Conjuntos Complementares Sem Interligação
Hoje as administrações postais debatem-se com um conjunto de paradoxos:
- pretendem expandir o seu negócio filatélico mas reduzem a sua base de mobilização não utilizando bonitos selos na correspondência;
- os selos reforçam a sua função simbólica, isto é, de transmissão de uma mensagem (porque essa é a principal preocupação da escolha dos temas e porque reduz-se a sua função de circulação de correspondência) mas são incapazes de cumprir integralmente essa missão ao não atingirem o grande público;
- a imaginação tem criado novos produtos (selos que só são emitidos em bloco, carteiras de prestígio, etc.) mas estes reforçam o distanciamento entre a produção e utilização na correspondência.
No entanto continua a existir um conjunto de pessoas que gostam de ver um selo bonito nas cartas, que podem olhar com atenção para o seu conteúdo. Muitas delas receberam conjuntos de selos dos seus antepassados, organizados ou não, e guardam-nos num qualquer recanto. Se tiverem paciência e tempo recortam alguns dos selos que consideram mais bonitos e conservam-nos numa qualquer caixa de papelão.
Chamemos a este cidadãos de potenciais coleccionadores, embora a designação possa ser abusiva. Sinteticamente designemo-los por X1.
Não será exagerado dizer que conhecer este conjunto, e influenciá-lo, é uma função de Estado, conduzível prioritariamente pela administração postal, ou pelas instituições que superintendem essa área.
Destes existem muitos que resolveram coleccionar selos. Podem fazê-lo de diversas formas, indo desde o encher todas as casas de um álbum (que provavelmente se esquece de muitas peças, deixa pouco campo à imaginação ou informa limitadamente sobre os motivos da emissão) ou fazerem uma colecção altamente especializada de temática, história postal ou de um único selo. Em todas as situações estamos perante o gosto de coleccionar e a felicidade encontrada nessa actividade.
Existe uma forte possibilidade de serem assinantes dos CTT ou de quando em vez dirigirem-se aos balcões dessa instituição para adquirirem algumas peças. De facto, mesmo que apenas façam seriamente colecção de algum país, tema ou tipo de peça filatélica a sua identidade com o País e a eventual esperança de vir a rentabilizar o seu investimento fará com que coleccionem selos de Portugal.
Designemos todos estes que de uma forma mais ou menos organizada, mais ou menos continuada, juntam ou organizam selos como filatelistas. Sinteticamente designemo-los por X2.
Deixemos, por agora, de lado, as considerações económico-financeiras, que são de dois tipos: o aumento do número de peças emitidas pelos Correios fazem com que vários possíveis compradores o deixem de ser por falta de recursos; existirão pessoas que comprarão selos como quem compra obras de arte, acções ou outros bens, com a exclusiva preocupação de rentabilização do investimento.
Este conjunto dos filatelistas é muito heterogéneo: diferentes níveis de remuneração, diferentes formações culturais, diferentes contextos regionais, diferentes preocupações de coleccionismo, diferentes maneiras de estar na vida e reagir às diversas situações.
Sobre este grupo no seu conjunto, incidirão a atenção das administrações postais e dos comerciantes.
Dentro dos filatelistas alguns existirão que consideram vantajoso inscreverem-se num clube filatélico. As vantagens são óbvias: acesso imediato a outros coleccionadores, obtenção de um vasto conjunto de informações, disponibilização de catálogos e materiais, recebimento de publicações, partilha de experiências, eventual participação em mostras e exposições, assim dialogando com um público mais amplo. Alguns inscrevem-se pelo conhecimento destas possibilidades, outros apenas por sentido gregário ou pretensão de usufruir de um ou outro aspecto.
Designemos este conjunto por filatelistas organizados, sinteticamente X3.
Este conjunto de filatelistas é indirecta e subliminarmente influenciado pelas administrações postais e directamente pelas associações filatélicas.
Nem todos os filatelistas organizados participarão activamente na vida das instituições ou intervirão nas exposições competitivas. Poucos serão dirigentes e decidirão dos clubes.
Designemos este conjunto de filatelistas dirigentes por X4.
Este conjunto de áreas pode representar os diversos conjuntos anteriormente referidos.
Acrescentámos ainda um conjunto inicial X0 constituído por todos os cidadãos.
Do anteriormente dito fácil é concluir que cada conjunto é subconjunto de outro. Daí resulta uma conclusão imediata: a ampliação de um conjunto só é possível pela captação de parte dos elementos do conjunto mais vasto. Para que isso aconteça é indispensável que:
- os elementos de um conjunto consigam comunicar com os do conjunto mais vasto a que pertencem
- a sua mensagem seja entendível e aceitável;
- existam condições sociais, em sentido lato, favoráveis para a concretização da sua vontade.
Acontece que espontaneamente estas condições não são preenchidas, aparecendo uma situação de enquistamento total quando os filatelistas dirigentes estão mais preocupados com os restantes membros da "seita" do que com a totalidade dos filatelistas associados, quando estes não têm formas ou recursos financeiros de comunicar com os filatelistas em geral, quando a actividade solitária destes e a preocupação economicista da administração postal não alicia os coleccionadores potenciais, quando a competitividade exacerbada, a desigual distribuição do rendimento e do bem-estar e uma diluição dos referenciais culturais impedem que muitos cidadãos possam ser sensibilizados pelas peças filatélicas.
O enquistamento gera enquistamento, assim como a expansão gera expansão.
Estaremos nós, portugueses, próximos desta situação de enquistamento?
Se não estamos, regozijemo-nos, continuemos todos a trabalhar para que não cheguemos a essa situação catastrófica.
Se estamos, só nos resta duas situações possíveis:
- encerrarmos por falência;
- modificarmos a situação.
Qualquer das duas tem custos e exige coragem.
Tenhamos, no entanto, consciência que apesar da filatelia ser um aspecto menor na vida das nações - obviamente que o é e todos temos consciência disso - a sua liquidação só pode ser entendida como parte de um processo mais amplo de dissipação da cultura, de dramática uniformização pelo mínimo, de redução do lazer, peça importante da utopia dum futuro melhor ao serviço dos homens.
Se há enquistamento, hipótese de trabalho, parece que, para nós filatelistas, só resta uma saída. Mudarmos a situação actual. O objectivo imediato essencial é inverter o processo: passar do enquistamento à expansão.
Para tal o que é necessário?
Imensas coisas. Refiram-se algumas:
- utilizar na correspondência selos (de base e comemorativos) e nos balcões dos CTT etiquetas atraentes estética e simbolicamente.
- mudança radical, em termos de objectivos e comportamento, do conjunto dos filatelistas dirigentes
- criação de novos meios de comunicação entre os diversos subconjuntos
- conhecer cientificamente o conjunto dos filatelistas e dos coleccionadores potenciais
Editorial 037 - 1999/06