Democraticidade
Os outros
Certamente já se interrogou sobre a coincidência de tantos países emitirem selos sobre o mesmo tema (de que a Princesa Diana é um exemplo recente) ou países de todo o mundo, quantas vezes com culturas e problemas muito próprios, emitirem selos com temáticas do cinema ou da canção americana. Certamente já se interrogou sobre a coincidência de selos de diversos países utilizarem símbolos, apresentações, conteúdos tão iguais que parecem sair da mesma tipografia, ou de parecer haver uma sincronização para que as emissões sejam simultâneas ou sucessivas de forma a não esgotar o mercado.
Se viaja com frequência e não perde oportunidade para adquirir os selos nos países que visita também certamente já se interrogou sobre a maior facilidade, em muitos casos, de obter esses selos no estrangeiro que no seu país de origem.
Vivemos uma época que se tornou moda designar de globalização. Será que essa sincronização mundial, essa divulgação mundial da cultura regional americana, essa tão apregoada autonomia dos mercados são capazes de dar uma resposta cabal às interrogações a que aludimos?
Pensamos que não. A resposta em muitas situações está em IGPC (Inter-Governmental Philatelic Corporation). É uma empresa privada que desde 1957 firma contratos com governos e administrações postais de todo o mundo para a concepção, o desenho, a impressão e a distribuição de selos. Ghana, tornado independente, foi o seu primeiro cliente. Seguiu-se-lhe Togo e depois muitos mais.
IGPC é hoje a maior agência filatélica mundial, representando cerca de setenta administrações postais, abrindo as suas vendas a todo o mundo, granjeando popularidade desses países entre os filatelistas.
Angola, Botswana, Africa Central, Congo, Eritreia, Etiópia, Gâmbia, Ghana, Kénia, Lesotho, Libéria, Mali, Malawi, Marrocos, Moçambique, Rwanda, Serra Leoa, Swazilandia, Tanzania, Togo, Uganda e Zâmbia, em África; Antigua & Barbuda, Bahamas, Dominica, Grenada, Grenada/Grenadines, Haiti, Nevis, S. Vicente, S. Vicente Grenadines e Turks & Caicos, nas Caraíbas; Guyana e Nicarágua, na América Latina; Austria, Chipre, Gibraltar, Guernsey, Alderney, Ilha do Homem, na Europa; Bhutão, Brunei, Índia, Israel (?), Malasia, Maldives, Micronésia, Ilhas Norfolk, Palau, Nova Guiné, Sri Lanka e Turquia, na Ásia e Oceania; Azerbaijão, Georgia, Turkministão e Ucrânia na ex-URSS são os seus actuais clientes. E quanto mais um país se fragmentar em falsas administrações postais, mais clientes têm.
O conhecimento da sua actividade levanta uma preocupação: saber quanto os filatelistas gastam com uns "cromos" que cada vez menos são selos na verdadeira acepção da palavra.
... e nós
Face a tais exemplos que fazem repensar a nossa prática filatélica, tendente a valorizar as dimensões históricas e de investigação, é com grande satisfação que verificamos que a Administração Postal em Portugal tem a saudável prática não só de decidir de acordo com as temáticas e preocupações nacionais como ainda proceder a uma ampla consulta junto de todos os cidadãos sobre os possíveis objectos de edição.
Estimulamos todos os nossos leitores a enviarem até dia 31 de Março as sugestões que considerarem mais adequadas. De preferência apresentadas de uma forma sucinta mas fundamentada.
Pela nossa parte, seguindo o que fizemos no ano transacto, aproveitamos esta ocasião para deixar algumas pistas e reflexões.
Algumas emissões reproduzem o que existe ou recordam o que aconteceu enquanto outras procuram materializar pictoricamente preocupações e anseios, e assim influenciar a nossa vida presente e futuro.
Sem uma análise quantificada, e uma fundamentação rigorosa da validade desta classificação dicotómica, somos levados a admitir que o primeiro tipo tem sido o de maior prática, o que tem razões sociológicas perfeitamente justificáveis.
Talvez por isso mesmo somos levados a concentrar a nossa atenção prioritariamente nas outras, falando genericamente de selos, blocos, carteiras, inteiros postais ou etiquetas.
- Viver melhor
É um anseio de todos os portugueses, de todos os cidadãos, viver melhor. Certamente que o entendimento que cada um dá a esta expressão é diferente, podendo até os anseios de uns serem limitativos dos partilhados por outros. Mas existem hoje alguns vectores comuns que podem servir de base a esta emissão, havendo sobre eles uma quase total unanimidade: Pela Paz, Um Ambiente Saudável, Contra a Exclusão, Democracia e Liberdade, Tolerância, Educação para Todos, ...
- Contra o Uso Indevido de Drogas
2000 é o último ano do "Decénio das Nações Unidas contra o Uso Indevido de Drogas". Sendo um problema social grave por cuja resolução nunca é demais lutar. A referida comemoração pode ser aproveitada para mais uma vez mostrar os horrores humanos a que aquele conduz.
- CPLP
A Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa é uma peça importante na estratégia de afirmação dos diversos espaços geográficos e sociais que o integram e de conservação e reforço da língua e cultura portuguesas. Esta instituição não deve ser encarada à luz do que hoje é mas essencialmente atendendo ao que pode ser. Seria interessante uma emissão conjunta dos países que constituem a referida Comunidade.
- O Prazer de Escrever
Divulgação da escrita e da utilização da carta como meio de comunicação. Estaria na linha de diversas iniciativas que os CTT têm assumido nesse sentido.
- Os Sonhos de Futuro
Quais são os sonhos dos portugueses, isto é, quais são os seus anseios, as suas perspectivas de bem-estar? Provavelmente quase ninguém saberá responder cabalmente a esta pergunta e, no entanto, esse olhar para futuro, com uma esperança de realização ou a frustração da impossibilidade, é uma expressão complexa dos padrões culturais do povo português, da sua postura na vida, nomeadamente nos desafios que esta coloca. Fazer um estudo que responda à pergunta inicialmente formulada, o que é relativamente fácil, não só poderia dar lugar a uma emissão de selos como a um livro com o estudo.
- Homenagem à Filatelia
Para muitos dos coleccionadores portugueses, dos muitos milhares anónimos que encontram na filatelia prazer e a ela se dedicam, este coleccionismo traduz-se em possuir todos os exemplares referenciados no catálogo, mais exactamente no catálogo de selos. Referenciar os diversos tipos de coleccionismo, da história postal à temática, dos inteiros postais à maximafilia, etc. é rasgar novos horizontes, o que também para os CTT se pode traduzir em mais negócio.
- Os Carimbos na Filatelia
Será que os muitos milhares de cidadãos que se deliciam olhando para um selo, sejam ou não coleccionadores, olham com a mesma atenção e encanto para os carimbos? Muito provavelmente não e, no entanto, há verdadeiras obras de arte. Porque não contribuir para a promoção da obliteração através da sua reprodução em selos? Se selos em selos é uma temática tão espalhada porque não contribuir para a dos carimbos em selos?!
Quanto às emissões evocativas das realidades já existentes sugeriríamos:
- Balanço dum século
O ano 2000 é o último ano do século XX. Um século recheado de grandes acontecimentos que, nacional ou internacionalmente, marcaram todos nós. Uns horrendos e bárbaros, outros maravilhosos e geradores de esperança e amor. Seria interessante recordar esses acontecimentos para que a memória não seja curta.
- Balanço dum milénio
O ano 2000 é o último ano do segundo milénio depois de Cristo. Para nós um milénio decisivo. Foi nele que nasceu Portugal, que a nossa identidade de reforçou, que construímos o que hoje somos como Nação. Temos sobejas razões para fazer o balanço do milénio como cidadãos de um País que então nasceu e como cidadãos do mundo.
- 500 Anos da chegada dos portugueses ao Brasil
É inteiramente dispensável justificar o interesse de uma emissão sobre este importante acontecimento histórico. Teria interesse uma emissão conjunta dos dois países, com originalidade e arrojo.
- 150 Anos da Constituição da Associação dos Operário
A Associação dos Operário, salvo informação em contrário, marca o início do movimento operário português. Não há nenhuma razão para em selos se ter comemorado instituições empresariais e não acontecer o mesmo com estruturas do tipo que agora se referencia.
- Nascimentos e mortes de escritores
É uma prática antiga dos CTT que faz sentido continuar, aproveitando para relembrar figuras impares da nossa literatura, incluindo os que possam ser menos conhecidos da população. Nesse sentido recomenda-se:
- 100 Anos da morte do poeta António Nobre
- 100 Anos da morte de Eça de Queirós
- 100 Anos do nascimento de José Gomes Ferreira
- 500 Anos do nascimento de Fernão Lopes de Castanheda
- 200 Anos do nascimento de António Feliciano de Castilho
- Mudanças de paisagem
Só a mudança é constante e os últimos vinte e cinco anos foram de grande transformação. Seria interessante recordar a mudança, concentrando a atenção nas paisagens: mostrar em selos as paisagens que eram (de preferência utilizando postais antigos) e o que agora são.
- Vultos das Ciências Sociais
A filatelia internacional tem sido mais disponível para homenagear físicos, químicos, biólogos, matemáticos, astrónomos, etc. do que para chamar a atenção para os economistas, sociólogos. antropólogos, etc. Alguns "monstros sagrados" das ciências que têm contribuído para um melhor conhecimento de nós e uma modificação das nossas vidas continuam inteiramente ignorados pela filatelia: Quesnay, Adam Smith, Durkheim, Max Weber, Keynes. Porque não começar a recordá-los?
E além de tudo isso a série Europa e outras que resultam dos compromissos já anteriormente assumidos.
Quatro notas finais sobre este assunto.
- Portugal tem emissões filatélicas com conteúdo válido e com um grafismo atraente. É importante e por tal pugnamos. Contudo não basta parecer, é também necessário ser. Por outras palavras, as emissões filatélicas não se fazem para os filatelistas, colocando-se apenas alguns à venda nos balcões dos Correios para não se violar as regras internacionais e dar uma certa aparência. Fazem-se para franquearem a correspondência. Assim sendo há que fazer tiragens concordantes com tal objectivo, permitir que qualquer cidadão as possa utilizar na correspondência, independentemente da sua localização geográfica, estimular a selagem das cartas.
- Não deve haver emissões dos CTT - de selos, blocos, inteiros postais ou qualquer outro tipo de peças - que sejam para filatelistas e outras que não sejam. Há emissões dos CTT que podem ser utilizadas filatelicamente. Logo, se a Administração Postal tem um serviço especial para atender os filatelistas - o que é louvável e rentável - este tem de estar a par de todos os materiais emitidos. Esperamos sinceramente que não se repitam alguns acontecimentos quando da EXPO'98 em que muitos inteiros postais - postais ilustrados pré-franquiados de distribuição nacional ou regional e envelopes pré-franquiados - nunca foram anunciados aos filatelistas e estes não obtinham informação adequada junto dos serviços dos CTT.
- Tem sido frequentemente reconhecido, nomeadamente por quem decide sobre o funcionamento das administrações postais, que não é possível uma expansão da filatelia sem que os selos, em sentido lato, sejam utilizados na correspondência de uma forma generalizada. Foi vendo os selos nas cartas, recortando-os, descolando-os ou maltratando-os, que uma enorme percentagem de cidadãos no mundo se tornaram filatelistas. Se englobarmos nesta definição ampla de selo as franquias mecânicas, é perfeitamente possível compatibilizar a celeridade do funcionamento dos balcões de atendimento ao público com a utilização de etiquetas com símbolos que transmitam mensagens, como o ano transacto claramente demonstrou. As etiquetas brancas utilizadas não são um fatalismo.
- Para as emissões de base, provavelmente aquelas que são mais filatélicas, isto é, que mais são utilizadas na correspondência, os CTT deveriam informar das tiragens e datas de tiragem, assim como das destruições que eventualmente se façam de material excedentário. Essa informação é importante e não existem razões para serem mantidas reservadas. Aliás a prática de outras administrações postais, veja-se o caso da França, apontam nesse sentido.
Porque os CTT têm-se revelado editores de grande qualidade, sendo os livros publicados de grande valia documental e literária, de apresentação irrepreensível, não podemos deixar de formular um voto: que seja elaborado um livro sobre a utilização da informática em todos os aspectos da prática postal e filatélica, em Portugal e no mundo.
Esperamos igualmente que o ano de 2000 seja aquele em que os CTT tenham oportunidade, em colaboração com outras instituições, de publicar um estudo multidisciplinar que se poderá designar por "O Selo e a Sociedade - Leitura Multidimensinal de um Signo"
Editorial 034 - 1999/01