Fronteiras de uma Colecção (II)

Carlos Pimenta

1. Na nossa última conversa tratámos das fronteiras que devem orientar a realização de uma colecção de selos.
A recente publicação das estatísticas de emissões do ano 1998, o último para qual há um apuramento completo, mais uma vez o confirma: 13140 selos e 1235 blocos. O lastimável campeão é Grenada e Grenadines com 307 selos num ano e 55 blocos - um pequeno país no Mar das Caraíbas com 344 K2 e menos de 100 mil habitantes - e administrações postais mundialmente importantes não deixam de também estar presentes: Japão ocupa a 22ª posição e os EUA a 31ª.
Não é possível coleccionar tudo, temos de seleccionar.
Como?
Podemos pegar nos regulamentos, podemos seguir o exemplo de outros coleccionadores mais experientes, podemos optar por soluções que nos parecem mais fáceis.
Foi por alguns desses terrenos que caminhamos no último mês. Por aí vamos continuar partindo de um conjunto de ideias orientadoras: (1) As nossas colecções do futuro são o resultado da nossa aprendizagem, num ziguezaguear por encantamentos e erros; (2) A experiência dos outros é muito importante e deve ser analisada, mas as nossas decisões são essencialmente orientadas pelos nossos gostos e imaginação.

Carimbos
Carimbo 1 Carimbo 2Carimbo 3
Carimbo de franquia da Direcção Geral de Correios e Telégrafos de 1886. Espanha. (De SCHIER, 2000, 62)Carimbo de Recurso usado quando da greve dos correios de 1920, em Portugal (De NFACP, 2001, 13)Carimbo Comemorativo Temporário representando o Palácio de Queluz. 1990/05/18. (De Filatelia em Portugal)

De nada serve lermos sobre o encanto da marcofilia (coleccionismo e estudo dos carimbos) se não tivermos prazer em olhar os carimbos, sem a cor que tanto embeleza os selos.

Peça pré-filatélica
Carta Circulada
Marcas do Seguro do Correio, cujo período de utilização conhecido é de 6 de Março de 1802 a 1 de Setembro de 1808. Porto, 6 de Março de 1802 para Lisboa; registe-se que o expeditor escreveu no canto inferior esquerdo "extord", querendo significar que devia seguir pelo Extraordinário para Lisboa (in Frazão, 97, II-pag. 41)


De nada serve sabermos do muito que há a explorar em Filatelia Marítima (coleccionismo e estudo de peças pré-filatélicas - antes do uso do selo na correspondência - e filatélicas que utilizaram o transporte marítimo) se a investigação histórica não é o que mais nos encanta. O gosto também se educa e essa é também uma das funções do coleccionismo.

2. Jean L. Balinki, psicólogo, num artigo intitulado "Coleccionadores de Selos: A Próxima Geração", cuja leitura aconselhamos a todos os pais e pedagogos que se preocupam com estas temáticas, diz em determinada altura:

"Não é aconselhável mostrarmos a nossa própria colecção ao potencial coleccionador. As crianças são desarrumadas, com mãos inábeis, e a nossa ansiedade com os possíveis prejuízos transmite-se à criança, transmitindo pelo menos uma certa tensão. Esperar que a criança olhe e não toque faz com que a colecção seja outra coisa perante a qual o adulto está a dizer à criança o que não deve fazer."


Anedota
Contingências da Aprendizagem
(A evitar)
Não, o meu Santo António NÃO fica melhor sem qualquer serrilha.


Para Gaston Bachelard, grande filósofo francês, que atribui ao devaneio uma função de construção racional do saber, mostra quanto as regras atrofiam a imaginação:
"a imagem adquirida nos livros, vigiada e criticada pelos professores bloqueia a imaginação"

logo, afectando seriamente a formação integral do indivíduo.

Um dos grandes poetas portugueses, José Régio, recentemente homenageado filatelicamente, cantou magistralmente essa construção do nosso próprio ser e querer:

Selo com José Régio"Vem por aqui " - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
(...)
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!
Selo representando José Régio. Integrado no bloco Vultos da História e da Cultura Portuguesa, emitido em 20/02/2001


O lúdico não se impõe. Usufrui-se.
Se o ponto de partida é o "gosto pelos selos", começa-se por olhar para todos os selos que nos chegam às mãos, procura-se o maior número de selos, ficamos ligados a todos eles de uma forma afectiva.
O ponto de partida dos coleccionadores é quase invariavelmente coleccionar selos de todo o mundo.
E o que me é respondido pela grande maioria dos visitantes de A Filatelia em Portugal, quando se lhes pergunta o que coleccionam: "selos", "todos os selos", "selos de todo o mundo".
É a partir dessa base que se começa a seleccionar, a descobrir as hipóteses de uma colecção temática, a educar o gosto. De início pega-se na tesoura sempre que se vê um selo numa carta, para o separar no resto, depois começa-se a ver atentamente o carimbo e o percurso feito pela carta, encontra-se beleza mais na relação social que a carta permitiu que no seu aspecto.
Falemos pois, um pouco, de coleccionar todo o mundo.

Em todos os países encontramos peças filatélicas bonitas
Inteiro Postal
Inteiro postal belga emitido em 25 de Abril de 1977 comemorativo do Ano Internacional de Rubens. Faz parte de um conjunto de cinco. (25% da dimensão original)
  
Carteira de Prestígio
Capa da carteira de prestigio emitida pela Irlanda em 1993 reproduzindo quadros do impressionismo irlandês. YT C820. (25% da dimensão original)


Fundos Marinhos Polinésia Francesa, 1998Castelo de Almourol.Portugal, 1946. Impressão em Talhe doceEleição de Boumedien, Argélia, 1976


3. Em todo os países encontramos peças filatélicas bonitas. Em todos encontramos histórias curiosas. Em todos há um contexto social que merece ser estudado. Em todos encontramos afinidades com as nossas raízes culturais ou diferenças que nos conduzem à compreensão e à tolerância. Não é, pois, de espantar que num inquérito feito pela Associação Americana de Filatelia se tenha verificado que está a aumentar o número de coleccionadores de todo o mundo.
Contudo, "coleccionar de todo o mundo não significa necessariamente coleccionar todos os selos de todos os anos e de todos os países (...). Muitos de nós limitamos de alguma forma as nossas colecções sem no entanto caber nas categorias tradicionais da filatelia", afirma um antigo presidente da Associação de Coleccionadores de Selos de Todo o Mundo, com sede nos Estados Unidos da América.
Também aqui se colocam fronteiras. Como traçá-las?
Hipóteses não faltam. Vamos apenas referir algumas, deixando de lado muitas tipificadas, isto é regulamentadas. É o caso das colecções temáticas que englobam peças filatélicas do todo o mundo.

4. Uma primeira possibilidade, provavelmente a mais abrangente, é o que Ana Lúcia Sampaio designa por Colecção Representativa Universal (veja-se seu artigo, com esse mesmo título, em A Filatelia Portuguesa, nº 93, Junho 2000, publicação do Clube Nacional de Filatelia).
Sinteticamente podemos dizer que o objectivo desta colecção é utilizar os selos, os inteiros postais, as cartas circuladas, os carimbos, as carteiras, os blocos, os postais-máximos, as provas, os ensaios, enfim todo o tipo de peças filatélicas, para fazer uma enciclopédia universal em que todos os países estão representados. Para cada país ter-se-ia que conhecer o essencial da sua geografia, da sua história, da sua economia, da sua cultura, da forma de ser e de estar dos seus povos. Depois seria encontrar os selos que pudessem ilustrar essas realidades.
É uma colecção que tem um fio condutor, que tem uma lógica, que pode utilizar todo o tipo de peças filatélicas, que pode exigir muito ou pouco dinheiro conforme as possibilidades do coleccionador e as escolhas que faça, que poderá sempre ser renovada, completada, melhorada. É uma colecção que exige estudo, conhecimento do mundo, leitura de vários livros e visitas na Internet, troca de ideias com correspondentes, atenção às notícias.
É uma colecção que pode ser começada por uns, completada por outros, continuada por descendentes. Desempenha, além do mais, importantes funções sociais:
"As coisas que servem para preservar e vincular presente, passado e futuro. Aquilo que vai ficando de um para outro, crescendo e enriquecendo, podemos considerar como um tesouro precioso, pois além de ser uma herança de cultura, é a continuidade da união familiar, é uma herança de amor e dedicação."

Também pela negativa é possível obter algumas vantagens para este tipo de colecção: certamente não vamos estar interessados em selos que proliferam ao sabor das possibilidades de venda, sem qualquer ligação com as realidades dos diversos países: "selos" de países inventados, "selos" aos milhares sobre acontecimentos mediáticos (Lady Diana, Elvis Presley, etc.), "selos" que foram feitos para nunca serem apostos nas cartas.

O que poderia entrar na colecção representativauniversal e o que certamente não entraria
Selo de África 1Selo de África 2
Este selo foi emitido pelas Ilhas Maurícias em 1975. Não representa a situação no país, com clima tropical húmido, mas reflecte um dos flagelos de África, as secas. Representa uma paisagem típica de, por exemplo, países africanos influenciados pelo deserto de Saara.Este selo da Nigéria emitido quando do Ano Internacional dos Oceanos trata de "animais do mundo" e representa uma zona polar. Sabendo-se que Níger é um país africano, muito quente e seco, uma tal representação é profundamente ridícula.


Para fazermos uma colecção destas é necessário gosto de conhecer, uma boa enciclopédia, formas de obter informações dos diversos países. Um catálogo de selos universal, folhas de cartolina para montar um álbum e os tradicionais instrumentos de "trabalho": pinça, lupa, tiras e bolsas de protecção, pelo menos.

5. Outro tipo de colecção universal é a que selecciona de cada país apenas uma parte dos selos emitidos. Se olharmos para um catálogo de selos do fim do século XIX vemos de imediato que o número de selos referenciados não é muito grande. Em dezenas de anos do século passado emitiam-se menos selos que hoje se emite num único.
Fica em aberto a possibilidade de uma colecção universal clássica, por exemplo, colecção de selos de todos os países emitidos durante o século XIX. Ou apenas a primeira série de cada país. Ou qualquer outra combinação.

Peças para uma colecção universal clássica
Selo da Prússia de 1867Ensaio de 1851 de selos da Província do Canadá. Imagem retirada da Internet.


É uma colecção que permite o seu possuidor ingressar na "nobreza da filatelia". As peças - sejam elas selos usados ou novos, cartas circuladas ou carimbos, são difíceis de encontrar, algumas praticamente impossíveis. Exige gastar muito dinheiro e todo o cuidado é pouco na aquisição das peças. Abundam as falsificações, as reimpressões, os selos de difícil identificação, as peças defeituosas cuidadosamente reparadas. O coleccionador necessita de ter grandes conhecimentos filatélicos, isto é, sobre a história postal, os papeis, os processos de impressão, as técnicas de peritagem.
Vários selos do século passado são baratos e fáceis de adquirir, mas o virtuosismo da colecção está na inclusão de peças raras. Algumas são únicas. Outras sabe-se por registos da sua existência mas não se tem a certeza se chegaram a circular. E se possuir um exemplar já é obra de monta em alguns casos seremos rapidamente atraídos pelas variedades do mesmo selo: variedades de tonalidades de cor, variedades de espessura de papel, variedades de chapa de impressão, variedade de marcas de água, etc.

Carta circulada
Carta circulada em que os dois selos da direita são as chamadas emissões missionárias do Havaí, postos a circular em 1851. É uma peça muito rara. Segundo o autor da página web donde foi retirada esta imagem (Post Office in Paradaise) do selo de 2c apenas se conhece um exemplar novo.


6. As duas colecções universais aqui sugeridas são de natureza bastante distinta. Uma de reduzido custo, outra extremamente onerosa. Uma rápida de se constituir, outra exigindo paciente procura durante dezenas de anos. Uma de fácil conservação outra muito exigente nos cuidados a ter. Uma exigindo sobretudo cultura geral, outra requerendo grande conhecimentos filatélicos propriamente ditos.
Suas colecções, dois mundos, mostrando mais uma vez a grande variedade de possibilidades da filatelia, a capacidade de se ajustar às situações mais diversas, os horizontes abertos à imaginação e criatividade.

...
De facto assim é. Ainda tínhamos a intenção de falar de outros tipos de colecção de selos de todo o mundo. Mas tem razão, é preferível ficar para próxima conversa. Não que haja o perigo de se esgotar! Nada disso, mas porque os olhos se cansam de tanto ler. Para cansar já basta o trabalho! Filatelia é lazer...

Bibliografia
FRAZÃO, Luís (1997)
História Postal da Cidade do Porto na Era Pré-Adesiva (1ª e 2ª Partes)Porto, Clube Nacional de Filatelia

NÚCLEO FILATÉLICO DO ATENEU COMERCIAL DO PORTO (2000)
Selos Postais. Portugal, Açores, Madeira e Pré-Filatélicos17ª Edição. Catálogo 2001Porto, Afinsa

SCHIER, Dr. Oswald (2000)
Manual de la Filatelia EspañolaMadrid, Fundación Albertino de Figueiredo para la Filatelia, pp. 475

Poste Belgique
Catalogue Officiel de Timbres-Poste (Belgique, Congo Belge, Ruanda, Urundi, Europa et Idées EuropéennesEdic. 1999, Bruxelas, CPBNTP





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2001/04
Publicado em iBazar (Portugal) - Magazine, Abril 2001