A Beleza de um Selo

Carlos Pimenta

Prova de Cor


1. Comecemos por olhar para a beleza desta imagem.
Com um desenho refinado e uma coloração atraente e diversificada aqui temos representada uma criança, de tenra idade, ainda chupando no dedo.
Em torno de si o que poderá ser o seu futuro: os livros onde aprenderá os conhecimentos acumulados pela humanidade, a casa onde habitará e constituirá família, o mundo por onde viajará, as silhuetas de papel recortadas com que brincará, o bolo com que festejará os seus aniversários, a companheira bela e materna que o amará.
Dentro de si a vida, a beleza e a tranquilidade das flores, o sonho de voar cada vez mais alto, a subtileza da borboleta esvoaçando na luta pela sobrevivência.
Espalhado pelas partes superior e inferior da imagem um conjunto de dizeres e símbolos.

2. A imagem reproduz parte de uma peça filatélica procurada durante anos, comprada numa exposição mundial de filatelia em Paris, cuidadosamente observada com a lupa e manuseada com uma pinça, protegida numa tira quimicamente inócua, colocada num álbum cujas páginas foram desenhadas por mim.
Ao contemplá-la vibro com as suas cores, entusiasmo-me com o seu conteúdo, sinto a alegria de a ter na minha colecção e de poder usufruir os seus encantos com os outros.
Talvez o caro leitor ao olhar para a imagem tenha sentimentos diferentes, leia pormenores diversos dos meus. Talvez se tenha interessado por aspectos que numa primeira leitura me passaram despercebidos: a silhueta do cavalo junto à casa, as velas do bolo, a semelhança da habitação com um quadro de Van Gogh.
Não interessa. O fundamental é termos a felicidade da sua observação, é sentirmos esta relação com a peça filatélica, é podermos conversar sobre o assunto, trocar pontos de vista, possuirmos um valor que podemos trocar por outras peças.

3. Porque se trata de uma peça filatélica - repare que tenho tido o cuidado de não falar em "selo" - e porque estamos aqui para conversar sobre o coleccionismo de selos, convém voltarmos a olhar para a imagem e concentrar a nossa atenção sobre coisas que não foram referidas na primeira descrição.
Em baixo, em letra desenhada, lê-se "année internationale de l'enfant", enquanto no canto superior direito se destaca o símbolo referente a esse evento. Já sabemos os motivos que levaram à produção desta peça: a comemoração do Ano Internacional da Criança, decretado pela ONU para 1979. Um ano em que se pretendia chamar a atenção para os Direitos da Criança, o seu direito a um mundo melhor.
A palavra "FRANCE" identifica-nos o país que emitiu e "Postes 1979" confirma que se trata de uma edição dos correios franceses e que o ano de emissão foi exactamente o da comemoração (1979). 1,70 identifica-nos o preço a que o selo será vendido nos correios, servindo para franquiar as cartas que necessitam desse montante para circular. Custa 1,70 francos franceses, moeda única da França naquela data.
Se pegarmos numa lupa poderemos encontrar no canto inferior esquerdo "O. BALLAIS" e no direito "P. FORGET". Que significarão este dizeres? Pura e simplesmente quem concebeu e fez o desenho e quem "esculpiu" a gravura. Estamos perante uma peça filatélica que foi impressa segunda a técnica de talhe-doce, a qual exige uma gravura talhada: O desenho é gravado em traços cavados nos quais se entranha a tinta, que é depois absorvida pelo papel humedecido.

4. Já começamos a saber muito sobre o "pedacinho de papel" reproduzido na imagem. Se pegarmos num catálogo de selos da França - há vários catálogos para todos os países do mundo - poderemos ainda encontrar informações adicionais: primeiro dia em que foi posto à venda (8 de Janeiro), a tiragem (7 milhões), o seu número de identificação no catálogo: 2028 YT, isto é, o número 2028 no catálogo editado pelo Yvert et Tellier (cada catálogo tem a sua numeração e existem locais na Internet onde se pode fazer a conversão de uns catálogos nos outros).
Poderemos ainda encontrar referido no catálogo que o denteado do selo é 13 (oportunamente falaremos neste assunto!) e que há uma edição não denteada, isto é, sem o picotado que facilita a separação dos selos.
Na imagem não vemos denteado. Estamos perante um selo não denteado?
É uma possibilidade a explorar.

5. Facilmente nos apercebemos que não parece ser um selo.
Em primeiro lugar porque segundo as informações dos Correios de França, reproduzidas nos diversos catálogos, a emissão comemorativa referente ao Ano Internacional da Criança consta de apenas um selo. Na imagem temos três "selos" diferentes, pois cada um tem a sua cor, diferenciando-se dos restantes.
Em segundo lugar, podemos constatar nos catálogos que o selo que foi efectivamente emitido tem exactamente o mesmo desenho que a imagem apresentada mas as suas cores são diferentes.
De facto o que a imagem reproduz são as provas (ou ensaios, segundo alguns) de cor do selo emitido em 1979 pelos Correios franceses. Uma prova de cor já com goma atrás.


Selo


6. Segundo Oliveira Marques, ilustre historiador das emissões filatélicas portuguesas, no processo que vai desde a decisão de emitir um selo sobre um determinado assunto, sobre o qual os artistas deverão criar uma imagem, até à sua colocação à venda pode haver lugar ao aparecimento de ensaios e de provas:
... podemos definir
Ensaio como a impressão de um desenho não aprovado oficialmente, quer no todo, quer em qualquer parte, ou que, embora aprovado, não chegou a ser emitido.
Prova como a impressão de um desenho aprovado oficialmente e destinada a experiências de colorido, de papel ou de denteado.
(A. H. Oliveira Marques, Ensaios e Provas de Selos Portugueses (Continente, Ilhas Adjacentes e Ultramar), 1956, Lisboa, Eladio de Santos, pág. 11.)
Depois de terem sido apresentados vários desenhos e ter sido escolhido um, depois de se ter feito a gravura do selo, depois de se terem criado as chapas para a impressão simultânea de vários selos, depois de diversas operações, experimentaram-se combinações de cores para se escolher qual a adoptar.
Escusado será dizer que as provas de cor são em número muitíssimo reduzido, sendo bem mais raras que os selos, novos ou usados.

7. Temos a peça identificada. É uma peça postal, isto é, directamente destinada a satisfazer as necessidades do serviço postal, neste caso associada à produção do selo comemorativo que foi utilizado para pagar os transportes do correio. Por isso mesmo também é uma peça filatélica, isto é, utilizável nas colecções de selos.
Em que colecções poderia legitimamente figurar esta prova de cor?
Diria, sem sombra de dúvida e sabendo que é possível dar diversas respostas, que esta prova de cor poderá entrar em toda e qualquer colecção, desde que isso dê prazer ao coleccionador.
Tem lugar assegurado numa colecção de selos de França. Tem-no em qualquer colecção temática que trate de crianças, de eventos internacionais ou que se refira a qualquer dos elementos representados no selo (já a encontrei classificada nas borboletas porque na cabeça da criança há esse "sonho" representado). Também tem lugar em qualquer colecção especializada sobre este selo. Mas também o pode ter em muitas outras situações: se tivesse um filho nascido a 8 de Janeiro não gostaria de coleccionar os selos emitidos em todo o mundo nessa data? Este é um exemplo, entre muitos.
Existem regulamentos para a montagem das colecções quando se pretende participar em exposições competitivas, mas fora desse quadro, na relação íntima de cada um de nós com o lazer, a única limitação é o da nossa imaginação.
Aproveitemos a filatelia para desenvolver a nossa capacidade de observação, para aumentar a nossa sensibilidade, para explodir a nossa criatividade.


Nesta breve conversa, quase de investigação policial, sobre uma bela imagem, falámos de coleccionismo de selos.
Utilizámos muitos termos que fazem parte do jargão do coleccionador, referimos cuidados a ter, abrimos pistas sobre o muito que a filatelia nos pode ensinar. Ensinar sobre o mundo, ensinar sobre os selos e o coleccionismo. Ensinar sobre nós próprios. Ensinar no lazer e com prazer.
Alguma coisa foi dito, muito ficou por dizer. É por isso mesmo que nos encontraremos regularmente aqui, para conversarmos sobre estes assuntos, para sugerirmos iniciativas ou para respondermos às vossas perguntas.
Durante quatro anos fomos dedicando algum tempo diário para construir um espaço na Internet sobre a filatelia em Portugal (Filatelia em Portugal). Também lá temos sempre encontro marcado.
Aqui e lá, a filatelia está na ordem do dia.
Com amizade.
Com muita alegria e "carradas" de imaginação.


A005/#75
2001/02/28
Publicado em iBazar (Portugal) - Magazine, Fevereiro 2001