Olimpismo, Prepotência e Filatelia
Estas são algumas das últimas peças emitidas em Portugal relacionados com os Jogos Olímpicos. É um belo material filatélico que todos analisam com agrado, filatelistas ou não. Tal não será de estranhar. Os Jogos Olímpicos são, utilizando uma terminologia em voga, património desportivo e cultural da humanidade.
- As primeiras disputas de atletas ocorreram na Grécia, há 2500 anos. Realizavam-se na cidade de Olímpia, em honra de Zeus, o pai dos deuses. Ocorriam de quatro em quatro anos, entre 6 de Agosto e 19 de Setembro, e ocupavam um lugar importante na vida grega. O primeiro campeão olímpico a ser inscrito na lista dos recordes foi Coreobo que venceu o dromo ou estádio, em 776 a. C. Os jogos gregos estavam integrados na festa religiosa e teriam sido fundados por Hércules. A duração e o número de provas foram aumentando até ocupar cinco dias, num total de 14 competições: corridas de carros de cavalos (a mais nobre), de carros de mulas, e de cavalos de sela; pentatlo (disco, dardo, corridas pedestres, luta e saltos), dromo (uma volta ao estádio), diaulo (duas voltas ao estádio), dólico (24 vezes o comprimento do estádio), provas de luta, pugilismo e pancrácio (espécie de luta livre). Na cerimónia de abertura os juízes juravam não falsificar os resultados. No encerramento, todos presidiam ao banquete final e coroavam os vencedores. O prémio era uma coroa de oliveira brava, árvore simbólica de Hércules.
No século II a. C., a Grécia foi subjugada por Roma. Enquanto os Gregos se dedicavam com grande entusiasmo ao desporto, para assim homenagearem os seus deuses, os Romanos preferiam praticá-lo como preparação para a arte de manejar as armas. Os Romanos em vez dos estádios Gregos utilizavam circos. Os Gregos organizavam os jogos para os atletas e os Romanos para o público. Os primeiros destacavam a competição e os segundos preferiam o entretenimento. Os Jogos Olímpicos foram abolidos em 393 d. C. pelo imperador cristão romano Teodósio I por serem festivais pagãos.
Em 1887 o barão Pierre de Coubertin concebeu a ideia de fazer reviver os Jogos Olímpicos e passou sete anos a preparar a opinião pública francesa, inglesa e americana no sentido de apoiarem a sua ideia. No congresso internacional de 1894, o seu plano foi aceite sendo fundado o Comité Internacional Olímpico. Os primeiros Jogos Olímpicos modernos realizaram-se com o patrocínio do rei da Grécia, em Atenas, a 5 de Abril de 1896, numa homenagem à origem dos jogos. Para a ocasião foi construído um novo estádio. Os treze países participantes enviaram cerca de 300 representantes que participaram em 42 provas de 10 desportos diferentes. O renascimento dos Jogos Olímpicos levou à formação de Comités Olímpicos Nacionais espalhados pelo mundo.
Desde esta altura que se realizam os jogos em diversas cidades e com a periodicidade antiga (apenas interrompida pelas duas Grandes Guerras) e se continua a acender em Olímpia o facho que arde durante as celebrações. A realização dos Jogos Olímpicos está a cargo do Comité Olímpico Internacional com sede na Suíça. O seu símbolo (cinco círculos que se entrelaçam) traduz a sua extensão aos cinco continentes. Não existe idade limite para a participação nos Jogos Olímpicos e não é praticada a discriminação de raça, religião ou ideologia política. Os jogos são disputados entre pessoas e não entre países. Os jogos de Inverno mantêm-se em separado desde 1924. Os Jogos Olímpicos de Verão contêm pelo menos 15 desportos: tiro com setas e arco, provas de atletismo, basquetebol, boxe, canoagem, ciclismo, desportos equestres, futebol, ginástica, andebol, judo, natação, ténis de mesa, ténis, voleibol, saltos para a água, esgrima, hóquei em campo, pentatlo moderno, remo, tiro, halterofilismo, pólo aquático, luta livre e vela. As mulheres podem participar em todos os jogos, excepto: boxe, futebol, pentatlo moderno, pólo aquático, halterofilismo e luta livre. A Aldeia Olímpica foi pela primeira vez criada em Los Angeles em 1932 e tem por objectivo alojar os concorrentes e as equipas oficiais, situando-os perto do estádio principal.
A história dos modernos Jogos Olímpicos pode ser dividida em quatro períodos: desde o renascimento dos jogos até ao eclodir da I Guerra Mundial, o período entre as duas guerras, do recomeço dos jogos em 1945 até aos jogos de 1968, e um último período, a partir de 1972.
(Diciopédia - Grande Dicionário Enciclopédico Multimédia, 1997, Porto, Porto Editora)
As administrações postais dos diversos países, respondendo aos mais diversos ditames (estéticos, comerciais, filatélicos, provenientes de uma vontade estatal ou das sugestões e recomendações de todos quantos se interessam por estas coisas), têm emitido milhares de selos sobre esta temática, numa imensa liberdade criadora que a todos engrandece. Todos os filatelistas terão os seus pontos de vista sobre a qualidade e oportunidade dos materiais emitidos, felizmente existe muita divergência de opiniões mas é nessa diversidade que a sua riqueza humana.
Mas a prepotência e as tendências ditatoriais, normalmente associadas a chorudos negócios e procurando apoio num aparente bom-senso, espreita, ameaçando a todos nós. O Departamento de Filatelia do Comité Olímpico Internacional pretende impor, contra tudo e contra todos, regras:
- Só podem emitir selos os países que têm um comité olímpico e participam nos jogos.
- Só se poderá emitir uma série até quatro selos e com valor facial não superior a dois dólares americanos
- Não se podem emitir blocos ou outros documentos filatélicos, embora se possam emitir «selos em folha de ouro ou prata» desde que autorizados
- Todas as emissões devem obedecer ao Código Filatélico de Ética da UPU
- Todos os desenhos têm de ter aprovação prévia, sendo os cinco aros um símbolo «privado» sujeito a direitos de autor.
As obras pictóricas de Rubens seriam hoje tão conhecidas se só países em que aquele poeta viveu pudesses emitir selos sobre a sua obra? O Natal seria tão universalmente festejado filatelicamente se só os países com uma dada estrutura cristã pudesse emitir selos e tivesse de sujeitar ao Papa as imagens a figurar nos seus selos? Não será a diversidade de materiais filatélicos, incluindo os blocos, uma das riquezas e alegria dos filatelistas? Não se vislumbra na aprovação prévia e nos selos em folha de ouro e prata as fumaças do negócio e da corrupção?
Na liberdade cada um decide livremente. Na prepotência todos são manietados.
Algumas entidades já se manifestaram contra estas regras e afirmaram que não as respeitarão. É a única atitude possível. Não nos podemos calar. Junto de todos devemos manifestar a nossa indignação.
A015/#17
1997/04