonhar com Amadeo de Souza-Cardoso, é sentir-se bem com Maluda, é cheirar as flores da Madeira, é percorrer castelos, é conhecer e conhecermo-nos. E em cada interrogação, em cada dúvida aí está o computador para permitir-lhe percorrer as páginas web sobre os assuntos, viajar por e nos concelhos, ver mapas e histórias.

Estudar as cartas circuladas ou os carimbos é estar atento ao que vai acontecendo no mundo, é conhecer a história dos correios e através dela a vida quotidiana de todos nós.


Não será que tudo isto é possível sem a Internet?

Obviamente que sim, por isso o coleccionismo de selos remonta há mais de um século quando os computadores só poderiam pertencer à ficção de Júlio Verne. Mas a Internet



Os selos, os carimbos, os inteiros postais, as cartas circuladas, os postais-máximos, as provas, os erros e muitas outras peças filatélicas, mais precisamente as suas imagens, podem ser uma excelente combinação com o trabalho de História que tem de realizar, com a compreensão da Geografia que tem de alcançar, com os conhecimentos de Física que tem que obter. Imagine que até de Matemática existem selos e há um grupo internacional de estudo sobre eles, também eles disponíveis na Internet.

Que tal visitar os "Correios" da África do Sul, Aruba, Austrália, Brasil, EUA, Finlândia, França, Groelândia, Israel, Japão, Liechtenstein, Macedónia, Nova Zelândia, ONU, Portugal, Suécia, Uruguai, Vanuatu e mais umas outras dezenas? Por que não através dos seus dedos percorrer as salas do Museu do Selo Sueco ou dos Estados Unidos?

Se se interessar por conhecer países uma viagem filatélica do Afeganistão à Antárctida, das Bahamas à Bulgária, da China às Filipinas, do Haiti à Palestina, passando por tantas outras regiões está à sua disposição. Se as suas preocupações são outras poderá penetrar na Cultura Afro-Americana, ver Balões, conhecer a História do Baseball, saber tudo sobre as Bicicletas ou os Faróis, aprofundar os conhecimentos dos Comboios ou recordar os Dinossauros em algumas das muitas páginas web dedicadas à filatelia temática.

Se a sua intenção não é só utilizar as imagens dos selos para outros fins mas penetrar no mundo maravilhoso da filatelia encontrará centenas de milhar de imagens de selos, literatura filatélica, artigos especializados, dicionários e glossários de termos, conselhos e recomendações, listas de coleccionadores e clubes de troca, etc.

Como o principal é começar sugerimos que concentre a sua primeira atenção na visita à página web Filatelia em Portugal, feita em português e considerada umas das melhores páginas na especialidade. Através dela poderá ter o primeiro contacto com o mundo da filatelia e ela permitirá percorrer um pouco de tudo o que existe em Portugal e no estrangeiro. Basta no seu "browser" colocar o endereço http://www.caleida.pt/filatelia. É só este endereço que lhe deixamos mas será suficiente para o ocupar muitos meses. Pode crê-lo.

Depois, porque estamos certos que a ciberviagem filatélica lhe despertará o entusiasmo resta-lhe juntar-se ao mundo dos coleccionadores, criar o seu núcleo filatélico, com a sua página web, contactar o Clube Nacional de Filatelia (http://www.caleida.pt/cnf), ou outro, para tudo que for necessário e conveniente.

Acrescente-se uma última observação. Independentemente das nossas opinião sobre a importância das diversas línguas, veículos de cultura, "navegar" na Internet será também um excelente exercício de inglês.



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1999/02
Publicado originalmente no documento
de apresentação da IV Mostra de Marco de Canaveses