Ainda Timor
Desde que lançámos aqui um apelo para que se lutasse filatelicamente por Timor, há já alguns meses, muitas coisas aconteceram.
Em Timor houve a intervenção da ONU e o restabelecimento do controlo sobre a quase totalidade do território. Foi estabelecido um poder civil administrativo. As forças políticas que durante dezenas de anos lutaram pela dignificação do povo maubere e pela independência regressaram ao país e tentam criar, na situação difícil que se vive, um Estado que possa conduzir uma política sistemática de reconstrução nacional, de desenvolvimento e de paz. Continua-se a fazer o levantamento da devastação de que o país foi alvo e dos crimes que foram cometidos. As esperanças num futuro melhor chocam com a existência de grandes carências, e dificuldade de estabelecimento de uma economia assente no emprego e na prosperidade.
Na Indonésia os acontecimentos de Timor, e outros contribuíram para uma evolução no sentido da redução do poder dos militares e da instauração de regras de funcionamento democrático. Há o reconhecimento da derrota internacional que os criminosos da barbárie perpetrada em Timor tiveram e procura-se modificar a correlação de força com uma liberalização política. Reconhece-se a conveniência de relações de boa vizinhança com Timor.
Internacionalmente a ONU continua a cumprir o seu mandato na região, jogam-se as forças visando futuras relações de dominação na região. Timor sai dos escaparates do noticiário internacional.
Filatelicamente a nossa posição também foi assumida autonomamente por alguns clubes filatélicos portugueses, através de comunicados formais e analisando o problema em artigos e editoriais. E esse apelo espalhou-se um pouco por todo o mundo. Não tendo possibilidades de fazer um balanço completo -- pois não temos acesso à totalidade da literatura filatélica e que se produz, nem dominamos um leque vasto de línguas --conhecemos reprodução dos textos em revistas de diversos países, encontramos a chamada de atenção para a problemática de Timor em muitas outras., Filatelia em Portugal foi apontada em diversas como um local onde se deveria ir buscar ideias para uma intervenção internacional por Timor.
A nossa mensagem "não caiu em saco roto", como se costuma dizer.
O que é profundamente lastimável é que a Federação Portuguesa de Filatelia tenha mantido um silencio sepulcral sobre o assunto, não tenha tomado posição, não tenha publicado um comunicado, não tenha contactado os clubes federados que tomaram posição. Nada. Um silêncio sepulcral, quase criminoso.
Concorda com as posições de lutar filatelicamente por Timor? Então deve expressá-lo e tomar as correspondentes iniciativas, porque só a Federação, representante internacional dos filatelistas associados em clubes, o pode fazer.
Não concorda com as posições assumidas ou considera que elas são filatélica ou politicamente erradas? Então também deve expressá-lo e apresentar abertamente a sua posição.
O silêncio nunca deveria ser o método utilizado.
Continuamos a considerar que os crimes cometidos em Timor pelas forças policiais da Indonésia foi um crime contra a humanidade. Nada fazer contra tal ou remetê-lo para o esquecimento é colaborar nesse crime.
Nós continuamos a não pactuar. Será que a Federação Portuguesa de Filatelia continuará no seu silêncio?
Editorial 039 - 2000/01