Páginas Web e a Incompetência Institucional
Existem mais de 3000 páginas filatélicas na Internet e em cada uma encontramos centenas ou milhares de imagens e textos. Para se dar uma ideia das suas grandezas pode-se afirmar que o conteúdo da Filatelia em Portugal precisaria de cerca de 2500 páginas de revista para conter toda a sua informação, a qual apareceria indubitavelmente mais pobre em aspecto, pesquisa, interligações e movimento.
Trata-se de uma realidade em rápida mudança, havendo sempre novas páginas, acréscimos às antigas, modificações de apresentação e estrutura.
Estas informações objectivas mostram inequivocamente que as páginas web são hoje, queira-se ou não, um importante tipo de literatura filatélica.
As conclusões que se podem tirar deste facto são muitas, das quais destacaria as seguintes:
- * Qualquer trabalho de divulgação da filatelia exige usar a Internet e os seus recursos multimédia.
* As associações filatélicas, sejam de que tipo forem, têm de possuir paginas web e considerarem organizativamente essa forma de literatura.
* Se a literatura filatélica tem lugar nas exposições competitivas (nomeadamente com algumas formas menores como catálogos de leilões e outros materiais do tipo) as páginas web têm de participar dessas exposições.
É sobre este último aspecto que pretendemos deixar algumas reflexões.
Nos "artigos" filatélicos contidos na Filatelia em Portugal, nas explicações em torno dos "palmarés" e em outras "dicas", há diversas informações e reflexões sobre o assunto, pelo que nos dispensamos de uma análise pormenorizada.
Podemos sintetizar as fases de apreciação competitiva das páginas web em três fases:
- Iniciação e experimentação
- Participação nas exposições competitivas enquanto literatura
- Objecto de uma avaliação à parte.
A partir de 1992 alguns participantes da filatelia organizada aperceberam-se que uma nova realidade estava a despontar, começando a analisar e discutir o problema. Na exposição Pacific'97 fazia-se o primeiro ensaio e a iniciativa das estruturas filatélicas argentinas fez com que MEVIFIL'97 fosse o ponto de arranque para o reconhecimento da existência (o que já não é mau), e sua validade, da Internet e dos novos horizontes que abria.
LORCA'98 foi a primeira exposição filatélica mundial que consagrou em pleno as páginas web, logo seguida por algumas outras exposições internacionais que então se realizaram.
Quando parecia que tinha havido uma compreensão do problema e se multiplicavam as reflexões e debates sobre o assunto, diferencia-se artificialmente (porque nada tem de científico) as páginas web de outras formas de literatura magnética e multimédia e resolveu-se promover uma avaliação à parte.
Essa experiência de avaliação só das páginas web foi iniciada em 1999.
Filatelia em Portugal participou e é do escândalo que tal representou que agora pretendemos deixar algumas palavras, passado alguns meses sobre o assunto.
Escândalo, porquê?
- Participaram 66 páginas web ou que um número ridiculamente baixo. Fica muito aquém do 5% das existentes.
- Não havia um regulamento de avaliação, não existiram critérios objectivados e quantificados para a sua classificação e a lista dos avaliadores só foi conhecida à posteriori. Os resultados de classificação também não esclarecem sobre os eventuais critérios orientadores. A página que obteve o primeiro lugar é o resultado de uma brilhante ideia, sem dúvida. tida há alguns anos atrás, mas hoje é de muito pouco conteúdo, fraca apresentação e sem dinamismo de renovação. E se é apenas a iniciativa de algo que se premeia e não a sua concretização poder-se-á no futuro concorrer com o esquema de um livro que ainda não se acabou de escrever.
- As páginas não foram analisadas completamente, apesar do seu reduzido número. Com efeito, as estatísticas de acesso às páginas portuguesas (onde se pode controlar se o júri esteve ou não a ver a página) revelam inequivocamente que a maior parte do seu conteúdo não foi analisado. Neste caso seríamos tentados a considerar que se olhou para cerca de 7% do seu conteúdo.
- O júri desconhecia maioritariamente diversas das línguas em que as páginas estavam escritas, sendo o espanhol e o português particularmente sacrificados.
- O conteúdo dos relatórios de avaliação enviados aos concorrentes é (analisando as das participações portuguesas) ridículo porque nada diz e quase só pretende encobrir a má avaliação que foi feita e justificar o trabalho do júri para a sua participação.
A Filatelia Portugal é uma página não institucional e não comercial. Quase se poderia acrescentar que também é uma página não-competitiva, porque não pretende concorrer com ninguém, não pretende quebrar o seu conteúdo lúdico.
Durante algum período, por sugestão de amigos, consideramos que a sua participação em certames internacionais poderia ter funções pedagógicas.
Depois de vermos a avaliação de 1999 e o facto de ela representar um fortíssimo retrocesso em relação às práticas que já se tinham institucionalizado, perdemos as ilusões.
Filatelia em Portugal manter-se-á afastada das competições, pelo menos enquanto esta tristeza de situação se mantiver.
Editorial 040 - 2000/04