Fronteiras de uma Colecção (I)

Carlos Pimenta

Selo 1Selo 2 Selo 3
123

Selo 4Selo 5Selo 6
456

Selos 7
7

89


1. Todos os anos são emitidos mais de 12000 selos. Sem contar com os blocos, carteiras, variedades, carimbos, postais-máximos, inteiros postais que também são importantes peças filatélicas. Falamos apenas de selos.
É impossível coleccioná-los todos. As contas são fáceis de fazer. Pelos catálogos necessitaríamos de cerca de 5.000 contos anuais para os comprar e 150 dias, de oito horas de trabalho, para os organizar minimamente. Depois de tanto esforço não tirariamos nenhum proveito da sua aquisição: se pretendêssemos vê-los cuidadosamente e usufruir da sua beleza não teríamos tempo; se tencionássemos vendê-los encontraríamos dificuldades e provavelmente perderíamos dinheiro; se tencionássemos utilizá-los para concorrer a exposições competitivas de quase nada nos serviriam.
Está fora de causa coleccionar todos os selos. É necessário fazermos opções, coleccionarmos uns selos, e deixarmos de lado outros. É sobre esta opção de escolhermos um ângulo de abordagem da colecção
"É preciso limitar a sua colecção escolhendo um ângulo. E já que o faz tente casar os prazeres aliando a paixão pelos selos com uma outra. Coleccione o que lhe agrada, o que ama, pois é a única lei para despertar e manter a sua paixão" ("Cas de Conscience, Choisir sa Collection", ATOUT Timbre nº 3)

que vamos falar
Como se afirma em documento recente da União Postal Universal (Guia para o Desenvolvimento da Filatelia) é necessário criar fronteiras em torno das colecções, saber o que faz parte da colecção e o que não faz parte. Porque nós assim queremos, porque assim decidimos.



2. Quando se colecciona existem sobretudo três elementos que podem ser tidos em conta:

- o prazer que a colecção nos dá: prazer em possuí-la, prazer em olhá-la, prazer em procurar aqui e ali informações que nos ajudem a construí-la, prazer em conversar sobre ela, prazer em correspondermo-nos com filatelistas de todo o mundo;
- o significado económico da colecção: aplicação de poupanças, viabilidade de valorização com o passar do tempo e ao ser organizada num álbum, possibilidade de venda futura por um montante superior, valorização superior a outras aplicações alternativas;
- a adequação aos regulamentos: validação da qualidade das peças na base da experiência acumulada pelos filatelistas, consignada nos regulamentos internacionais, possibilidade de participar em exposições competitivas, obter o reconhecimento do publico e dos jurados.

A importância atribuída pelos coleccionadores a cada um destes elementos varia com a experiência que se tenha, com os objectivos que se pretendam atingir, com a idade, com as capacidades económicas que se tem, com as tradições, usos e costumes.
O coleccionador reparte-se pelos três aspectos, podendo essa partilha ser representada num gráfico triangular de opções:


Triângulo das opções



Se predomina o prazer estamos na região vermelha, se predominam as preocupações económicas estamos na região verde, se predomina a preocupação com os regulamentos estamos na região azul.
Quando se inicia o coleccionismo normalmente atribui-se pouca ou nenhuma importância à regulamentação, até porque as desconhecemos, tendemos a empolar a vertente económica (frequentemente com pouca informação para se poder decidir) e o prazer é algo presente, mas de que não temos plena consciência.
Porque a nossa preocupação neste cantinho do filatelista é essencialmente contribuir para a difusão da filatelia entre quem gostaria de a praticar mas ainda anda à procura de rumo, ou ajudar quem se inicia, propomos que teçamos as considerações seguintes admitindo que nos situamos na região vermelha.

3. Comecemos por observar os selos acima representados, escolhidos um pouco, não totalmente, ao acaso entre os nossos selos armazenados nos classificadores ou nos álbuns. Temos selos de vários países. Temos selos com diferentes representações.
Mónaco, Roménia, Kiribati, Guiana Francesa, Portugal, Nova Caledónia, Nações Unidas, Suiça, Grã-Bretanha, eis as administrações postais representadas. A maioria é da Europa, Ilhas do Oceano Pacífico e país da América do Sul estão presentes. Uma administração que representa uma instituição e não um país. Diversas situações de (in)dependência e regime político quando os selos foram emitidos.
E aqui se coloca uma primeira opção: coleccionar selos de todo o mundo ou apenas de alguns países, geralmente poucos?
Se optarmos por coleccionar selos de todo o mundo a fronteira da nossa colecção tem de ser estabelecida de outra forma, com outro ângulo de visão, com outros critérios, que abordaremos de seguida.

4. Se optarmos por alguns países temos que responder essencialmente a duas perguntas, certamente inquietantes: quantos países? quais?
Se temos o sonho de fazer uma colecção completa de um país temos de ter consciência que não é fácil. Se aplicarmos o termo "completo" de uma forma muito abrangente (significando coleccionar todos os selos, todos os inteiros postais, etc. todas as variedades, erros, provas, etc.) é praticamente impossível. Se pretendemos antes ter um bom conjunto de selos desses países, de apenas um período, ou apenas algumas séries, então poderá ser aconselhável escolher diversos países.
Pense nestas opções, mas não se preocupe demasiado. Estará sempre a tempo de abandonar a colecção de alguns países e de começar outros.
Há uma tendência quase natural para escolhermos o nosso próprio país (5) como tema de colecção. É a chama espontânea do patriotismo e o resultado de estarmos familiarizados com as suas imagens: conhecemos as paisagens, sabemos quem são os cidadãos eminentes representados, conhecemos a nossa história. Tudo nos é um pouco familiar. Os acontecimentos que fazem a nossa vivência também estão presentes em selos. Além do mais consideramos que nos será mais fácil adquirir os selos que desejamos.
São vantagens relativas para coleccionarmos Portugal, mas está muito longe de ser a única opção. Se nos preocupamos com os acontecimentos da humanidade que marcam a nossa época porque não optar pela colecção dos selos das Nações Unidas (7)? Se queremos evitar a pequenez do mercado português e fugirmos aos preços especulativos porque não escolher França, um país com belos selos e um vastíssimo mercado filatélico? Se gostamos de uma colecção "requintada" de grandes tradições porque não escolher a Suíça (8) ou a Grã-Bretanha (9)?
Diria que todas as escolhas são boas desde que recaia sobre uma administração postal séria. Por outras palavras, que emita selos para serem utilizados na correspondência. Senão correrá o risco de por exemplo, coleccionar Redonda

Bloco de Redonda
Certamente que nos interrogaremos: onde fica Redonda? No continente americano, no Mar das Caraíbas. É uma ilha sem residentes, embora existam umas explorações mineiras em actividade. Quanto a correio apenas teve um posto de correio temporário. Está sob jurisdição de Antigua & Barbuda e com esta falsa administração postal se vai sacando mais uns centavos aos filatelistas.


5. Se voltarmos a observar os selos que apresentamos no início constatamos imediatamente que existe uma outra possibilidade de escolha. Optar pelo que está representado nos selos ou pelos motivos que levaram à sua emissão.
Optamos por coleccionar selos de todo o mundo desde que (e aí está a nossa fronteira) a imagem representada nos interesse ou os acontecimentos que levaram à sua emissão sejam relevantes para nós.
No primeiro caso optamos por uma colecção temática.
A primeira ideia que nos vem à cabeça, quando ainda estamos pouco rodados nestes assuntos, é fazer uma escolha por grandes temas: deporto (optaríamos por 1), pintura (2), animais (5), barcos (6), ecologia (7), ou monarquia (9). É uma possibilidade e talvez seja um bom começo.
Se tivermos a oportunidade de consultar um catálogo de selos de um desses temas, ou tivermos de andar a procurar num catálogo geral o que foi emitido, ou ainda se descobrirmos uma página web de alguém que há anos se interessa pelo tema, rapidamente nos apercebemos que há imensas peças sobre essa temática. Concluímos que talvez seja melhor restringir mais as nossas opções E há diversas possibilidades: em vez de nos ocuparmos de toda a pintura (de que se conhecem 23.225 selos e 2.359 blocos) tratarmos só do expressionismo; em vez de escolhermos temas "banais" escolher um só nosso. Se escolhermos temas como "quedas de água", "bigodes", "pesca no gelo", "moinhos de vento", ou algo semelhante, revelamos mais imaginação, limitamos o número de peças filatélicas que nos interessam. Mas poderá não ser só vantagens: teremos maior dificuldade de inventariar o que existe, teremos pena em deixar de lado muitos bonitos selos que nos passam pela mão.
Bom, e uma colecção temática não é apenas juntarmos selos que têm uma imagem específica. É juntar os selos que têm uma imagem que nos servem para contarmos uma história. Cabe-nos a nós inventar o esquema da história e a forma de a contar.

6. Havia ainda outras possibilidades: O selo (1) mostra-nos que poderíamos coleccionar todos os selos emitidos quando do XIX Jogos Olímpicos da época moderna; o (3) recorda-nos que 1985 foi o Ano Internacional da Juventude; o (4) faz parte de uma emissão comemorativa da Revolução Francesa que envolveu a França e todos os territórios sob sua influência.
Optarmos por todas as séries que foram emitidas para um evento, como o Ano Internacional da Juventude, leva-nos a uma colecção por assunto.
Podemos também dar-lhe outros nomes. Ana Sampaio (em Filatelia, São Paulo, João Scortecci Editora) no caso do selo (3) fala em "colecção das séries ónibus" e do (4) de "colecção das grandes séries":

"Interessante e sem grandes complicações para quem gosta das coisas certinhas com começo, meio e fim, para quem não quer quebrar a cabeça e nem perder tempo, a colecção das grandes séries é ideal.
Uma Grande Série é uma emissão conjunta de um país com todas as suas colónias ou países da sua influência, sobre um determinado assunto ou acontecimento, com todos os selos ou séries semelhantes entre si. São típicas da Inglaterra e França, mas a Itália, Portugal e Espanha também têm alguma coisa no género, embora menos significativa".

Existem outras possibilidades de colecções "de todo o mundo", mas deixaremos essa conversa para outra ocasião.

7. Gostaríamos apenas de deixar aqui mais algumas pistas de selecção do que nos pode interessar.
Falemos primeiro da data de emissão.
O selo (8) é, de entre todos os apresentados, o mais antigo. Foi emitido em 1850. Todos os restantes são relativamente recentes, isto é, emitidos nas últimas décadas. O selo seguinte está a meio caminho, pois tem a data de 1918

Selo 10
10


É habitual considerarem-se três períodos:

- Período clássico: desde o primeiro selo até 1900, o qual pode ser decomposto, segundo os especialistas da filatelia clássica, em dois subperíodos: da origem até 1870 e de 1871 até 1900.
- Período semi-moderno: engloba todas as emissões desde 1900 até 1940.
- Período moderno: inclui as emissões entre o primeiro dia do ano de 1940 até hoje.

Pode-se limitar uma colecção por país ou temática exclusivamente a um desses períodos. Depende do que pretendermos. Se estamos dispostos a gastar bastante e temos preocupações de rendibilidade futura então o período clássico é ideal. Quando se pretende fazer uma colecção especializada de um determinado país e todas as peças filatélicas nos interessam, e não apenas os selos, talvez seja conveniente restringirmos a uma período.

8. Todos os selos anteriormente apresentados são de utilização genérica. Reparemos agora nos seguintes:

Selo 11Selo 12Selo 13Selo 14
11121314


Eles têm aplicações específicas e limitadas. O selo (11) só pode ser utilizado pela Sociedade de Geografia de Lisboa. É um selo "privativo" ou de "porte franco". O selo (12) foi emitido especificamente para franquiar "encomendas postais", embora neste caso também pudesse ser utilizado na restante correspondência. O selo (14) é "pré-obliterado" e o (14) é de correio aéreo.
Este pode ser outro critério de selecção.

9. Muitos dos selos anteriormente apresentados foram emitidos para comemorar um determinado acontecimento. Obviamente que depois de emitidos são utilizados na correspondência, mas uma grande parte foi desde logo absorvida pelo coleccionadores. As taxas desses selos correspondem aos preços em vigor de circulação dos diversos tipos de correspondência (ou deveriam corresponder) mas não têm a preocupação de cobrir todas as combinações de valores. No momento da emissão anuncia-se qual é a tiragem e não haverá alteração. São selos comemorativos.
O selo (9) ou (15) são de outro tipo.

Selo 15
15


As taxas emitidas, as quantidades impressas, o tempo de utilização dependem essencialmente das necessidades de circulação de correspondência. Frequentemente são objecto de diversas reimpressões e hoje em dia são impressos com cola normal e em autocolantes, em selos soltos, carteiras ou rolos. São as emissões base.
Pode-se coleccionar dos dois tipos ou só de um deles. Com o abuso que tem havido por parte de muitas administrações postais (edição de muitas séries comemorativas anuais, invenção de comemorações, criação de divisões territoriais sem significado real - porquê em Portugal emitirem-se selos do Continente, Açores e Madeira se há unidade territorial e uma única moeda?) há um interesse crescente pelas emissões base. Têm maior autenticidade postal, logo filatélica. Elas podem ser objecto de colecções que sejam um seu estudo especializado.

10. Para terminar esta conversa que já vai longa, recordamos que os selos podem ter diversos formatos, o que também pode ser um critério de opção.

Selo 16Selo 17Selo 18
161718


Redondos, ovais, em forma de coração, triangulares, forma de fruta, há para todos os gostos.

11. É verdade!?
Não tratámos de uma opção importante: coleccionar selos novos, selos usados ou uma mistura de ambos?
Como nos podemos esquecer de falar de uma das opções de coleccionismo que mais tem dividido os filatelistas e que tem dado lugar a tantos escritos?
Talvez porque não é possível tratar tudo ao mesmo tempo. Vamos com calma. Esse será o objecto de uma das nossas próximas conversas.
Não será ainda na próxima. Ainda há outras opções de escolha da fronteira das nossas colecções que gostaria de partilhar convosco.
Entretanto, e até lá, boas compras e... muito prazer!


A006/#96
2001.03.00
Publicado em iBazar (Portugal) - Magazine, Março 2001