Aqui Estamos, Entre Sóis e Brumas

Valeu a pena um ano de dedicação à Filatelia em Portugal, mais de um milhar de horas dedicadas ao trabalho, muitas centenas de cartas escritas, algumas dezenas de contos gastos, centenas e centenas de páginas escritas com belas imagens filatélicas consumidoras de bytes de disco?
A resposta é inequívoca. Foi bom, foi belo e se voltassemos atrás fariamos novamente o mesmo.

Durante este ano aprendi mais como filatelista que durante muitos anos antes de solitário e empenhado coleccionismo.
Durante este ano conheci amigos maravilhosos, desde filatelistas com uma longa e rica história de actividade associativa a anónimos ajuntadores de selos que encontraram alguém a quem perguntar alguma coisa, desde informáticos inveterados a quem nunca tocou num computador.
Durante este ano redescobri o mundo maravilhoso do relacionamento humano atravessando países, idades, raças e classes numa fraternidade construída em torno desta vontade comum de sermos felizes, de construirmos os nossos espaços de lazer, tranquilidade e cultura.
Durante este ano reforcei a minha convicção de que ser cidadão da europa e do mundo exige a preservação deste sentir e amar que é bem português.
Durante este ano confirmou-se plenamente que as funções que a Filatelia em Portugal pretende preencher têm um espaço e são importantes.

Nascemos anónimos e hoje somos conhecidos mundialmente.
Nascemos com muito pouco para oferecer e hoje é um dos espaços de informação filatélica mais rica.
Nascemos com esperança e a ela mantemo-nos apegados.

Assistimos a pessoas alheias à filatelia percorrerem os textos e imagens e descobrirem que aquela era muito mais do que tinham pensado, era um estar atento ao mundo e nele descobrirem recantos e pinceladas que só a poesia sabe desvendar.
Assistimos a alguns iniciando-se no coleccionismo e que encontraram na minha caixa do correio o local para depositarem perguntas simples mas fundamentais: "os selos carimbados valem alguma coisa?", "para que servem os carimbos?", "colecciono novos ou usados?".
Assistimos a coleccionadores experimentados encontrarem novas dimensões da actividade filatélica.

Mentiríamos, e nunca o fazemos, se apenas registássemos o passado com cores que nos despertam os mais nobres sentimentos.
Alguns continuam a ver-nos como terríveis adversários dos moinhos de vento enquanto outros afirmam cientemente que o silêncio é a melhor forma de diálogo.
Alguns encontraram novas formas de expandir a sua inata ignorância enquanto outros provavelmente admitem que a Internet é obra diabólica.

Temos muita dificuldade em compreender que os comerciantes filatélicos tenham um espaço gratuito para divulgarem os seus negócios e não façam, que os clubes possam promover as suas iniciativas e não o aproveitem, que os estudiosos da literatura filatélica não divulguem os seus conhecimentos.
Temos muita dificuldade em compreender que recebamos revistas de vários países do mundo, algumas das quais nem conhecíamos, para as divulgar na Filatelia em Portugal e os editores portugueses encontrem mil esquecimentos ou justificações para não promoverem as suas revistas.
Temos muita dificuldade em compreender que exista tanto escárnio e maldizer, tantos desencontros entre dirigentes filatélicos que cultivam os mesmos nobres ideais.
Temos muita dificuldade em compreender tudo isto que preferimos ficar ignorantes e vacinados.

Mas a última frase só pode ser de esperança. Daqui a um ano aqui estaremos, com muitos e muitos mais amigos e colaboradores, para fazer novamente o balanço.


A022/#25
1997/12