Os Jerónimos contra o Centro Cultural de Belém


(Imagem de Miguel Taxa)


1. No Mosteiro dos Jerónimos, quando da exposição de escritos de Leonardo da Vinci, Bill Gate falou da informática e das comunicações e de quanto elas modificarão o nosso mundo. Entretanto o Ministro da Ciência e da Tecnologia anunciava a continuação da informatização das escolas portuguesas, abrangendo todas as do Ensino Primário. Bem ao ladinho, no Centro Cultural de Belém, decorria a PORTUGAL 98, exposição internacional de filatelia, em que a "literatura filatélica" na Internet não era considerada.
Porque os Jerónimos e o Centro Cultural no início do passado mês de Setembro reflectiram duas maneiras dos portugueses estarem no mundo e construírem o seu futuro; porque o artigo anterior neste mesmo jornal mereceu apreciação do Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia (onde ficámos a saber que éramos "um nóvel na filatelia portuguesa" que "ignora todos os regulamentos de competição", de um "atrevimento de mau gosto" e que "pouco ou nada percebe da «poda»" e ainda não "sensato", não "cordial" e não "educado"); porque o artigo publicado no Flash, revista da Federação Internacional de Filatelia, de Julho passado reflecte grandes confusões sobre esta matéria e ainda porque é na troca de opiniões e pontos de vista diferentes que há um processo de aprendizagem mútua - se desejarmos aprender -, resolvemos voltar ao assunto da literatura filatélica nas competições filatélicas.
Temos sempre muito receio de falar de regulamentos de exposições em órgãos de comunicação filatélica porque é nosso convencimento que a grande maioria dos coleccionadores nunca puseram a hipótese de exporem, uma outra grande fatia pensaram mas excluíram-na. Em síntese, os preocupados com tal assunto são uma minoria das minorias. Porém consideramos que o que está em jogo é uma compreensão do mundo e um estar na vida que a todos afecta.
Abordamos esse tema aplicado à PORTUGAL 98 em quatro etapas.


Os regulamentos e a vida


2. Um emérito jurista português, já falecido, Prof. Baptista Machado, costumava afirmar que as leis estão ao serviço dos homens. Uma verdade tão evidente em democracia que provavelmente seria desnecessário afirmar mas que a todos apanhava de surpresa como se algo de impensado se tratasse, habituados a um quadro jurídico muito repressivo.
É a vida que cria as situações que exigem ou aconselham as leis. Quando aquela é mais avançada que estas há que modificar o quadro jurídico. E entretanto são os homens, com particular responsabilidade para as elites, que devem tomar iniciativas capazes de adequar estrutura (a vida, num contexto de certas tecnologias) e a superestrutura (quadro jurídico, entre outros aspectos). E é nessa capacidade, nesse exercício de imaginação e criatividade, que se medem os homens e as iniciativas, se atestam os conhecimentos e a visão.
Leonardo da Vinci, nos escritos que estiveram expostos nos Jerónimos não foi grande por reproduzir o que os outros disseram mas por dizer e fazer o que outros nem conseguiam imaginar.

3. Depois de ter havido PACIFIC 97 em que o material informático foi uma "classe especial", MEVIFIL 97 exclusivamente dedicado aos meios audio-visuais e informáticos, ISRAEL 98 e sobretudo LORCA 98 - uma exposição mundial de literatura filatélica - PORTUGAL 98 considerar tais materiais não seria nenhum crime. Seria tão somente conhecer a vida e ter horizontes largos.

4. Grave, isso sim, foi "os ditos por não ditos", expressos nos seguintes factos suficientemente eloquentes, apresentados por ordem cronológica:
1. É anunciada a PORTUGAL 98 sem qualquer referência aos meios audiovisuais e informáticos.
2. Em 20 de Janeiro de 1998 convidam expressamente a "Filatelia em Portugal" a participar competitivamente na exposição, podendo-se entender que a Literatura Filatélica continha os referidos meios audio-visuais e informáticos:
"depois de se verificar a dificuldade de colocação de V. Exa. no certame, por não haver local específico para o efeito resolveram: … a) Apesar de terem encerrado em 30/08/97 as inscrições para participar na "Portugal 98", e neste momento já terem sido distribuídas as inscrições definitivas, vamos enviar a V. Exa. um impresso de inscrição provisória, outro de inscrição definitiva, e os boletins nº 1 e 2. (...) Fica assim V. Exa. em condições de igualdade com todos os participantes portugueses ou estrangeiros na "Portugal - 98". O seu material filatélico ficará implantado na Classe de Literatura Filatélica, que será exposta num pavilhão designado de "Literatura Filatélica", acompanhando as dezenas de outros participantes nesta classe."

3. Em 3 de Agosto de 1998 o Presidente da Federação afirma que afinal os meios informáticos não estão contemplados:
"Porém, acontece que a filatelia em CD-ROM e outros suportes não está contemplada nos critérios de julgamento porque se rege a Federação Internacional de Filatelia e os seus jurados. … Por tal motivo a "Portugal-98" não tinha, não tem, nem poderia ter, no seu Regulamento uma classe que englobasse tal material, já que não existem critérios de classificação do mesmo."

Desta atitude resultou provavelmente o inadequado apetrechamento da exposição, e do júri, em meios informáticos.
4. Na página 166 do catálogo da exposição englobam-se onze participações em "Meios Audiovisuais e Informáticos". Acrescente-se que além da "Filatelia em Portugal" e do CD-ROM da A2Z, únicas conhecidas algum tempo antes, seis participações são da Afinsa e três estrangeiras.
5. Acabou por serem considerados na competição todos os meios audiovisuais e informáticos excepto as páginas web, como afirma o júri
"as participações na Classe de Literatura referentes à Web-Site não foram pontuados devido a não estar ainda disponível o sistema de pontuação para essas participações"

o mesmo não dizendo (nada diz) dos restantes meios audiovisuais e informáticos.


Este conjunto de factos é que nada acrescenta de lúcido, transparente e sensato.

Do texto ao hipermédia


5. A escrita a que hoje estamos habituados é um resultado da conjugação de múltiplos factores. Em primeiro lugar da diversidade de povos e suas culturas, a eles estando associados práticas de constituição da sociedade, formas de relacionamento entre os agregados sociais e entre estes e a natureza, dinâmicas de implantação territorial. O sistema alfabético numa tradição cultural greco-latina, com decisiva influência do cristianismo, é o património de que hoje somos herdeiros. Em segundo lugar das técnicas conhecidas e aplicadas à escrita, que permitiu passar da utilização da pedra e da argila macia à cera como suportes de escrita, passar das peles e do papiro ao papel, enquanto o estilete de metal evoluía para a ponta de cana, as penas, as canetas e a máquina de escrever. Com o cristianismo a quantidade de escrita necessária amplia-se e a conservação em rolos evolui para o livro.
Ao longo deste processo histórico milenar há uma estreita relação entre a forma da escrita, o material utilizado e a acessibilidade dos homens aos textos. O papel e a tipografia são os responsáveis por uma "revolução cultural" que se arrasta até aos dias de hoje. A impressão tipográfica em papel permite a ampla difusão dos textos.
Os nossos pensamentos são expressos através de frases escritas numa ordem da esquerda para a direita e de cima para baixo, cujas palavras são conjuntos ordenados de caracteres que pertencem a um abecedário. Os pensamentos estão interligados entre si e apresentam-se sequencialmente pelo que o leitor tem de respeitar essa mesma ordem para uma adequada leitura e compreensão da mensagem.
O domínio do abecedário em relação aos restantes elementos de comunicação e a sequência do texto bem vincado na ordem das palavras, das linhas e das páginas (numeradas) foram há muito reconhecidos, pelos emissores e pelos receptores da mensagem como limitações. A introdução das iluminuras e das imagens, a introdução do índice e a recomendação de uma leitura em ordem diferente da sequencial (incluindo a passagem do índice do fim do livro para o princípio), a inclusão de artifícios de som ou de movimento nos livros infantis, as notas de fim de página nos trabalhos científicos chamando a atenção que o mesmo assunto é tratado noutro ponto do trabalho ou ainda a sôfrega leitura das últimas páginas do livro policial antes de tudo o mais são tentativas da superação dos constrangimentos da leitura sequêncial.
A utilização do computador como instrumento de escrita com o registo desta por meios magnéticos (utilizando combinações de 0/1) e o acesso aleatório ao disco veio permitir dar novos rumos ao texto. O hipertexto, isto é, um texto em suporte magnético cuja leitura ordenada é não-sequencial, foi a primeira grande evolução. Dum ponto do texto salta-se para outro e deste para outro, numa sequência de ligações entre palavras e frases cuja utilização depende das opções do leitor.
O tratamento dos caracteres da escrita como elementos gráficos permitiu de imediato uma maior utilização da imagem, do vídeo, do som. O texto tradicional transforma-se em multimédia e o hipertexto em hipermédia.

6. A filatelia é uma matéria que aconselha a utilização da hipermédia, de que são expressões os CD-ROM (poder-se-ia falar de disquetes, mas estas têm insuficiente capacidade de gravação) e as páginas web. Entre uns e outros não há nenhuma diferença de natureza: são hipermédias associadas à utilização de determinadas linguagens de programação que estão sobre suporte magnético utilizando uma linguagem binária.
Assim como um livro estar na biblioteca ou sobre a mesa de cabeceira não modifica a sua natureza também o facto da gravação estar no CDROM de que vemos o invólucro ou num disco de um computador remoto não modifica a identidade das suas naturezas. Numa apreciação secundária e complementar, de natureza quantitativa, poderíamos considerar que os CDROMs estão mais longe da imprensa filatélica tradicional que as páginas web pela quantidade de efeitos de multimédia que comporta, impossíveis de funcionar com as vias de comunicação informática actualmente existentes.
Quando no Flash de Julho se distingue os CDROM das páginas web porque os primeiros estão "fixados num formato físico" (physical format fixed) está-se a tomar o acidental pelo essencial: os livros são palpáveis / os cdroms são palpáveis / os cdroms são como os livros; isto é, os peixes vivem no mar / os golfinhos vivem no mar / os golfinhos são peixes.
Foi nesta linha de dupla confusão (hipertexto não é texto; CDROM é semelhante a texto tradicional e diferente de página web) que se situou a PORTUGAL 98: só excluir as páginas web. O que resta saber, apesar do texto lacónico do júri, é porquê.

Regulamento sobre literatura filatélica


7. Se se entende que a hipermédia é uma forma de comunicação entre os homens na sequência do tradicional texto, particularmente útil quando estamos perante mensagens que aconselham ou sugerem uma leitura não sequencial, então os materiais que temos estado a analisar são manifestamente literatura filatélica. Como tal devem ser tratados e seria negativo englobá-los num grupo à parte. Felizmente este tem sido um ponto de vista partilhado em diversas ocasiões (veja-se, por exemplo, o "Seminário de Literatura Filatélica FIP-FAEF-ACFA" na MEVIFIL 97, as notícias na revista Flash e alguns debates nas "mailing lists" e "news group"). Essa também foi a opinião que manifestámos na Filatelia Portuguesa.
Aceitando esse entendimento há que redefinir Literatura Filatélica (actualmente apresentada como "comunicações impressas" pressupondo esta designação o suporte em papel), precisar "algumas regras de jogo" (quanto a equipamento utilizável, instalação dos CDROMs, versão em avaliação, possível existência de guião de explicação do seu conteúdo) e adquirir conhecimentos e práticas de avaliação (nomeadamente quanto à originalidade e aspectos técnicos). Por outras palavras, o essencial está definido, o principal obstáculo jurídico (suporte em papel) está reconhecidamente ultrapassado e as questões a repensar são menores.

8. O Seminário Malmö, realizado na Suécia em Março, visou analisar a extensão da literatura filatélica aos novos meios, incluindo CDROM, discos e disquetes de computadores, vídeo, programas de slides e páginas web. Vejamos alguns dos «problemas» levantados a propósito das páginas web:
1. estão em permanente mudança, não sendo possível atribuir-lhes um conteúdo e uma data como às publicações em papel ou aos CDROMs
2. mudam frequentemente de endereço, podendo no momento da exposição não estar onde foi indicado
3. a sua quantidade é enorme e aumenta a grande ritmo.

Os dois primeiros são de fácil resolução: são avaliadas pelo que existe no momento em que o júri vai analisar, sendo aspecto valorativo uma informação sobre versões e actualizações; sendo uma página identificada pelo seu título e endereço a mudança deste sem a instalação de qualquer processo automático de transição conduz à sua exclusão.
A terceira questão é mais interessante pois mostra a existência de um certo conflito entre as exposições (acções de elite) e a massificação da literatura filatélica que a Internet trouxe. A tramitação das páginas web pelas exposições de diversos âmbitos será uma hipótese de atenuação do problema, mas certamente insatisfatória.

9. Para terminar esta referência ligeira à regulamentação diria que há um problema muito sério que ainda não vimos referido. Para consultar uma página web é preciso utilizar as comunicações e entrar num computador situado algures. Esta possibilidade ou a velocidade de acesso podem ser profundamente alterados por factores completamente alheios ao autor ou edito da página web. Um relatório das práticas sexuais do Presidente da República dos EUA ou a urgência de consulta das cotações na bolsa em quebra foram suficientes para bloquear o sistema mundial de comunicações. Os computadores, incluindo os que contêm as páginas web, estão sujeitos a avarias. Que atitude tomar em tais situações? Não sabemos. A apresentação da página em CDROM pode minorar a dificuldade mas não a resolve.
Em síntese, os problemas jurídicos são simples. Mais difíceis são os da preparação dos jurados. Aí está a grande dificuldade, como a própria FIP reconhece.

Que fazer se queremos aprender


10. Uma das grandes qualidades da filatelia é exigir um permanente trabalho de informação e de estudo. É-o porque surgem novas formas de coleccionismo e porque cada uma delas evolui. É-o porque cada colecção exige uma actualização de conhecimentos sobre as matérias naturais ou sociais nela versadas. É-o porque os materiais utilizados se alteram com a tecnologia.
Se aprender é um acto intrínseco ao coleccionismo de selos porque não aprender o que significam as novas tecnologias e como podem ser, e estão a ser, utilizadas filatelicamente? Aprender apenas exige antes uma atitude: querer aprender. E para se ter essa manifestação de vontade - maravilhosamente humana, diga-se de passagem! - basta reconhecermos que um assunto é relevante para a nossa formação como homens e que nada ou pouco sabemos sobre tal. Existirá algum filatelista que não tenha esta capacidade de discernimento?
Então se todos estamos de acordo porque não promover iniciativas de formação, colóquios, debates, sobre estes assuntos. Será sem dúvida uma atitude mais digna do que ter medo do progresso, ter a atitude heróica da avestruz ou procurar marginalizar os que experimentam novos rumos.



Editorial 032 - 1998/11