Coisas e Loisas de Rir e Chorar

Monopólios contra quem?
Os monopólios, isto é, grandes empresas que controlam os mercados, impondo a suas regras de jogo, são uma permanente ameaça à vida dos cidadãos e das instituições. Manipulam os preços, desequilibram a oferta e a procura, impõem regras às instituições, alteram as tradições, jogam com o poder político, especulam, corrompem. Também se podem comportar educadamente, polida e eticamente, mas só enquanto os seus objectivos coincidem com os outros, o que certamente não será por muito tempo, pois os dos monopólios é obter o máximo lucro e o dos consumidores é serem bem servidos a preços convidativos.
É por isso que as informações sobre o crescimento da Afinsa (fusões com outras empresas filatélicas e compra de outras) não são para nós, modestos consumidores, motivo de satisfação ou de falso orgulho ibérico, mas antes de grande preocupação. Sobretudo para nós portugueses. Os nossos comerciantes são pequenos, economicamente enfraquecidos e sem grandes rasgos de futuro. O único catálogo de selos portugueses especializado, e portanto o que decide das cotações no mercado nacional, é da Afinsa. Todas as estruturas filatélicas, deste ou daquele tipo, acabam por estar dependentes das benesses que ela distribua.
Um leitor interrogava-nos sobre certos contratos comerciais firmados pela Afinsa em que selos apareciam como garantias. A última revista Eco, de Março de 1998, chamava a atenção para o facto da Afinsa ser a única instituição capaz de fazer alterar as cotações dos selos em Espanha e que estava a actuar nesse sentido para peças filatélicas escolhidas criteriosamente ("desde que Afinsa se introdujo en su mercado se han revalorizado hasta alcanzar precios que en su momento nadie habría imaginado").
A preocupação não resolve os problemas mas revela a nossa consciência das situações.

Paixão à cultura

Arraiolos, um local sereno de casario branco, onde os cidadãos ainda têm tempo, entre fomes e lutas, para ver nascer a flor e admirar a sua beleza. Berço de artesanato cuja fama se espalhou um pouco por todos o País é ainda a referência, onde se guardam as raízes, a perícia secular e uma forma bem própria de estar na vida.
O domingo e o calor acariciam a vila num balancear lento. Turisticamente olhamos tudo e todos com a melancolia de não participar naquela tranquilidade de vontades firmes.
Na praça principal, à distância, uma porta escaqueirada parecia anunciar a presença de selos num convite a um contacto amigo. Convicto que só poderia ser miragem construída por aqueles raios solares quase a pino, caminhamos na procura da descoberta. A pouco e pouco as incertezas desvaneciam-se e ali estava o senhor António Marques apaixonado pela filatelia e o coleccionismo em geral, com um enorme coração de camaradagem para com os jovens, procurando incutir-lhes conhecimentos, amor e cultura.
E assim encontrava, onde menos esperava, uma porta aberta à filatelia onde a fraternidade não é palavra vã. Mais uma vez a filatelia se associava a elevados valores cívicos, intelectuais e morais.

Selos, para quê?

Selar filatelicamente faz parte do quotidiano dos filatelistas. Compreendendo o significado dos selos, estimando a sua utilização, defendendo a sua promoção, denunciando o seu aviltamento aos balcões dos Correios, não perderão uma oportunidade para utilizar os selos, bem seleccionados, dispostos e colados, na correspondência que enviam.
Não é necessário invocar o artigo terceiro do Código de Ética do Filatelista para compreendermos o interesse de selar filatelicamente: "A solidariedade filatélica constitui um dever dos filatelistas e é inseparável do respeito pelos interesses da Filatelia, nela se compreendendo a permuta de informações. a entreajuda e o incentivo mutuo." É uma atitude que faz parte da nossa maneira de estar e coleccionar.
É certo que o quotidiano passa a grande velocidade, o tempo é pouco, é mais prático deixar os Correios colocarem uma feiosa e sempre igual etiqueta mecânica. Tenhamos, contudo, consciência que nesse afogadilho, sobretudo das grandes cidades, se vão os mais elementares actos de solidariedade, se diluem as nossas relações com o próximo, se esgotam as nossas capacidades para viver a vida. Ternura, carinho, amor passam a ser tomados em comprimidos, ou cumpridos entre as tarefas inscritas na agenda.
Todos sabemos que os altos dignatários da filatelia portuguesa, abnegando dos encantos dos ócios, são guardiões do templo filatélico. Têm pouco tempo disponível. Tão pouco tempo e consideração que se esquecem de selar filatelicamente a sua correspondência.. "De cima vem o exemplo" mas este é melhor não seguirem!

Objectos de cultura
A "Associação Internacional dos Editores de Catálogos de Selos e Publicações Filatélicas" está a desenvolver esforços, com o envolvimento da União Postal Universal e da UNESCO para que os selos sejam declarados como objectos de cultura, com as consequências que lhe são inerentes, desde fiscais à de valores sociais a preservar.
É na mesma linha de preocupações que a ONU emitiu selos exaltando a importância da filatelia.


Editorial 027 - 1998/03