Fronteiras de uma Colecção (III)

Carlos Pimenta

Do FDC de Timor
Primeiros selos de Timor Lorosae.Parte do Envelope de 1º Dia de emissão.

1. No último Cantinho do Filatelista falámos na possibilidade de uma colecção clássica de todo o mundo, verdadeira "jóia da coroa". Entusiasmante para alguns está fora do alcance de muitos, quer pela especialização de conhecimentos filatélicos que exige quer pelo preço de mercado dos selos que a poderão constituir.
Para mais uma vez ilustrar que tudo é possível em filatelia referimos hoje uma variante bem mais acessível, mas não menos interessante. O século XX, sobretudo após a II Grande Guerra e, depois, acompanhando o fim da URSS, assistiu a um grande movimento social e político de formação de novos Estados independentes. Uma das manifestações iniciais de afirmação da sua capacidade de decisão própria passou pela emissão dos seus próprios selos. Ora aí está uma possibilidade: colecção universal dos primeiros selos de novos países surgidos nos séculos XX e XXI.

SeloSelo
Benin. Colónia francesa torna-se independente em 30 de Novembro de 1975. Este série pertence à primeira série, de três selos, emitida por este país, em 1976.Moçambique. Um dos 19 selos emitidos após a independência, colocando uma sobrecarga sobre selos do período colonial.

Dentro desta temática genérica há várias possibilidades diferentes de concentração da atenção. Juntar todas as primeiras emissões de selos desses países optando por selos novos é a primeira hipótese. Acrescentar-lhe selos circulados e cartas que funcionaram como correspondência efectiva é um acréscimo interessante, eventualmente procurando o carimbo com a data mais próxima possível do dia de consagração da independência.
Associado a este coleccionismo está o conhecimento da geografia e da história desses países. A eles se pode acrescentar um pouco de estudo da sua história postal.
Se o simbólico não lhe passa despercebido os selos são um excelente material de estudo. Tentar compreender sociológica, psicológica e simbolicamente os motivos dos selos é, sem dúvida, um interessante trabalho de investigação, é a explicitação do significado (real) do processo de independência.

2. Se o gosto pelos selos de todo o mundo é muito forte mas temos um carinho muito especial pelo nosso cantinho europeu à beira mar plantado porque não coleccionar o que todos os países, em alguma época, analisaram de Portugal? Que países emitiram peças filatélicas sobre acontecimentos relacionados com o nosso país? Como foram visto por esse mundo as navegações portuguesas? E a emigração? E os escritores portugueses, a começar por Camões e Pessoa? E os prémios Nobel entregues a portugueses (Egas Moniz e José Saramago)? E os acontecimentos que se deram em Portugal, como a EXPO'98 ou a exposição filatélica internacional PORTUGAL'98, como foram vistos em selos e carimbos pelos outros países?

EXPO´98
Esta exposição mundial realizada em Lisboa fez parte integrante das comemorações do Ano Internacional dos Oceanos. Muitos foram os países que emitiram selos no âmbito destas comemorações, que também se referiram à Expo'98.
CarimboCarimbo sobre selo
Carimbo da Administração Postal da Namíbia, colocado no respectivo pavilhão.São Marino. O interessante é o carimbo, colocado no pavilhão deste país na EXPO'98.Brasil emitiu dois carimbos comemorativos, um utilizado no pavilhão na EXPO'98 e outro na Praia do Forte na Baía.

De FDC
Espanha. Selo e carimbos (Madrid e Barcelona). Utilizaram o mesmo selo e envelope para colocarem carimbo comemorativo de PORTUGAL'98. Há três séries de selos autocolantes de máquina também dedicados à EXPO'98

Parte de blocoParte de bloco
Parte do bloco do Uruguay simultanemante dedicado ao Ano Internacional dos Oceanos e a dois acontecimentos portugueses: EXPO'98 e exposição filatélica Ambiente'98. O bloco contem quatro selos diferentes.Parte do bloco de S. Tomé e Príncipe referente ao evento. Esta administração postal emitiu ainda 5 selos, parte de folhas de quatro em que nas margens também tem dizeres referentes à EXPO'98

BlocoSelo
No âmbito do Ano Internacional dos Oceanos, e com referência expressa à EXPO'98, a Bulgária emitiu um bloco que mostra figuras (Vanco da Gama) e acontecimentos ("Descobrimentos") portugueses. Parte do bloco. Note-se que estamos perante dois selos e duas vinhetas.Mónaco emite 2 selos, em pequenas folhas, com motivos de Lisboa e referência à EXPO'98

Outras Emissões
Andorra FrancesaSelo
Angola6 selos
ArgéliaBloco
Coreia do NorteEXPO'98 (carimbo), Portugal'98 (bloco - denteado e não-denteado), figuras e acontecimentos da história de Portugal (bloco, outro - denteado e não denteado).
Cuba4 Selos com referência (errada) a "Exposição Mundial LISBOA'98"
FilipinasSelo, bloco carimbo dedicados à EXPO'98
MacauSob administração portuguesa, emite selos e bloco sobre "Os Descobrimentos, Os Mistérios, Os Recursos em Extinção"
MoçambiqueSelos com referência à Expo'98
VenezuelaBloco composto de 10 selos diferentes em que cada um tem uma referência à Expo'98

Enfim, um sem número de perguntas cuja resposta pode dar lugar a uma colecção com o tema Portugal no mundo.
Um conhecimento da realidade portuguesa é o ponto de partida. Um catálogo de selos de todo o mundo um instrumento de trabalho indispensável. A correspondência com coleccionadores de outros países um exercício aconselhável.

3. Stefano Adinolfi diz-nos "comecei a coleccionar selos em 1973, quando tinha dez anos, e felizmente nunca passei do estágio de coleccionador de selos do mundo. Compreende, a minha colecção de selos não é mais do que um aspecto da minha maior paixão: geografia". Por isso coleccionada selos e "cinderelas" (etiquetas que parecem selos mas que não foram criadas para franquiar correspondência) procurando ter "pelo menos um selo de cada estado emissor, cidade, ocupação, etc., passado e futuro".

Cinderela

A UNITA emitiu um simulacro de selo, sem valor legal porque não representa nenhum Estado? Interessa-lhe. Durante um determinada guerra uma cidade colocou uma sobrecarga nos selos então em uso e estes foram efectivamente colocados na correspondência? Interessa-lhe. Um governo no exílio emitiu "selos" como forma de propaganda? Interessa-lhe.
Eis uma colecção em que não basta consultar os catálogos ou ter um inventário geográfico dos países de todo o mundo.
A demonstrá-lo está a página na Internet por ele criada há vários anos. Se tem um selo, ou o que julga sê-lo e não consegue identificar donde é e quando foi emitido, envie a imagem e formule a pergunta. Alguém encontrará as suas interrogações e procurará dar uma resposta. Uma página na Internet diferente do habitual, altruísta, onde encontrará centenas de referências a regiões do mundo de que provavelmente nunca ouviu falar:

www.raster.it/stefano/a/hyciywsaatsthopo.htm

Carta circulada
Pergunta: Tem alguma informação sobre esta carta. Parece ter origem numa prisão russa, de onde eram mandados para a Alemanha, onde recebia um carimbo americano. Provavelmente chegou a Itália.
Resposta: Estou convencido, atendendo à colocação dos selos na carta, que todos os selos foram colocados ao mesmo tempo. A carta veio da Zona Americana no Sudoeste Alemão (Munique) e não tem nada a ver com a Rússia ou os russos. Os selos no cimo são provavelmente etiquetas (não verdadeiros selos) de um Campo D.P. (Pessoas Deslocadas). Quem enviou era provavelmente um trabalhador forçado ukraniano


4. Terminemos estas referências a possibilidades de colecções de selos de todo um mundo, com ou sem fronteiras com a filatelia temática que abordaremos em futuras conversas, com algumas palavras sobre o coleccionismo de erros.
Os filatelistas apreciam muito os erros. Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira afirma-se, com alguma piada:
Um erro, em gramática, é um solecismo; em teologia pode chegar a ser uma heresia; em poesia chama-se um "pé quebrado"; em música é uma desafinação ou "fifia"; em pintura é causa de riso; em arquitectura é causa de ruína; no comércio pode invalidar um contrato; em FILATELIA pode valer uma fortuna.

Há erros e erros. Dessa forma podemos designar coisas diferentes.

Selo com erro de impressão
Selo da Companhia do Nyassa com centro invertido

Podemos estar a referir-nos a um selo em que faltou imprimir uma cor, um selo em que a serrilha saiu toda torta ou atingiu a imagem, um selo em que uma parte da imagem ficou por emitir, a sobrecarga que ficou invertida. É o que imediatamente vem à ideia quando se fala em erro. E porque frequentemente há muito poucas peças nessa situação a sua raridade provoca aumento, quantas vezes especulativo, dos preços.

Selo com erro de concepçãoSelo com erro de concepção
Emitido em 1964 pelo Brasil recordando o Papa João XXIII, em aniversário da sua morte. Contem dois erros. (1) Em latim não é MEMORIAN, como está escrito, porque a última letra deveria ser um M. (2) O retrato mostra o Papa com "barrete cardinalício" e não com o obrigatório "solidéu" branco, específico do PapaEmitido em 1998 por Portugal. A bandeira italina tem as cores ao contrário

Também podemos estar a referir-nos a deficiências de concepção dos selos. Selos, carimbos, inteiros postais ou outro tipo de peças que pretendem reflectir uma determinada realidade mas o fazem de forma deficiente, por ignorância, circunstâncias acidentais ou vontade expressa de deformação:
Os erros de desenho são bastante raros e resultam sempre da ignorância ou falta de cuidado do desenhador quanto ao motivo do selo. Assim um exemplo flagrante passou-se com o selo de 18 cents da emissão de 1932 das Ilhas Filipinas. O selo representa uma vista de uma queda de água que se identifica na base como se fossem as Cataratas de Pagsanjan, mas na realidade o que se reproduz no selo são as Cataratas de Vernal de Yosemit Park, na Califórnia, a milhares de quilómetros de distância das Filipinas. O desenhador não se deu ao cuidado de verificar a autenticidade da fotografia que iria reproduzir no selo.
Outro erro curioso passou-se com o selo de 2 dinheiros com a efígie do rei Jorge VI, da emissão de 1938 das Ilhas Fiji, em que figura um mapa do arquipélago com os meridianos e paralelos assinalados. Porem no meridiano que assinala a mudança de data e que passa sobre a Ilha Taveuni, não vem mencionada, na base do selo, a indicação de ser o meridiano de 180 graus. Em 1940 gravou-se novamente a matriz e apareceram, novos selos, idênticos aos de 1938, mas com o erro rectificado (Cabaço, in A Filatelia Portuguesa, Artigos).

Segundo René da Silva o primeiro erro deste tipo aconteceu em 1847 com um selo da Ilha Maurícia em que aparece "Post Office" em vez de "Post Paid".
Yvert et Tellier emitiu um catálogo de erros de todo o mundo, da autoria do estudioso Jean Pierre Mangin. Poderá ser o ponto de partida para o estudo dos tipos de erros que existem e, eventualmente, o início de um novo tipo de colecção.

5. Como se vê, possibilidades não faltam. Agora é meter mãos à obra...

Bibliografia
FERRÉ, Nestor M.
"Temas Argentinos en los Sellos Postales Extranjeros y Temas Extranjeros en los Sellos Postales Argentinos"
A Filatelia Portuguesa, Nº 95, Outubro de 2000., pág. 53/56
PIMENTA, Carlos
"A Filatelia e a Informática - Troca de Experiências"
Jornal de Filatelia, Nº 53, Março 1999, pág. 28/30
SILVA, René Rodrigues da
"Os Primeiros - I Parte"
Boletim do Clube Filatélico de Portugal, Nº 389, Setembro 2000, pág. 25/30




A009/#141
2001/05
Escrito para Magazine de iBazar. Não chegou a ser publicado.