Informação necessita-se
O momento de leitura do correio electrónico é de um secreto contentamento. É um momento de surpresas que vêm de todos o mundo, de leitores da Filatelia em Portugal que, por esta ou aquela razão, nos escrevem.
Instintivamente recordamos, com a força das memórias da infância, quando na tabacaria da vila comprávamos os pacotes de selos - porque então havia disso por todo o lado - e os abríamos com o sabor do enigma e o sonho da descoberta de algo que nos faltasse no álbum improvisado. Também aqui há enigma e descoberta e a probabilidade de não termos correspondência filatélica todos os dias é praticamente nula.
É o residente na Islândia que nos pede um selo emitido em Moçambique, são coleccionadores da China, Austrália ou Peru que nos propõem a troca de novidades, são os comerciantes do Japão ou Canadá que não leram que a página é não comercial e nos propõem negócios, são os ciberleitores que manifestam a sua opinião elogiando-nos o trabalho ou criticando-nos alguma passagem, são as inscrições para receberem novidades da página, são os pedidos de colocação de anúncio.
Enfim, há um pouco de quase tudo: muito dos que são filatelistas por puro deleite e que o fazem no segredo da sua intimidade, alguma coisa dos que conjugam o coleccionismo com actividade na vida associativa, quase nada dos que participam em exposições competitivas ou dirigem as instituições filatélicas. Quase sempre são visitantes de que apenas conhecemos um correio electrónico e que podemos apenas indiciar, por este ou aquele aspecto onde vivem, que idade podem ter, o que coleccionam.
Na caixinha de surpresas encontramos recentemente esta mensagem, cujo autor autorizou a reprodução:
- Se sou Filatelista não o sei ao certo. Desde pequeno que herdei uma razoável (será?) colecção, que sempre vim cuidando ate ha poucos anos.
Por falta de tempo desinteressei-me, mas agora, qual não foi o espanto, ao ver a elevada qualidade destas paginas (os meus parabéns a toda a equipa), o "bichinho" voltou a atacar.
Luís de Sousa
Fiquei feliz. Atingimos os nossos objectivos: fizemos alguém (re)despertar para a filatelia.
Não temos a mínima dúvida da importância das exposições competitivas, incluindo para a propagação da filatelia, para a relação entre os filatelistas, para a promoção do comércio filatélico, para a promoção de muitos ligados a estes meios.
Não temos a mínima dúvida da importância do associativismo filatélico. Os clubes com as suas tertúlias, as suas publicações, as suas bibliotecas, a sua experiência acumulada e capacidade de organização são peças fundamentais na promoção do coleccionismo, no ensinamento, na modificação do próprio entendimento do que é a filatelia.
Não temos a mínima dúvida da importância da actividade filatélica das administrações postais, pela opções de emissão, pela promoção que fazem, pelos ensinamentos que de alguma forma transmitem.
E não serão os desvios especulativos e competitivos de uns ou as ganâncias promocionais de outros que serão capazes de desvirtuar a relevância das instituições e dos actos.
Mas também não temos a mínima dúvida que a maioria dos filatelistas, isto é, dos que à sua maneira coleccionam selos (e eventualmente outros objectos a eles associados) não encontram com quem dialogar, com quem aprender, com quem trocar ideias. Certamente também por sua responsabilidade (não será difícil encontrar um clube onde inscrever-se e participar) mas essencialmente pelos contextos em que se inserem nesta sociedade, simultaneamente local e mundial.
E muito pior, muitíssimo pior, estão os muitos que se poderiam interessar pela filatelia mas que nunca encontrarão as condições para o fazer. Como poderiam encontrar essas condições se não existe em Portugal nenhuma revista ou jornal filatélico à venda ao público, se as cartas cada vez menos utilizam selos, se as secções filatélicas estão frequentemente em jornais de reduzida tiragem ou são pouco atractivas, se já não existem os pacotes de selos à venda em todos os recantos, se os clubes atravessam dificuldades financeiras que os impossibilitam de uma abertura ao publico oito horas por dia durante toda a semana?
Portugal tem belos selos, muitos deles galhardamente cotados no mercado internacional. Portugal tem eméritos filatelistas e belíssimas colecções montadas. Portugal tem insignes e dedicados organizadores filatélicos. Portugal não tem uma circulação da informação filatélica que permita difundir conhecimentos, atingir novo público, cativar os jovens. E quando a circulação não se difunde os círculos estreitam-se e as mesquinhices esvoaçam.
É urgente a informação filatélica, uma informação filatélica culturalmente enriquecedora e atraente.
Editorial 036 - 1999/04