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1. Por definição, para a maioria dos filatelistas (designando dessa forma todos os que se maravilham com os selos e os encaram como objecto de colecção) os selos são o objecto central, quiçá exclusivo, do seu coleccionismo. Para muitos deles, entusiastas e empenhados, o grau de desenvolvimento da colecção mede-se pelo menor ou maior número de casas vagas nos álbuns, com folhas adquiridas periodicamente em algum comerciante.
A filatelia clássica, cuja caricatura traçámos nas linhas anteriores, continua a ser o entendimento mais generalizado da filatelia, aquela que tem mais adeptos. Para a generalidade dos filatelistas apenas a filatelia temática surge, aqui e além, como alternativa ou complemento do seu afã coleccionista.
Entretanto as cartas circuladas, os carimbos, as flâmulas e outras obliterações, os ensaios e as provas, os erros, os selos fiscais, as vinhetas, os diversos tipos de inteiros postais, as etiquetas, as fraquias mecânicas, os envelopes de 1º dia, os postais máximos e outros materiais são pouco considerados. O aparecimento dos selos electrónicos também os deixa indiferentes pois nada têm a ver com o seu coleccionismo.
Entretanto o estudo da actividade postal associada a cada peça, a relação entre elas e os meios de transporte utilizados (mensageiro, diligência, ambulância, avião, barco, garrafa flutuante, balão, pneumático, pombo correio, etc.) passa-lhes despercebido. O mesmo se poderá dizer dos diversos tipos de coleccionismo que os organismos filatélicos internacionais vão, com maior ou menor esforço, reconhecendo.
A tudo isto acrescente-se que muitas colecções estão para montar e outras tantas estão-no de uma forma eventualmente inadequada.

2. Todos somos poucos para explorar as hipóteses de coleccionismo, de investigação e de estudo que a grande diversidade de materiais filatélicos abrem. O despertar da imaginação, o ensaiar da descoberta e dos seus caminhos, o enriquecimento cultural, as preocupações estéticas são qualidades humanas escasseando com a "massificação", a "uniformização" e a "rotinização" do quotidiano, pelo que toda a perda de oportunidade da sua manifestação é de lastimar.
O facto da filatelia estar em profunda mudança (o que em parte se manifesta nas grandes exposições mas que também se concretiza nos esforços de alguns, na literatura filatélica, nas novas formas de criação filatélica) e de a grande maioria dos coleccionadores ignorarem essa dinâmica, e as linhas de força dos seus possíveis rumos, é preocupante e exige uma análise cuidada.
Este problema poderá não existir em alguns países, poderá ser mais ou menos grave nuns ou noutros. Infelizmente no nosso é altamente preocupante.
A informação filatélica parece um buraco negro: não há nenhuma publicação periódica vendida nas bancas de jornais, acessível a toda e qualquer pessoa que o deseje; as colunas filatélicas dos jornais nacionais e regionais são na sua maioria excessivamente lacónicos, mais informativos que formativos, muito porta-vozes das informações que lhe são transmitidas pelos CTT; as mostras e exposições atraem apenas uma parte dos coleccionadores (efectivos e pessoais) e mesmo quando aí se deslocam têm dificuldades em se informarem, debaterem ideias, esclarecerem-se sobre isto e aquilo; o associativismo filatélico choca com o desconhecimento ou a inércia, para o que também contribui como causa e efeito a falta de recursos, e tem dificuldade em preencher as funções a que se propõe; os comerciantes filatélicos são escassos, dispersos, frequentemente pouco visíveis e sem os conhecimentos que a filatelia exigiria.
Ao haver este hiato entre a "massa" e a "elite" dos coleccionadores esta deixa de o ser, por muito que a sua autoestima se agarre a esse epíteto, e aquela desfoca-se em relação à evolução mundial do coleccionismo.
E apesar desta situação tão angustiante temos filatelistas experientes, atentos à situação, combativos, dialogantes, bons pedagogos, empenhados na divulgação da filatelia, abertos à inovação, capazes de se empenharem com inteligência e abnegação. Temos várias publicações filatélicas de bom nível com artigos interessantes e elucidativos, virados para circulos específicos. Temos por esse País fora mais de uma centena anual de acontecimentos sociais ou filatélicos que dão lugar à emissão de carimbos ou de inteiros postais. Temos uns CTT que têm revelado uma grande preocupação na qualidade das emissões e que à sua maneira têm investido na divulgação do selo português. Temos coleccionadores que vão construindo e reconstruindo com entusiasmo as suas colecções e estas são reconhecidas internacionalmente como válidas.

3. Passar desta constatação de factos para a explicação das suas razões não é fácil e não somos nós (co-responsáveis, como qualquer um, desta situação e com uma experiência acumulada nestas andanças manifestamente insuficiente) que conseguiremos encontrar os remédios adequados. De filatelia só sabemos que pouco sabemos, como diria Sócrates se na sua época tivesse tido a oportunidade de ser filatelista.
Também não é apontando o dedo a este ou aquele ou esperando que "os de cima" resolvam o problema - como se "os de cima" soubessem ou quizessem mais do que nós, como se as dificuldades daqueles conseguissem justificar a nossa inércia - que iremos a algum lado. É certo que a modéstia, o diálogo, a conjugação de esforços, a iniciativa, a perspectiva estratégica e o entusiasmo são valores importantes para a superação desta situação e que por vezes não existem onde seria de esperar, mas cambaleante anda a nossa vontade se tão pequenas dificuldades nos impedem de continuar.

4. Apesar das dificuldades em encontrar linhas de actuação possíveis de resolver, ou começar a atenuar, estes problemas não podemos terminar sem aqui depositar algumas sugestões, que devem ser lidas com benevolência e espírito crítico.

a) É fundamental a publicação de uma revista filatélica de ampla difusão com uma organização e apresentação que capte esse público bastante vasto que poderá estar aberto à sua aquisição. A experiência passada e o desrespeito que algumas empresas manifestaram pelos filatelistas portugueses aconselham que uma tal iniciativa resulte de uma conjugação de esforços de estruturas sem fins lucrativos, embora se deva fazer um estudo económico cuidado da sua viabilidade

b) É importante o aumento do número de páginas na Internet sobre filatelia, assim como a criação de grupos de discussão utilizando esse mesmo meio. Seria aconselhável que as associações filatélicas tomassem uma tal iniciativa, pois é um relevante meio de divulgação, sobretudo entre os jovens, a baixos custos.

c) Promover a assinatura de protocolos entre entidades filatélicas e estruturas ligadas ao ensino (desde escolas do ensino básico e secundário ao Ministério da Educação) que gere iniciativas de divulgação da filatelia entre a juventude: de concurso de páginas filatélicas na Internet com o prémio de os vencedores irem a uma grande exposição internacional a cursos para professores sobre as funções pedagógicas da filatelia; de concursos de história, geografia e outras ciências utilizando os selos até à criação de jogos interactivos; de tudo o que for possível até ao que a imaginação permitir.

d) Estudar com os CTT a possibilidade do envio dos selos aos subscritores ser acompanhada de um desdobrável de quatro páginas com o tratamento de assuntos filatélicos.

5. Para que se possa fazer um plano de acção de mobilização para a filatelia, de mobilização dos coleccionadores actualmente existentes para outras formas de filatelismo, é fundamental, imprescindível, conhecermos científica e pormenorizadamente esse mundo. De quem são às razões da sua actividadea. Do tempo disponível aos seus gostos. Dos contextos sociais e geográficos aos níveis culturais. Da idade e sexo às opções estéticas. Dos hábitos de trabalho às práticas de lazer. Dos incentivos ao coleccionismo aos obstáculos que lhe são criados. Das práticas associativas às relações inter-individuais. Enfim é preciso fazer um estudo científico da actividade filatélica. E quem melhor o poderá fazer que uma Universidade em parceria com os CTT e todos os envolvidos na actividade filatélica?



Editorial 028 - 1998/04